Cartas ao Espaço

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TRATADO SOBRE CARTAS DE AMOR
EM MEMÓRIA DE MARIA GABRIELA LLANSOL

“Estar no amor, permanecer no amor, não pode deixar de ser fulgor deserto.”

Maria Gabriela Llansol

Porque de tratados talvez entendam aqueles que falam a mesma língua – a portuguesa –, mas também porque “a língua é a portuguesa, mas o pensamento está a alargar-se”, debruço-me sobre as cartas de amor de Maria Gabriela Llansol para escrever, a partir delas, o meu tratado de desligamento do Espaço Llansol, Espaço a que fui ligada desde sua fundação, mas a que me liguei formalmente apenas em 2007, segundo declaram, em documento oficial, seus atuais dirigentes, embora, contraditoriamente, tenha sido sócia fundadora desse Espaço, conforme o atesta a carta em anexo, assinada pelo Sr. Barrento, datada de 05 de junho de 2008. O fato é que, tendo sido ligada a esse Espaço , conforme o declaram as 29 cartas de Maria Gabriela Llansol, a mim endereçadas, desde a sua fundação, em 2006, e mesmo antes de sua fundação, e mesmo antes do aparecimento daqueles que hoje se agarram a seus manuscritos, porque é o que lhes resta como “bloco de puro Desejo” (Barthes) do corpo que os escreveu, vejo-me, hoje, compelida a dele me afastar.

Declaro, assim, o meu desligamento formal do Espaço Llansol que ajudei a fundar, sim, por motivo de discórdia – corações separados –, e não por discordar do que se estabeleceu na “Carta de Princípios” desse Espaço, mas pelos motivos visíveis que atestam a direção diametralmente oposta que seus atuais dirigentes vêm dando a esses princípios norteadores do texto llansoliano, direção que lamentavelmente nos faz recordar cenas aviltantes de nossa história (in)comum, quando alguns estendiam suas roupas imundas, contaminadas pelas doenças contagiosas, para que outros – que ainda não conheciam nem a doença, nem a imunidade – viessem a morrer, silenciosamente, sem que nessa guerra se gastassem munições, nem se deixassem, à mostra, os vestígios.

Declaro o meu desligamento desse Espaço porque, como Maria Gabriela Llansol e com ela, busco a cura – a “cura d´íris” – e a “compaciência pelos corpos que sofrem” e a “alegria pelos que amam”. E, entendendo que essa direção deve prevalecer sobre qualquer “miséria alucinada”, escolho o tratado do amor – o tratamento do amor –, em lugar do amódio e de amorte, porque, ainda que malogremos “sempre ao falar do que amamos” (Barthes), resta-nos o texto – a “restante vida” – , a nos apontar uma direção de tratamento e a nos ensinar que “o devir de cada um está no som de seu nome”.

Assim, nessa declaração do amor (por Maria Gabriela Llansol) e da discórdia (pela direção que vem sendo dada ao Espaço Llansol), declaro, em meu “Tratado sobre Cartas de Amor em memória de Maria Gabriela Llansol”, o meu desligamento formal do Espaço Llansol, sem usar das palavras que a “miséria alucinada” escreveu, ao lado do meu nome – mas deixando-as à deriva, para aqueles que, no futuro, queiram rastrear, não as histórias de “furor e sangue”, mas as histórias silenciosas da perversão e suas investidas de contágio –, mas respondendo ao documento que foi enviado em 26 de abril de 2012 aos “dez associados do Espaço Llansol”, através da direção do EL. E passo a declinar, como o fiz ao longo desses 20 anos, as palavras de Maria Gabriela Llansol, em cartas pessoais e intransferíveis, a mim dirigidas.

1 – “Sobre papel azul, digo que vos amo” – Carta de março de 2007, dirigida a “Lucia, Lou, Inês, João Rocha, Vania” – Nesta carta, escrita um ano antes de sua morte, Maria Gabriela Llansol se dirige a alguns de seus legentes em Belo Horizonte, sabendo que, sendo “absolutamente sós”, eles não estão sozinhos. Na lateral do papel, escreve-se, em letra frágil, o nome da gata “Melissa”, acompanhando a frase: “Extensível a todos que também estão convosco”. Estas palavras e a letra frágil que as escreve fazem-me lembrar da frase escrita em seu último caderno encontrado no EL, em letra quase ilegível: “Eu vou precisar muito de amor”.

2 – “Recebi esta tarde a tua carta, fora do habitual e com um apelo. Envio-te Finita já, mas quanto ao apelo, dá-me tempo para poder reflectir intuitivamente.” – Nesta carta, de 1 de setembro de 2006, Maria Gabriela Llansol respondia a um chamado que eu lhe fazia para ajudar-me, como “mais velha”, a decidir acerca de uma herança. Suas palavras aqui, e também as palavras da carta seguinte, em que ela me aconselhava a receber a herança e fazê-la chegar a outros que dela necessitassem, “ser apenas a passagem”, fazem-me pensar, hoje, na triste história de sua herança e de seu espólio.

