Sonhar alto minha pesquisa

Flor real e malcheirosa[i]

Imagem

Foto João Rocha.

 

Leyla Perrone-Moisés já havia chamado atenção para textos que se concentram no resto, delineando uma literatura contemporânea exigente[ii]. Nuno Ramos é aí um dos seus nomes.[iii] Sua atenção votada ao resto pode ser encontrada sobretudo em Junco, onde “o chão [de dois litorais: a praia, as autoestradas] é a grande pergunta”[iv].

No chão, estendem-se o lixo, os pés (“o oposto do rosto[v]”), as pétalas das flores desmanchadas. Há dispersão da unidade, lugar do passo, dos juncos, ouriço[vi], caranguejo[vii]. Tocos de cigarro, latas[viii]. O cadente, lugar de passividade: “próximo da terra, bem baixo”[ix], onde se encontra um corpo – disponível ao desastre. Cão-ouriço na beira da estrada. Abjetos: nesse sentido suposto contrário da flor. A flor como antípoda do resto? Começamos com ela[x], terminemos com ela, em outra floração: inacabada. Extraviada, tal flor não se toma nas mãos, não se modela nos vasos – permanece ossada de baleia[xi] na praia do Uruguai[xii].

O resto faz ainda limite na imagem[xiii], espelho em pedaços que caem na terra[xiv], formando um desencontro comigo, com o outro. Imagem ausente, menos que rosto: opaco ao reconhecimento. O falante, sabemos, produz falsos rastros: significantes. “O significante decerto revela o sujeito, mas apagando seu traço”[xv]; o seu mundo: o engano. Corta-se, fura-se a rede: o pressentimento. Depois do corte, o inespeculável, o imundo, a verdade, limite do eu.

Se laisser tomber: cair, despencar, como a palavra de J. Pessanha. Imundo abominado, pétala como sujeira, que se retira da rosa para nela ficar a forma de beleza ideal – nas árvores. Resto que “se evacua, ou que se faz desaparecer enquanto o ideal resplandece”[xvi]. Desmanchada por natureza, a flor imunda – no chão – se forma numa “harmônica maior”, por um “amor à verdade”[xvii]. Cada pétala – espécie diferente, outro. Nostalgia do fechamento? Nostalgia da flor? Mas o aberto é irremediável.

Retorno do significante ao estado de traço – a que o real submete o sujeito, abolindo-o. Despetalar, resistir à forma obtida por engano, ao falseamento do imundo – leite de rosas no corpo, fragrância floral no banheiro público. Retorno do dejeto, tudo o que o sujeito pensa poder rasurar da vida – também a morte. Reconsiderar o dejeto da cidade e a sua loucura. “Ponto cego na função do conhecimento”[xviii] era o limite de uma assepsia – acadêmica.

Pétala que se destaca é também um espinho, ouriço. E o litoral – dois territórios distintos -, assim como a morte[xix], também é uma flor. Nessa harmônica chã, e em uma “amor fiel à gravidade”[xx], devolve-se “o poema/ costelas/ arcadas, não digo perfeitas”[xxi], porque não devem sair a condição de resto para se tornarem imagens “bem formadas”. Permanece algo de trapo. No fim “já velho e navegado”, já se sabe apenas “contar/ os grãos do chão mais reles”[xxii], sem restaurar os grãos a alguma totalidade. Flouriço – sonhar baixo a pesquisa.

 

Maraíza Labanca (Lacan e cia – 2013)

 


[i] Título retirado de Junco: “crisântemo/ (melhor essa palavra/ qualquer palavra/ do que a flor/ real e malcheirosa/ em meu nariz/ imundo). Queria ter morrido junto”. RAMOS. Junco, p. 75. Ver também pag. 79: “boia na capa/ do mundo, ilesa/ flor perfeita./ Com a ponta do dedo/ furo a bolha (amor/ perdido)/ tocando o mole/ informe, sujo/ modo de vida breve.”

[ii] PERRONE-MOISÉS. A literatura exigente. s.p. Jacques-Alain Miller também nota que “a arte dita contemporânea se ocupou, ao menos a partir de Marcel Duchamp, de nos oferecer o próprio dejeto como objeto de arte”. MILLER. “A salvação pelos dejetos”. s. p.

[iii] A atração de Ramos pelo resto é assim notada pela autora: “Num mundo excessivamente carregado de coisas pretensamente funcionais, podemos cultivar ‘um desejo de desperdício e falta de função’ (…) ‘pequenas células de inutilidade ou de utilidade incompreensível, em meio à avalanche de propósitos (…)’”. Continua: “Às vezes, é possível arrancar desses restos ‘o pequeno infinito da epifania, dessa minúcia preciosa que nada poderá reproduzir (textura da cortina, mancha de mofo, borda da manteiga, beijo plissado, luz às três da tarde, samba, sandália) (…)”. PERRONE-MOISÉS. A literatura exigente. s.p..

[iv] RAMOS. Junco, p. 53.

[v] NANCY. El vestígio del arte. s. p.

[vi] Derrida, em Che cos’è la poesia?, escreve que o poema é “o animal atirado no caminho, absoluto, solitário, enrolado em uma bola perto de si”. Esse animal, o ouriço, que se expõe à morte, não deixa de ser evocado pela imagem do cão, também na beira da estrada. Junto aos juncos na praia são as figuras que se repetem nos poemas de Nuno Ramos.

