Sonhar alto minha pesquisa

Em sua aula inaugural no Colégio de França, pronunciada no dia 7 de janeiro de 1977, Roland Barthes celebra a possibilidade de ocupar, ali, um lugar “fora do poder”, em que não teria outra atividade senão a de “pesquisar e de falar”, ou, em outras palavras, de “sonhar alto sua pesquisa”.
Ao iniciarmos neste blog esta nova série, queremos evocar as palavras de Barthes, enlaçando-as às de Llansol, para quem estudar e escrever se equivaliam. Assim, convidamos aqueles que estudam e escrevem para, neste espaço fora do poder, sonharem alto suas pesquisas, tenham elas uma relação direta ou indireta com a textualidade de Llansol. Mesmo (ou sobretudo) quando sonhar alto significa justamente sonhar baixo, em baixo relevo, ao rés-do-chão, este espaço é dedicado àqueles que sonham a pesquisa na dimensão de uma das questões propostas pelo texto llansoliano: “que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?”

Abrimos, então, esta nova série com o sonho de Cláudia Pedrosa:

Um sonho por vir

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Sortido de espécies de cigarras. Prancha 2 do álbum Insectes (1927) | Eugène Séguy – See more at: http://visualoop.com/br/6582/vem-ai-o-swarmageddon#sthash.LXrtE2Pb.dpuf

 

Ouço o chamado das cigarras: ci,ci,ci….

Hoje, ainda me encontro na soleira da porta, onde do outro lado , há uma festa.

 Aconteceu-me o desejo de ler-sobre chegar até mim. Justo a mim, que vivia agarrada à porta. Uma porta que vivia constantemente fechada. Passei, então, a ouvir, do outro lado dela, uma sinfonia de cigarras que se misturavam a um murmúrio estranho de vozes, embaralhado às gargalhadas de leitores e tilintar de corpos escreventes. Parecia uma festa. Eu mal conseguia ouvi-la, somente ruídos. Não enxergava nada, tudo breu. Mas me perguntava: O que as cigarras faziam lá? Quem eram esse leitores? O que esses corpos escreviam que eu não conseguia ler? Minha análise caminhava e eu continuava alfabestizada[1]. Pensei, então, que, aprendendo a ler, participaria dessa festa.

Uma vez, lendo o passe[2] de Lluz , um desses corpos escreventes,  me deparei com a seguinte frase: “fui procurar um analista para me tornar escritora”. Como tudo em minha vida começa pelo fim, pensei: “Vou procurar uma escritora para me tornar analista”.

Bati em sua porta.

 – Lluz, ensina-me a ler!

 Uma cigarra solou em tom menor. O caminho da escrita se partiu. Iniciou-se o trabalho.

            Em “um encontro inesperado do diverso”, encontrei-me com outra Lluz. Esta havia nascido na sequência de um ritmo, viera ao mundo para acompanhar a voz, para fazê-la percorrer um caminho.

            O desejo da escrita atravessou-me e reiniciei meu percurso pelos seminários de uma outra Lluz, dessa vez de um outro lugar.  Em um deles, me deparei com a seguinte fala:

 

 Disso se depreende que as marcas de seu corpo, como um campo de gozo, deixarão vestígios em todas as modalidades de escrita que seu corpo vier a depositar em outras superfícies, seja a do papel, seja a da tela ou mesmo a do papel higiênico (…) Não há escrita indepedente do fato de um corpo ter, por meio de algum gesto, deixado sua marca fora dele próprio.[3]

 

Ouvi também: “…eu não invento a escrita, como eles [escritores] também não a inventarão. Eu re-nasço nela e, escrevendo, re-sisto, re-existo, na minha forma singular de existência.” [4]

          Ci, ci,ci… siga, sem garras! Ouvia-as em um canto monótono e penetrante que perturbava  meu imaginário.

 Aceitei o des-a-fio.

          No desfazer-fazendo de minha trama fantasmática, algo foi se inscrevendo e me convocando a ir mais além. Descobri que minha experiência em análise era uma escrita e que a experiência literária dos poetas poderia, também, me ensinar a ler-sobre e a escrever-com. Assim, vou construindo meu  corpo escrevente.

Levei meu projeto de aprender a ler  à Academia. Fui advertida pela rapariga que temia a impostura da língua, e convidada por Lluz a “ler as literaturas no plural e na singularidade de sua experiência”[5]. Acolhi, então, o beijo que me fora dado mais tarde: me inscrevi no mestrado.

A primeira questão foi  pensar a escrita da voz em uma determinada narrativa, uma vez que não é  costume ler a voz, mas, sim, escutá-la. E, aí, me deparei não com uma determinada narrativa, mas com uma narrativa indeterminada. A escrita de Lluz não se enquadra em nenhuma  categoria, em nenhum estilo, muito menos em um gênero literário. Como é possível que uma escrita, que é linguagem, possa sobreviver, estando fora das representações convencionais?

Nessa escrita, que teme as representações convencionais, que teme a impostura da língua, que teme ser narrada a partir dos baús da memória, o texto propõe uma segunda língua, transparente, que nasce do sangue de uma língua arrancada do céu da boca: a voz. Ao nascer, essa voz não só acompanha e incita a morte, convocando-a à vida, como também acompanha e incita  a vida ,convocando-a a um pensamento alargado, explanado e aberto. 

A voz, então, situada além da oralidade, traz a letra para o primeiro plano na obra dessa autora, produzindo um apagamento do sentido das palavras, justamente por meio de sua proliferação. Aqui, ela tende sempre  a se ausentar naquele que a transporta, o narrador de um texto, por exemplo, forçando-o a falar não mais do lugar da representação, mas no limite desta. É neste lugar de defeito, neste lugar de ausência de representação, que a voz silenciosa pode se dar a ler. E o que se lê? Talvez, uma certa tensão entre a voz da enunciação e a letra.

Ainda me vejo na soleira da porta, percebo que já danço no ritmo de uma certa música. A porta se entreabriu. Da soleira, mantenho um pé levantado, pronto para me lançar, mas permaneço com o outro pousado após mais um passo de dança. Uma das minhas tantas companhias francesas faz um equívoco da expressão pas-de-sens [6]. Para alguns, o tormento, o não-sentido, a loucura; para outros, um passo de sentido, entusiasmo, uma travessia do não em direção a  um a mais de sentido.

Caminho e sonho.

Em silêncio, escrevo com Lluzes meu projeto de aprender a ler sobre o texto a voz que sulca superfícies, seja em um divã,  ou em uma folha de papel.

Hoje, escrevo meu gago texto a som e a cinzel.

           

 Cláudia Pedrosa

 

Bibliografia:

BARTHES, R. Prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2008.
BLANCHOT, M. A parte do fogo. Rio de janeiro: Rocco, 2011
BRANCO, L.C. Chão de letras. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.
BRANCO, L.C. Os absolutamente sós: Llansol, a letra e lacan. Belo Horizonte: Autêntica, 2000
LLANSOL, M.G. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1988.
LLANSOL, M.G. Onde vais drama-poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.
LLANSOL, M.G. Amar um cão. Colares: Colares, 1990.

 

[1] Neologismo de Lacan que une a palavra alfabetização com a palavra besta.

[2] Um dispositivo criado por Jacques lacan, onde o sujeito testemunha sua passagem de analisando a analista.

[3] Lacan , Sem XIII; aula 5 de janeiro de 1966

[4]  Llansol

[5]  Branco, 2011, p.18

[6] Branco, 2011: o equívoco é de Lacan

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