3 – “Gostei muito de Corp´a´screver, da ideia de explicitação e busca que tomou corpo no caderno vosso – de cada, mas bem agregada no objectivo comum. Sensibilizou-me, e não sabendo, nem devendo talvez agradecer, basta-me ter a certeza que o texto que todos, afinal, vamos desdobrando, um dia, para bem, existirá. Pois já começou a existir há muito.” – Nesta carta, de 1 de novembro de 1998, Maria Gabriela Llansol refere-se à edição de textos de alunos, escritos a partir de seus textos, e publicados nos Cadernos Viva Voz, da Faculdade de Letras da UFMG, os mesmos para os quais ela escreveu, em seguida, a “Carta ao Legente”, como prefácio do V. 2 desta mesma publicação, intitulada Corp´a´screver.

4 – “A Carta ao Legente apareceu-me sob a forma de uma inesperada surpresa, de que também gostei muito. Ler, escrever, corresponder, receber resposta criativa à comunicação que fizemos, suspeito que é uma das possíveis consoladoras aberturas para o espaço edênico. Achei lindamente suave o selo emblemático. Agradeça por mim a quem o fez. E parabéns ao Editor – seu marido-poeta, como diz.” – Na mesma carta, de 1 de novembro de 1998, Maria Gabriela Llansol refere-se, então, à primeira edição da Carta ao Legente, com tiragem de 30 exemplares fora do mercado e sem fins lucrativos, feita pela Edições 2 Luas, de Belo Horizonte. Refere-se, ainda, agradecida, ao trabalho de ilustração, realizado por Maria José Boaventura, e de edição, realizado por Paulinho Assunção.

5 – “Eu gostaria muito, de facto, ir ao Brasil. E o vastíssimo oceano? De mar e de horas sobre o mar? Assim, encontro-me algumas vezes a pensar nele. E nos circuitos concretos e imaginados de viagem.” – Carta de 20 de novembro de 2000 – Nesta carta, como em outras, Maria Gabriela Llansol considera concretamente a possibilidade de vir ao Brasil, como se pode ler, também, em alguma página de seu exemplar do I-Ching que, se não se perdeu, estará arquivado em sua biblioteca, no EL.

6 – “Querida Lúcia, pensamentos matinais, porque é de manhã. Retorno às cartas, onde me sinto mais a escrever segundo a minha natureza; gostei imensamente de “os absolutamente sós”, pelo tom e pela perspectivação de uma abordagem que integra esses supostos separados num mundo de concórdia que está nascendo para eles. Como estou quase a acabar Parasceve (Puzzles e Ironias), liguei o que escreveu à ironia que, por vezes, tem que recorrer o pensamento inteligente. Como vai? O seu livro diz-me que vai bem, o que muito me alegra.” – Carta de 25 de setembro de 2000 – A referência aqui é ao livro Os absolutamente sós: Llansol – a letra – Lacan, de minha autoria, livro rigorosamente situado na linha de pesquisa “literatura e psicanálise”, e publicado em 2000, pela Editora Autêntica, a mesma que me procurou, em 2010, com o convite para a coordenação das edições de Maria Gabriela Llansol no Brasil e que publicou, em 2011, os Diários de Llansol, dos quais fui a “editora responsável”. Essa carta faz-me lembrar que, pouco tempo depois da publicação de Os absolutamente sós, Maria Gabriela Llansol me solicitou o envio de 25 exemplares do livro para oferecer ao “grupo de estudos” que começava a se formar em torno de seu texto. A Faculdade de Letras da UFMG fez a remessa dos livros para Maria Gabriela Llansol e alguns deles ainda se encontravam, em 2009, no EL, sendo um deles todo anotado pela autora.

7 – “Querida Lúcia, telefonema, escritos trazidos pela Vania, carta – tudo isso te agradeço. Os apontamentos sobre a escrita do passe revelaram-me muito de ti e de tuas órbitas. O ano já principiou e, deste princípio, retenho que haverá massa e mãos para o transformarem em trabalhada matéria. Assim somos nós, com nossos desejos de mundo outro, que já tentamos andar a fazer.” – Carta de 6 de janeiro de 2005 – Aqui Maria Gabriela Llansol faz referência ao “texto de passe”, experiência rigorosamente psicanalítica a que me submeti em 2003 e cujos apontamentos foram enviados a Llansol, antes mesmo de sua publicação. A carta atesta o quanto Maria Gabriela Llansol se interessava por assuntos relativos à psicanálise, como, aliás, se pode ler em seus cadernos inéditos e em seus livros publicados. A carta revela, ainda, que Llansol se referia, sempre, a um trabalho conjunto, realizado por seu texto e seus legentes.