[vii] Mais um exemplo de animal que, além de ser do chão, vive na areia da praia. Esse espaço, junto à estrada, é eleito por Ramos como espaço de poesia. O caranguejo é, ainda, uma referência a Juliano Pessanha, para quem o caranguejo é esse resto que lhe lançou, em retração, ao mundo.

[viii] “Perder é o selo de uma carta/ o toco de um cigarro/ o laço da gravata/ que a maré depois coleta/ na orla sinuosa”. RAMOS. Junco, p. 26.

[ix] DERRIDA. Che cos’e la poesia?

[x] Referência ao texto “Pétala desgarrada”, apresentado na ocasião da visita de Juliano Pessanha a UFMG.

[xi] Referência à fala de Juliano Pessanha em visita a UFMG em maio de 2013.

[xii] Não cabe na conta, mas se pode saudá-la, como uma grande saúde, como o que não tem saldo – irredutível e irracional. Ou ainda: “um acréscimo por subtração. Trata-se, para alguns, de pensar no resto na perspectiva da sobra, do lixo. E sabemos que essa perspectiva não era estranha à obra de Bispo, já que era com o resto dos objetos que lhe vinham parar nas mãos – sua sucata particular – que ele se propunha reconstruir o mundo. Mas talvez a literatura, e mesmo a arte em geral, possa ser também aproximada do resto a partir de uma outra perspectiva: a da subtração. O resto, numa subtração, não é mais que o resultado de uma operação matemática. Nessa ótica podemos pensar que a obra ‘ardente de restos’ de Arthur Bispo do Rosário é resultante de uma operação de subtração na qual o subtraendo pode ser não exatamente o mundo, mas o próprio sujeito”. CASTELLO BRANCO. Chão de Letras. As literaturas e a experiência da escrita, p. 98.

[xiii] Em detrimento de uma definição essencialista da arte, que não raro lhe outorga o lugar da imagem, imagem do homem – como o homem seria, também ele, imagem de Deus – Jean-Luc Nancy insiste em algo que resta: um menos-que-a-imagem. A imagem, segundo Nancy, revela-se como “simulacro ou como rosto do ser, como sudário ou como glória de Deus”. A imagem, compreendida como Ideia ou mesmo como negativo da Ideia, difere-se daquilo que resta – o que permanece alijado da imagem ou aquilo que da imagem (ou de um rosto) caiu. O que não ganha lugar na imagem, menos-que-rosto: os pés, talvez. Para além do recurso à identificação.

[xiv] “E quando caiu, afinal/ esse espelho enciclopédico (…)”. RAMOS. Junco, p. 115.

[xv] LACAN. O Seminário, livro 10: A angústia, p. 75.

[xvi] Segundo Jacques-Alain Miller, a fórmula de Valéry de “salvação pelos dejetos” é a via inédita, precária, oferecida pelos analistas, pois “até então só se havia procurado a salvação pelos ideais”. MILLER. “A salvação pelos dejetos”. s. p.

[xvii] Menção ao e-mail enviado por Vânia Baeta Andrade ao grupo de pesquisa “Palavra em ponto de dicionário”.

[xviii] LACAN. O Seminário, livro 10: A angústia, p. 239.

[xix] Menção ao livro A morte é uma flor, de Paul Celan.

[xx] RAMOS. Junco, p. 114.

[xxi] RAMOS. Junco, p. 84.

[xxii] RAMOS. Junco, p. 111.

 

 Referências bibliográficas

 CASTELLO BRANCO, Lúcia. Chão de Letras. As literaturas e a experiência da escrita. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? Poesia I, novembro de 1988.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 10. A angústia. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.

MILLER, Jacques- Alain. A salvação pelos dejetos. Disponível em: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=forums&srcid=MTEwMDkwMTQ3NDMwNDQ1OTUzMjcBMTM1NTg2NTEyMTU4NzAzMjE3NTIBcUVFUXJhUDlHR1FKATYBAXYy

NANCY, Jean-Luc. El vestigio del arte. Disponível em: http://elprestamoeslaley.blogspot.com.br/2008/08/jean-luc-nancy-el-vestigio-del-arte.html.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. A literatura exigente. Folha de São Paulo, 25 de março de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/33216-a-literatura-exigente.shtml .

RAMOS, Nuno. Junco. São Paulo: Iluminuras, 2011.

 

 

 

 

Referências bibliográficas

 

 

CASTELLO BRANCO, Lúcia. Chão de Letras. As literaturas e a experiência da escrita. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? Poesia I, novembro de 1988.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 10. A angústia. Rio de Janeiro, Zahar, 2005.

MILLER, Jacques- Alain. A salvação pelos dejetos. Disponível em: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=forums&srcid=MTEwMDkwMTQ3NDMwNDQ1OTUzMjcBMTM1NTg2NTEyMTU4NzAzMjE3NTIBcUVFUXJhUDlHR1FKATYBAXYy

NANCY, Jean-Luc. El vestigio del arte. Disponível em: http://elprestamoeslaley.blogspot.com.br/2008/08/jean-luc-nancy-el-vestigio-del-arte.html.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. A literatura exigente. Folha de São Paulo, 25 de março de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/33216-a-literatura-exigente.shtml .

RAMOS, Nuno. Junco. São Paulo: Iluminuras, 2011.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Sonhar alto minha pesquisa

  1. Ruth Silviano Brandão disse:

    Beleza de fotos e textos. Estou aprendendo com vcs. Bjs. Ruth

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s