Cartas ao Espaço

Imagem

Foto: João Rocha, 2009.

Evocações como saudação

Ali sentada, a sentir.
Havíamos andado bastante. Do ponto em que existira o antigo Café Ramisco,
onde Lucia havia se encontrado com Gabriela, até casa Toki Alai.
Impressionou-me a casa, cheia de livros: nem biblioteca, nem livraria, um depósito.
Uma cadela entristecida me olhava, aninhava-se num canto da varanda. Amar um cão.
Fui lendo o lugar, os sinais, eloquente silêncio. Um desconforto tomava-me
as vias da respiração, tanta emoção me exauria. Caminhos sem travessia!
Próxima ao cão, ali sentada a sentir.
Conversei com as árvores restantes: verdes-cinza, verdes-musgo, verdes verdes.
Com as menores flores, os pequeninos frutos, a aragem de sal, Azenhas do Mar.
Veio-me um aperto no peito, o peso de uma pata, ou quase. Vida, ainda.
Passou um vento rabiscando tudo, levando em novelos o mato seco amontoado
desde a última capina. Chamei Iansã!
Um corvo passou rasante sobre o telhado da Casa da Saudação, ao fundo, sua voz
rouca a anunciar-me que o fulgor há muito se fora.
Antes da partida, um registro hoje me evoca o que ali, sentada, tomou assento em mim.
Na foto, sobre a Casa da Saudação, no entanto, os raios e a luz como textos se revelaram.

Maria José Vargas Boaventura
Tiradentes, outono / 2012

Faço dessas evocações da saudação meu documento de saída do Espaço Llansol.

Como é óbvio, através do texto, essa saída já estava prenunciada na triste visita à Casa da Saudação, mas também em minha visita ao EL. Julgo importante, ainda, deixar aqui registradas algumas observações e episódios que vivi e presenciei durante a minha estada e convivência, em Sintra e na Associação. Ali, vi o grande trabalho de organização e catalogação do Espólio feito pela Sra. Etelvina Santos e o Sr. João Barrento. Mas o encanto foi cedendo lugar ao espanto: a absoluta assepsia do que havia sido um dia a morada de alguém com tamanha força criadora, uma casateliê de um corp’a’screver, no mais largo sentido dessa palavra. Limpos os mínimos traços, os vestígios, os sinais; arranjados e arrumados todos os objetos. Não me remetiam tanto à lembrança deles, os Objetos da Obra, tão vivos no Texto. Sua forte presença, assim como a das Figuras e suas reflexões, constituíram uma grande atração ao meu olhar e intuição de artista, quando fui apresentada à Obra de Gabriela, por Lucia Castello Branco.

De um passeio pela memória, relembro: minha ideia inicial era expor os desenhos na Casa, no EL, sem moldura, sobre uma mesa, bem vivos e à altura da mão, ler alguns Textos junto aos associados e convidados presentes. Fui logo desencorajada. A exposição (apresentada em Belo Horizonte na Cas’a’screver, com ótima repercussão) Desenhos a ler na Cas’a’screver, levada com tanto carinho, teve a abertura marcada para uma sexta-feira de Carnaval, em Sintra. Apesar de uma data tão ingrata e esvaziada, tenho vivamente na lembrança a delicadeza, a presteza e a atenção de seu Diretor Sr. Élvio Melim de Souza e dos funcionários do Museu Ferreira de Castro. Salvaram-me da tristeza em tempo de alegria. Do resultado do único trabalho vendido, paguei devidamente uma comissão ao EL. Doei um dos objetos (Caixas com desenhos e textos) à Associação, outro à Sra. Etelvina Santos, e o Sr. João Barrento escolheu uma de minhas aquarelas. Pensava retribuir as gentilezas que hoje me soam como inevitáveis formalidades.

Depois, a surpresa: as imagens postadas no blog do EL, escolhidas exclusivamente pelo seu Diretor, pouco revelaram do que foram as imagens tecidas em torno de textos de Llansol, apesar de muitas terem sido enviadas com boa resolução e com antecedência.

Mas, como se lê nas cartas de Maria Gabriela Llansol transcritas no “Tratado” de Lucia Castello Branco, essas imagens inspiradas em sua obra sempre foram apreciadas por Llansol, que chegou a escolher um de meus trabalhos para a capa de seu último livro, Os cantores de leitura. A aquarela, um presente meu para Lucia Castello Branco, foi generosamente enviada para Llansol, como um presente nosso para ela. Mas os atuais dirigentes do EL nos disseram que o editor da Assírio & Alvim havia preferido uma foto de São Bento, de Etelvina Santos. Maria Gabriela Llansol estava doente e já, então, o seu desejo expresso não tinha mais a força do vivo. Quando estivemos no EL, em fevereiro de 2009, procuramos a aquarela, que estava, na ocasião, desaparecida. Como desaparecidas certamente estarão as cartas de Lucia Castello Branco e seus orientandos para Maria Gabriela Llansol e as páginas de cadernos llansolianos – e serão várias, certamente – que fazem referência a este grupo brasileiro, como ela escreve, de Belo Horizonte.