8 – “Recebidas as três vertentes de Brancador, com a excepcional Emily. Fora do comum por ter um olho muito especial para ver o que se lhe oferecia do mundo. E assim nos foi comunicando um pessoalíssimo sistema de linguagem. Posso imaginar o que terá sido o convívio de um tempo com ela. Obra e lugar onde viveu. O que me enviou, e que com tanto gosto li, está impregnado da sua comovente figura. Mas tudo segue e se vai movendo para diante, e é agora a altura do nosso/vosso colóquio de Belo Horizonte. Com a Vania e o Mauro houve um belíssimo contacto, num sábado em que também demos algumas voltas por Lisboa e que incluiu uma ameníssima conversa (…)” – carta de 17 de maio de 2002 – Maria Gabriela Llansol refere-se, aqui, aos três textos, na ocasião ainda inéditos, que deram origem a meu livro A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson, com tradução de poemas e cartas de Dickinson feitas por Fernanda Mourão, publicado pela Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro. Refere-se, ainda, às conversações acerca do I Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol, realizado em Sabará, no Brasil, por um então pequeno grupo de legentes, dos quais faziam parte Mauro Cordeiro Andrade e Vania Baeta Andrade que, recém-casados, em lua-de-mel em Lisboa, foram a seu encontro.

9 – “No último encontro que tive aqui em Sintra com a Rebeca, ela trouxe-me textos seus, assim como textos, creio, de seus alunos – e uma cassette vídeo. Esta, infelizmente, devido ao sinal não ser o mesmo, não pude visioná-la, mas os textos pude lê-los – e encheram-me de uma imensa e boa emoção. Não só os seus, na luta que neles se vislumbra para uma outra escrita –, mas igualmente os outros, os escritos por gente que captou a natureza do texto, e procura encontrar o seu caminho próprio para o fulgor. Confesso que me senti emocionada, por sentir que há mundos que outros – que não eu –, começam a percorrer. Se os vir, transmita-lhes o meu sentimento e o desejo profundo que sinto de que não desistam de perseguir o fulgor. Diga-lhes que ele, por natureza, muda de lugar. Diga-lhes que não fiquem magoados, mas partam, incansavelmente, à procura do novo lugar.” – Carta de 17 de fevereiro de 1997 – Nela, Maria Gabriela Llansol faz referência à visita (para entrevista que faz parte de sua dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura na UFMG) de Rebeca Cortez, em 1997. Refere-se, particularmente, aos textos de Paulo de Andrade, Cristiano Florentino e Sérgio Antônio Silva, que aparecem também mencionados em excertos de seu diário Inquérito às quatro confidências, que decidiu não publicar, mas que posteriormente foram reunidos na Revista Colóquio-Letras, como o nome de “O sonho de que temos a linguagem”. O trecho aqui citado, ao mencionar que o “fulgor muda de lugar” e que não devemos ficar magoados, mas partir, “incansavelmente, à procura de novo lugar”, parece-me, hoje, ressoar com força, neste momento em que alguns legentes expressam as razões de seu desligamento do EL.

10 – “Li atentamente seus textos, querida Castello Branco. Há muito que estou afastada das leituras psicanalíticas, mas foi com imenso agrado que segui as suas diversas exposições, atenta ao caminho percorrido. Fiquei particularmente tocada pela tentativa de estabelecer proximidades entre a impostura da língua e o conceito de semblant, assim como com a proximidade entre os meus textos e a [lituraterra]. Não creio ter alcançado tudo, mas ver alguém debruçado comigo sobre o texto é uma experiência deveras ´con-fortante´. Gostaria de os ver publicados em Portugal.” – Ainda na carta de 17 de fevereiro de 1997 – Aqui se verifica, mais uma vez, a interessante interlocução que sempre estabelecemos, Maria Gabriela Llansol e eu, em torno não só de seus textos, mas também de conceitos da psicanálise.

11 – “Haverá observação do livro, leituras, música ao piano e, no final, um jantar. Gostaria que estivesse presente.” Carta de 25 de junho de 2000 – Aqui Maria Gabriela Llansol se refere ao que chama de “convívio” em torno do livro Onde vais, Drama-Poesia?, livro ao qual me sinto particularmente ligada, por ter recebido, de suas mãos, em 1999, cópia da versão dactiloscrita, no momento em que Llansol a enviou à editora Relógio D´Água.

12 – “Querida Lucia, especialmente Lucia, num momento tão matizado de imagens _______vim com a Cynthia à Biblioteca Municipal que, além de encerrar livros, tem pela paisagem circundante um contacto directo com a Serra (…) O corte da minha conversa com o Augusto foi brutal, e parece-me que a realidade se distanciou de mim, criando um quotidiano tão difícil, como beber sem água. Só me sinto bem projectando longe, e foi assim que o Espírito dessa casa nasceu, Deus queira que o ruah a traga e habite breve. Seria o que eu, nós, ainda não sabemos pensar, um lugar de pouso para algumas asas sonhadas que, batendo, oxigenam a asfixia de um mundo por romper. Juntos, somos uma força magnífica e nova, uma energia magnífica e nova. É o que experimento convosco.” – Carta de 12 de dezembro de 2003 – Aqui situo um dos “primeiros pensamentos verdadeiros” que me foi dirigido, em carta de Maria Gabriela Llansol, acerca da criação do que, posteriormente, viria a se chamar “Espaço Llansol”. Estou certa de que a criação desse Espaço esteve ligada, em sua origem, à presença dos legentes de Belo Horizonte a seu lado, pois é somente a eles que Maria Gabriela Llansol poderia estar se referindo, nesse momento, através do pronome “nós”, por ela sublinhado. Estou certa, também, de que a presença de Cynthia Santos Barra, a seu lado desde a morte de Augusto Joaquim, em 2003, até a sua morte, em 2008, com visitas regulares, telefonemas semanais, cartas quinzenais, constituiu, em grande parte, o “Espírito dessa casa”. É com grande tristeza que vejo, hoje, o quanto esse Espírito se desvirtuou e o quanto o ruah tem se ausentado dos trabalhos que vêm sendo realizados por seus dirigentes, o que se evidencia não só nas publicações sem fulgor posteriores à sua morte, como na nítida tristeza estampada no blog do EL.

