Sonhar alto minha pesquisa

Imagem do filme redomoinho poema, de Lúcia Castello Branco e Gabriel Sanna

Sonho: um corpo legente (e)levado pelas asas do texto

Estava só, cercado por papéis, anotações, fragmentos. Diante de textos cujas palavras deslizavam para além do sentido, perguntava-se: como lê-los? Em sussurro, escutou, daquela cuja escrita era cega de sentido:

C.L- Este texto que te dou não é para ser visto de perto: ganha sua secreta redondez antes invisível quando é visto de um avião em alto voo. Então adivinha-se o jogo das ilhas e vêem-se canais e mares.

Do alto do céu, ele, que também não era lido com facilidade, dizia:

J.L- E foi assim que me apareceu, entre as nuvens, o escoamento das águas, único traço a aparecer, por operar ali ainda mais do que indicando o relevo nessa latitude, naquilo que é chamado de planície siberiana.

O legente percebia, ali, que os fios de vozes se entrelaçavam, que as letras voavam e a leitura ganhava asas. Aquele era um sonho: ler sobre(voando) o texto.

L- Invisível, canais, escoar, traços. Que texto é esse que me chama?

R.B- O receptível seria o ilegível que prende, o texto ardente, produzido fora de qualquer verossimilhança.

G.D- Um fora, um avesso, um reverso, mancha de tinta ou escrita ilegível.

L- Tenho um sonho, ler os traços ilegíveis e ardentes, mas para isso é preciso…

M.G.L- Alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre à próxima que vou escrever.

M.B- Ler, escrever como se vivesse sob a vigilância do desastre: expostos à passividade para além da paixão.

L- Um movimento: passivo; uma forma: espaço; uma escrita: do desastre. A forma me remete ao aberto, ao plano e o movimento/escrita leva-me rumo à paisagem.

M.G.L- A paisagem não tem um sexo simples. Nem o homem, nem a mulher.

L- É preciso ser “ninguém” para chegar até lá?

M.G.L- Um vestido ao vento, um feminino de ninguém.

J.L- O terceiro sexo.

M.B- Exige mais ignorância do que saber, exige um saber que investe em uma imensa ignorância e um dom que não é dado de antemão, que é preciso a cada vez receber, adquirir e perder no esquecimento de si mesmo.

Ali, em meio aos fragmentos, no branco-asa do papel, as letras caíam e o sonho se (a)notava: relevo, planície, paisagem. Infinito dos traços. Corredores labirínticos das palavras. Superfícies sulcadas. Nesse lugar, a céu aberto, é preciso dar passos mais além: abrir-se para o texto, movimentar as letras espaçadas, esquecer-se de si mesmo e permitir que algo role, caia pelo abismo, sem se abismar. Para, quem sabe, assim, colher, com os olhos legentes, as letras ainda por vir, dispersas por esse lugar de um terceiro sexo, que “movimenta a dança do vivo”: a paisagem.

Naquele instante, o legente despertou extasiado, (e)levou-se com o que havia sonhado. As asas do texto lhe fizeram companhia e possibilitaram que ele sonhasse alto. No entanto, o voo, que comportava a escrita, a leitura e o sonho, constituía-se no só/nó do corpo que o sustentava. “Dar-se em corpo ao texto” era o que restava.

Tatiane da Costa Souza

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