Outras decepções viriam se somar: uma Assembleia sob a exclusiva batuta do Sr. João Barrento me deixou desapontada, os poucos sócios presentes então, não eram encorajados a se manifestar, mas a acatar suas decisões. A seguir, seu desagrado veemente e indelicado diante do vídeo Redemoinho Poema que Lucia lhe apresentava, foi reverberando pela Casa, calou meus pincéis, desbotou as cores que repousavam sobre um lindo prato que fora de Gabriela, encolheu os papéis onde eu desenhava as impressões de “tudo que restava de uma vida que passara ali”. O mais patético é que os “lugares e pessoas da Obra”, questionados nesse vídeo, lhe serviriam para conduzir o roteiro do “seu” vídeo “As Conversações com Bento”…

Maiores contradições e calúnias viriam nas cartas enviadas em nome da Associação Espaço Llansol. Algumas de suas afirmações me soaram psicodélicas e delirantes, como uma que consta num dos esclarecimentos enviados “um livro feito em segredo por Lúcia Castello Branco e seus amigos”. Esse livro, ao qual o Sr. João Barrento se refere, foi resultado de um caderno feito às claras, registro da nossa visita ao EL em 2009, a seu convite. O caderno, suporte original, pertenceu a Gabriela e nos foi presenteado por ele, já que não fora usado. Como não podíamos ver, nem manusear os cadernos de Llansol, decidimos fazer um Diário, ali registrar o amor ao Texto com citações, paisagens, objetos, emoções. Nada lhes foi ocultado. Em muitos momentos até o convidamos, a ele e à Sra. Etelvina, a participar, com o intuito de lhes proporcionar uma pausa na catalogação e digitalização, experimentar o alargar-se do Texto, como tanto queria Gabriela. Riam, furtando-se a entrar no que, talvez, considerassem uma brincadeira inconsequente e juvenil. Sim, os brasileiros somos alegres e juvenis, aprendemos com os índios, que sobreviveram aos portugueses e restaram aqui, o “jogo da liberdade da alma”, a “língua sem impostura”, a viver sem (en)fado. A Editora UFMG tê-lo publicado o surpreendeu. Chamá-lo de “ ilegal à luz do Código do Direito de Autor, por usar abusivamente o nome de Maria Gabriela Llansol”, depois de divulgá-lo elogiosamente no blog do EL(em 17 de Março de 2010), é, no mínimo, a mais pura incoerência do Sr. João Barrento. Se tivéssemos usado nossos nomes nessa límpida homenagem a Llansol na capa do Caderno, seríamos, agora, usurpadores?

Pausa. Detalhei alguns, entre tantos absurdos declarados pelo Sr. João Barrento, para claramente expressar os meus motivos de saída, além dos jurídicos e de todos os que sejam dos Dez Associados do Espaço Llansol. Respondo, assim, finalmente, à insinuação leviana do Sr. João Barrento de que seriamos todos insuflados por Lucia Castello Branco, principal alvo de suas acusações improcedentes, ora convenientes, e a quem ele julga comandar as pessoas como ele próprio sempre fez e o faz com grande parte de seus associados. Somos um ramo a brotar, cada flor, plenamente, conscientemente!

Aqui, sentada a sentir.
Iansã, Orixá dos Ventos e Raios, Energia de que sou apenas uma centelha, me chama lá fora. Balança as árvores que vicejam, espalha as folhas da cerejeira abrindo espaço para as flores que virão. A tempestade passa. Um gato e um cão amados sonham aos meus pés, na boa ventura de crer “que o interior e o exterior da beleza das casas” podem ser coincidentes.

Aqui, Maria Gabriela Llansol me visita sempre, não a do “culto”, que o Sr. João Barrento forjou na matéria primordial de sua mente, mas a Gabriela da Luz da Escrita, do Texto que viaja a navegar nas águas cheias de vida, doces, a correr para temperar o mar. Há tantas formas de culto… Aqui temos uma religião brasileira, sincrética, nascida do encontro das crenças cristãs, indígenas e africanas em permanente diálogo com as forças da Natureza. No fundo das ondas, vejo crescer as flores de um “jardim abismático que o meu pensamento permite” ser lúcido para me retirar do Espaço L, que um dia sonhou com a Liberdade, me afastar desse Espaço E, de Embolia, e me integrar definitivamente ao Espaço R, de Raio sobre o Lápis, a desenhar, a ler e a escrever.

Maria José, Boaventura!

PS. Percebo que esse grupo d’Aquém Mar ao apontar “a impostura” e criar um redemoinho, embora denominado grosseiramente de “burburinho”, levantou questões que precipitaram uma abertura e “alargamento” do Texto, que esperavamos encontrar na visita ao Espaço desde 2009. Valeu! Aleluias!

“________ que as imagens assim pairantes na memória____
acabam por chegar a um destino incorruptível.”
(Llansol, in CL)

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