13 – “Lúcia, Se o silêncio ditasse palavras – era o que eu te escreveria. O prisma roda, de um lado, e por vezes há o arco-íris do trabalho a realizar (vivê-lo, sobretudo), do outro lado, o mais perigoso vazio. // Mas a força está no silêncio de quem escreve, e na abertura ao silêncio de quem lê.// Recebi a tua casinha, que mais parecia uma alma. Olho para ela, e vejo nossas almas unidas para o trabalho. Quero muito a todos vós. MGab.” – Carta de 18 de novembro de 2003 – Maria Gabriela Llansol refere-se, nesta carta, a uma casinha de cerâmica, que eu lhe havia enviado de presente. Reproduzo, aqui, a carta na íntegra e sobre ela só posso escrever as palavras da própria Llansol: “Que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?”

14 – “Voltei a escrever, escrevo sempre, mas vida e escrita devem coincidir, e tu sabe-lo bem quando dizes que este texto – o meu – faz viver. O nosso, pois ele pertence a quem o sustenta, e lhe dá asas para a viagem (…) Que seja somente esse – livros meus – o preço aceite pela psicanalista pelo dom que dá, faz-me ter um sentimento de júbilo. Cura e texto, trocando-se, que mais poderíamos desejar?” – Carta de 7 de março de 2004 – Nesta carta, mais uma vez Llansol faz referência à psicanálise, aqui em gratidão ao fato de eu ter pedido, como pagamento da Editora Relógio D´Água pela publicação de dois textos meus como posfácio de Cantileno, “apenas” livros da autora, para emprestá-los a meus alunos. O mais importante desse fragmento, a meu ver, refere-se à “troca verdadeira” entre a cura e o texto. Sublinho, ainda, a passagem do possessivo “meu” para “nosso”, referindo-se ao texto de sua autoria, com a declaração de que o texto “pertence a quem o sustenta”. Parece-me lamentável que os dirigentes do EL não sejam capazes de entender, ainda, a extensão e a potência dessa frase.

15 – “Penso como a Lucia – o livro não precisa de qualquer prefácio. Aqui, só as reedições, contendo os já conhecidos, têm prefácio, melhor, posfácio. Assim, quem lê tem toda a liberdade de ler, segundo o leitor que é. Mas, para situar o livro, uma orelha com uma nota de apresentação da Lucia será bem vinda (…) Eu sinto que sou um ponto de partida que se cala para poder continuar a engendrar e a fluir, e acho excelente que seja a Lucia a perspectivar o futuro. Será certamente bem, pois vai vos cabendo a impulsão das “pedrinhas” que rolam.” – Carta de 19 de abril de 2004 – Nesta carta, Llansol se refere à edição (em andamento, na ocasião), do livro Um beijo dado mais tarde, no Brasil, através da Editora Lamparina. Llansol suspendeu a edição, por discordar de atitudes da editora que aqui não merecem ser mencionadas, mas o fato é que Llansol havia me incumbido, desde o início, da publicação de sua obra no Brasil, razão por que me sinto honrada de ter sido a “editora responsável” pelos Diários de Llansol, sete anos depois, pela Editora Autêntica. O fragmento da carta mostra o respeito que Llansol sempre demonstrou com relação a meu trabalho de legência e de transmissão de sua obra.

16 – “É paradoxal o título do teu livro ´O amor não vazará meus olhos´, porque habitualmente se conclui que o amor é suave. Mas o amor é conflitual, por excelência, não progride sem os múltiplos riscos que enumera. Se desejares o Prémio, eu desejo que tu o tenhas. O título ressoa ___ (…) ´Um Livro de Asas´ é uma justa designação para o impulso que nós, em conjunto, sentimos. Desiludir um livro de asas, é impossível. Continuemos. Abraça-te muito, abraça-vos, muito. MGab.” – Carta de 13 de maio de 2004 – Nesta carta, Llansol refere-se a um dos meus romances, O amor não vazará meus olhos, que terminou por receber o prémio da Fundação Clóvis Salgado– Palácio das Artes, em 2004, e a Livro de Asas, que Vania Baeta Andrade e eu organizamos, com textos do I Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol, que realizamos em 2002, em Sabará. Sublinho, aqui, a frase: “Desiludir um livro de asas, é impossível.” E o chamamento: “Continuemos”.

17 – “Já algum tempo passou, depois do nosso encontro no pequeno restaurante que, por sinal, se chamava “Apeadeiro”, e ambas estamos certamente prosseguindo as actividades que sempre nos esperam – escrever e ensinar, ensinar e escrever, tudo vivendo. Em breve sairá novo livro “Ardente texto Joshua”, de que muito gosto pois, entre os livros, há também os preferidos por razões pessoais, muito próprias.” – Carta de 24 de fevereiro de 1998 – Assinalo, aqui, uma importante articulação que se estende ao longo da obra de Llansol e que a mim, particularmente, me tocou: “escrever e ensinar”. Posso dizer, hoje, que Maria Gabriela Llansol foi importante não só em meu trajeto como escritora, mas, sobretudo – e isso ainda é surpreendente, para mim –, em meu ofício de professora, interferindo, diretamente, em meu “método” de ensino e transmissão.

18 – “Pouco a pouco, e como não sei ´nem o dia nem a hora´, mas sei que acontecerá, o imperativo de criarmos um Espaço que possa vir a abrigar a Obra que escrevi, tornou-se muito claro. Acolhê-la, orientá-la, desdobrá-la, de acordo com a sua realidade mais intrínseca. Um encontro de datas – uma celebração em volta de Teresa de Lisieux e o dia da morte do Augusto aqui – acabaram por determinar o momento. Os companheiros deram apoio, os que não colaboravam diretamente com o GELL juntaram-se a eles _____ e tudo nos surgiu viável, com caminho aberto para esse novo princípio de futuro. Nessa sequência vos convidou também o João, expressando o desejo de todos nós. Acho-me, portanto, bastante alvoroçada e Témia, com o júbilo da infância que tanto conhece e reconhece, é um apoio meu, no fundo do livro. Sinto-me, apesar de tudo, muito frágil.” – Carta de 7 de fevereiro de 2006 – Como é evidente, pelas palavras de Llansol, o convite para integrar o Espaço Llansol foi dirigido a mim e a outros legentes de Belo Horizonte, no ato de sua fundação.

19 – “Toco agora no segundo ponto, que creio poder relacionar-se com o primeiro, e me fez reflectir. Será que é esta a melhor altura para a preparação e realização de um Colóquio no Brasil? Ou não?// Confesso que o tema A Cura, proposto para o Encontro, não me atrai. Deixa-me pouco à vontade como método e operador possível veiculado pelo texto, Que, acidentalmente, a linguagem transforma se puser face a face interlocutores certos um para o outro – transforma. Mas que um texto, tão livre, se veja orientado para tal projecção, não me parece adequado. A sucessão dos livros não está orientada para nenhum objectivo _____ expõe paisagens.// E páro – um tanto embaraçada na minha meditação. (…) Não sei se vos vou mandar esta carta. Mas vou _______ pois mútuo é também a frontalidade do afecto,//que através de ti, querida Lucia, estou enviando a todos.” – Na mesma carta de 7 de fevereiro de 2006, Maria Gabriela Llansol apresenta, então – não sem embaraço e sem alguma hesitação – as razões que a fariam não preferir o tema da cura para um colóquio em torno de seu texto. Isso se deu, sabemos, pouco antes da publicação de Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004, e às vésperas da fundação do EL. É nítido que o tema do colóquio foi discutido por Llansol e os legentes de Lisboa, não só porque eles sabiam da existência dessa carta – conforme o mencionaram em e-mail recente, a nós enviado –, mas também pelo embaraço de Llansol, ao expor seus argumentos e mesmo por sua hesitação quanto ao envio da carta. Vê-se, nitidamente, que também havia aí uma oposição do grupo português com relação à realização de um Colóquio no Brasil, justo no momento em que se dava a fundação do EL, em Portugal. Entendemos, sim, que Llansol não se sentia à vontade com o “método e operador possível veiculado pelo texto”, mas entendemos também que faltou, entre nós, uma discussão mais aprofundada da questão. Na ocasião, simplesmente desistimos da realização do Colóquio e voltamos a levantar essa possibilidade, em 2011, dentro de outro contexto – o dos trabalhos do LIPSI, Núcleo de Pesquisas em Literatura e Psicanálise, da Faculdade de Letras da UFMG, e após a publicação de Amigo e Amiga: curso de silêncio de 2004, livro em que a questão da cura é nitidamente exposta. Tivemos como base a frase de Llansol, escrita na carta de 7 de março de 2004: “Cura e texto, trocando-se, que mais poderíamos desejar?” Julgamos, então, completamente improcedente a oposição frontal que o Professor João Barrento fez ao tema do Colóquio, valendo-se desse motivo para iniciar seus ataques ao trabalho que vem sendo feito, há vinte anos, em Belo Horizonte, com o visível respaldo e merecido respeito de Maria Gabriela Llansol.

20 – “Gosto muito de tudo o que está acontecer. Fruto de um trabalho realizado de dedicação à escrita e de um fio muito fraterno, que se vai estendendo entre nós. O ´anel´que aprecias tanto. Cynthia partiu e deixou muita esperança. Que o Mauro e a Vania venham em breve para Paris é igualmente uma alegria. Já vejo a Vania a tecer proximidades através de Teresa de Lisieux (que no Alto Voo e no Ardente Texto surge a mesma e outra). Sei que a tua actividade é múltipla. Dá-me também notícias do que tens escrito (…) Achei o Ricardo e a Alice amabilíssimimos. E assim vou conhecendo ´mais Brasil´.” – Carta de 6 de julho de 2004 – Nesta carta, Maria Gabriela Llansol se refere aos amigos legentes que iam estendendo “um fio muito fraterno” entre nós: Mauro, Vania, Cynthia. E a dois novos conhecidos brasileiros: Ricardo e Alice, meu irmão e cunhada, que levaram até ela o adiantamento de 1.000 euros, da Editora Lamparina, que ela não hesitaria em devolver, ao desistir da edição de Um beijo dado mais tarde, por problemas com a editora, dizendo-me simplesmente: “Deixemos os livros circularem em xerox. Foi assim que eles sempre circularam no Brasil. O livro saberá a hora exacta de ser publicado.” Sua clareza, sua generosidade e seu poder de decisão certamente imprimiriam uma outra direção ao EL, caso hoje ela ainda estivesse viva.

21 – “O Augusto não tem estado bem de saúde, mas estará certamente em forma para o Arrábido. E assim termino. Hoje está fresco, mesmo nublado, em contraste com a última semana que foi tórrida, e devastou o interior do país com incêndios. Sofremos com o calor e a inquietação de ver extensas zonas florestais dizimadas, e as pessoas e os animais ao desamparo, sem suas casas, pastagens e abrigos (…) Querida Lucia, até breve. Por seu intermédio, esta carta é também para os companheiros e legentes que se deslocarão, em finais de Setembro, para este mar.//Abraços do Augusto.//Um grande e grato beijo – meu e do texto. MGab.” – Carta de 12 de agosto de 2003 – Aqui Maria Gabriela Llansol se refere ao início da doença de Augusto Joaquim, doença da qual ele morreria poucos meses depois. Refere-se, também, ao II Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol, na Serra da Arrábida, do qual fui uma dos três conferencistas e no qual estiveram presentes 12 legentes de Belo Horizonte.

22 – “O Brasil prende-me muito, com a vossa ´cintilante´ e frutuosa amizade, dedicada a mim própria e à navegação do texto. Esperemos, mais uma vez, onde ele nos leva, e o que proporciona. Ele será, sempre, nosso indefectível companheiro (…) Vou passar a escrever-te mais vezes. Vivo bastante centrada na existência dos dois grupos – este e este (não obstante a distância). Dirijo uma seta para aí, esta carta que tanto deseja a vossa presença humana ___ voará mais depressa.//Abraços meus para as coisas e pessoas daí, principalmente incluindo Marijô, Tiradentes e amigos caminhantes, e caminhando em diferentes trabalhos e áreas. O trabalho tornou-se um grande centro afectivo, a inteligência é impelida por ele, e assim quereria que se me deparassem os novos dias ____________mas com equilíbrio. Afectuoso abraço MGab.” – Carta sem data, com selo de 2006 – Nesta carta, Maria Gabriela Llansol atesta nitidamente a existência de dois grupos: este e este. Diferentemente dos atuais dirigentes do EL, que declaram não haver grupo algum no Brasil, Llansol sabia que os grupos eram distintos e alimentava, com o EL, a esperança de uma articulação entre os grupos. Foi nisso que apostamos, ao nos filiarmos ao EL, e ao nos deslocarmos diversas vezes até Portugal. Mas bastou que Llansol desaparecesse da cena para que os trabalhos do grupo de Portugal tomassem a triste direção dos Príncipes.

23 – “Muito querida Lucia, creio que posso tranquilizar-te um pouco (ou muito?) quanto ao meu estado de saúde. // Como que nem um lobo e já aumentei 5 kgs.// Principiei as actividades e fiquei muito melhor entrando no mundo activo (…) Escrevo-te sentada numa poltrona e o meu escritório não é cómodo. Antes pelo contrário.//Vejo que tens andado a trabalhar em vários campos e que a tua actividade se multiplica. A energia fecunda.// Vou agora dedicar-me à revisão de ´Os Cantores´. É feriado e o dia mantém-se imóvel. Nem o zumbido de uma abelha. Vou aproveitar o sossego. Com todo o meu afecto, o abraço de nossa longa e velha amizade. MGab.” – Carta de 1 de maio de 2007 – A letra de Llansol é trêmula e insegura, nesta carta. Vê-se, nitidamente, o desconforto. Esta carta, no entanto, posterior à doença, à intervenção e à internação de Llansol, atesta significativa melhora de seu estado de saúde. Mas essa melhora, como sabemos, foi passageira.

24 – “Por que não receber a herança e encaminhá-la para outros que a transformem em lenitivo das suas amarguradas carências? Seres apenas um rio de passagem que leva a outros e nada detém dessa recusa tão mortífera e mortal. E o que sabemos nós de uma alma em fúria? Eu, espero, sei ____________ ficas liberta. Tudo passou, finalmente.// Acabei de jantar. Tudo está muito tranquilo e sinto-me uma tua amiga muito próxima. Fala com o texto que eu tenho a certeza que amas. De qualquer modo ____ conclui (…) MGab”. – Carta de 5 de setembro de 2006 – Desta carta, talvez a mais íntima das cartas que recebi de Llansol, destaco o trecho mais preciso, por julgar que ele se atualiza, hoje, no momento de meu desligamento do EL, por razões que envolvem herança, almas em fúria, amarguradas carências. Assim, converso com o texto, que tanto amo. Sei que já sou, para muitos, um “rio de passagem que leva a outros e nada detém dessa recusa mortífera e mortal”. E concluo: “Tudo passou, finalmente.”

25 – “Se quiser, pode tentar, a alegria é minha, que sejam cantados pequenos excertos que vier a escolher. Creio que o texto também aderirá bem ao canto.” – Carta de 19 de setembro de 2002 – Maria Gabriela refere-se, aqui, à nossa preparação para o I Colóquio Internacional Maria Gabriela Llansol, em Sabará. Autoriza-me a cantar excertos de seus textos, com os demais legentes brasileiros. Seis anos depois, seria publicado seu último livro em vida: Os Cantores de Leitura.

26 – “Muitas linhas convergem, nós convergimos. Que seja cada vez mais ________________. Grande beijo, MGab. – Carta de 6 de novembro de 2004. – Sublinho, aqui, a convergência das linhas, o “nós”, e o desejo de Gabriela de “cada vez mais”.

27 – “Falta-me uma flor branca para compor, um ramo lilás. Essas, são as cores de hoje. E, para saber com rigor onde me encontro, hoje, fui ao jornal, ver-lhe a data. Comparei-a, intuitivamente, e em silêncio, com a mesma data dos anos anteriores. Com a perturbação de escrever, senti que a vida cresce para uma forma ou ramo, que pretendo ainda ver (…). Estou mais próxima da morte, e sei que vou partir. Finalmente, eu passei apenas pela escrita. Palavra feminina, como eu. Estou acrescentar-lhe um ramo, enquanto cresce a árvore florida______. MGabLlansol.” – Carta de 4 de julho de 1998 – Esta carta, escrita na data do meu aniversário, é endereçada “Para Lúcia Castello-Branco e seus alunos”. Maria Gabriela Llansol a escreveu em resposta a meu pedido de um manuscrito seu, para figurar como prefácio do volume 2 dos Cadernos Viva Voz, primeira publicação que fizemos, na Faculdade de Letras, em sua homenagem. Posteriormente, como já dito aqui, essa carta foi publicada, numa tiragem de 30 exemplares, pela Edições 2 Luas, de Belo Horizonte. E, em 2000, tornou a ser publicada como prefácio de Os absolutamente sós, pela Editora Autêntica, de Belo Horizonte. Quando Llansol recebeu, pela segunda vez, o prêmio da APE, por Amigo e Amiga, em 2007, um dos exemplares da tiragem da Edições 2 Luas foi doado, a pedidos, ao EL. Lembro-me de que, na ocasião, o Professor João Barrento referia-se à carta como uma “carta mítica”, porque ele nunca a tivera em suas mãos e, naturalmente, porque esse “bloco de puro Desejo” não lhe pertenceu, nem lhe foi endereçado. Já aí, nesta carta, coloca-se o que Llansol percebeu, desde o início: que, ao lado de Lucia Castello Branco estavam seus alunos, aqueles que já existiam e que já se reuniam em torno de sua obra, e aqueles que ainda viriam, no porvir do texto, no devir de seu nome. Hoje a carta pode ser lida, pelos que quiserem lê-la na íntegra, no blog fiodeaguadotexto.wordpress.com, em português, e em versões para o inglês, o francês, o alemão e o espanhol. Com essa carta, inaugura-se um ramo da linhagem: “o ramo lilás”, aquele que mais tarde seria bordado na cortina que envolveu o corpo morto de Augusto Joaquim. Com essa carta, inaugura-se um ramo de escrita, aquele a que Llansol refere-se, na carta a Eduardo Prado Coelho: “Creio que os escritores “do meu ramo”, daqui e do Brasil (…)” Sinto-me honrada por ter merecido, de Llansol, esta carta. Num movimento de “passagem que leva a outros e nada detém”, decidi publicá-la como Carta ao Legente, entendendo o legente na acepção de Llansol: “Alguém que colhe a flor que falta para que se acalme a minha perturbação pessoal,//alguém que colhe o tom de cada um dos títulos que escrevi,//alguém que me traga o ramo que fiz da minha vida”. Mas, hoje, sabemos: há também os legentes de outros ramos – “metade árvore, metade construção de ramos mortos”. Então, para dar tratamento ao amor, é preciso também dar destino aos ramos mortos, deles me afastando, e buscando o “meu ramo”, “o ramo que fiz de minha vida”, buscando a flor branca que falta, que sempre faltará.

28 – “Querida Lúcia, somente umas palavras rápidas, pois vou sair e é urgente mandar esta para o Correio. Tudo segue e prossegue ________alegraram-me as notícias. Um grande abraço. MGab. – Carta de 08 de outubro de 2002 – Esta carta brevíssima vem acompanhando um excerto datilografado, do livro O Senhor de Herbais, ainda inédito, na ocasião. Destaco, aqui, um pequeno trecho do excerto enviado por Llansol, extraído das p. 271-272, por ela numeradas à mão: “ o deserto descia sobre Herbais, // quando cheguei ao jardim com o livro na mão, depois do repouso da tarde, troquei algumas palavras comuns com os presentes, e vi chegar ao portão a nova qualidade. Trazia os cabelos esparsos sobre um volume que encostava ao queixo. Era o livro que nos impedia de levitar. Na verdade, quem chegara era uma forma simples de olhar para mim. Devolvi-lhe o mesmo olhar, sentindo-me feliz por vê-la, jovem, exausta e silenciosa. // — Encontro-me no princípio das interrogações – disse, saudando-me. // – Que levarás até ao fim – assegurei-lhe e acrescentei: – Não chores. Reparei, com efeito, que as lágrimas lhe corriam pelo rosto sem que desse pelo leite que lhe manchava mansamente a camisa que lhe cobria os seios. ´Rosas´, foi o que realmente pensei. // – Vim ler. Ler atentamente.”

29 – “Queridíssimos amigos, Gostaria de ter melhor saúde para poder dizê-lo a todos. A Cynthia escreve por mim, porque escrever eu própria me seria difícil. São dias de nevoeiro e chuva, quase neve. O que é raro aqui. Com esta pequena mensagem vos digo quanto vos amo. Como gostaria de vos ter por perto. A Cynthia está nos lugar de todos vós. Tenho pena de não poder proporcionar-lhe dias melhores.// Fizemos, a Cynthia e eu, mais um passeio pelo corredor. Para meu exercício. Agora estou a descansar um pouco, enquanto a Cynthia escreve por mim.// Agora, neste momento, já jantamos. E ouvimos música. Continua a sentir-se o nevoeiro muito visível, apesar de já ser noite. Vamos continuar o serão ouvindo música. // Hoje dia idêntico ao de ontem. E esta carta continua. Com todo o meu imenso afecto MGabLlansol.” – Carta de 5 de janeiro de 2008 – Esta carta, escrita dois meses antes da morte de Llansol, pela letra de Cynthia Santos Barra, traz ainda a assinatura trêmula de um corp´a´screver.

Em nome desse corp´a´screver, fundamos o EL, a seu lado. Em nome desse corp´a´screver, decidi afastar-me do EL, na data de 28 de abril de 2012, dia da ratificação, da vergonha e da exclusão. Ainda assim, a carta manteve-se “en soufrance” durante mais de um ano, tempo em que dedicimos fazer alguma resistência ao autoritarismo e ao sectarismo dos atuais dirigentes do EL, que se mantêm perpetuamente no poder. Passado esse tempo, e diante do triste destino que vem se desenhando para o EL, a carta ainda me parece atual e a resistência não me parece fazer mais qualquer sentido.

Penso, como Llansol, que “esta carta continua” e que “o fulgor muda de lugar” e que “quem escreve irá além da mágoa”. E acredito, com Llansol, que “o devir de cada um está no som de seu nome”. E que a linhagem do ramo lilás “é muito específica, e ao mesmo tempo muito límpida”. E que “há um esforço para tornar límpidos o seu corpo, a sua maneira de viver, os seus dias, mesmo os sentimentos mais complexos e depois é que se pode escrever…” E que “há vários níveis de escrita, mas este é muito específico e tem a ver com limpidez…”

Assim, em nome da limpidez, deixo aqui, abaixo assinado, o meu nome, sobre o qual Llansol , na dedicatória de um de seus livros, escreveu: “participação activa, pois, na luz”. E declaro o meu desligamento oficial do Espaço Llansol.

 

 

Belo Horizonte, 14 de maio de 2013.

 

Lucia Castello Branco

 

Anexo

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Uma resposta para Cartas ao Espaço

  1. Maria Antunes Tavares disse:

    Querida Lucia ,
    Li sua carta de desligamento do Espaço Llansol .
    Fiquei muito tocada por sua carta me aproximar tanto do texto da Llansol e da Gabi.
    Quero te agradecer pela precisão do que é a textualidade da Llansol e o lugar que você e o seu trabalho a legencia tem para ela..
    Agradeço a sua generosidade em fazer mais uma vez um esforço de transmissão tão preciso ,forte e delicado.
    Um beijo,
    Maria

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