Sonhar alto minha pesquisa

Lisboa, 11 de setembro de 2013

 

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Estas são as frases de hoje:

“Enquanto Hadewijch desaparecia, o rumor e o medo da batalha penetravam as janelas e atingiram toda a casa, até aos alicerces, e ao forno. Forrando as paredes, dispostos a confundirem-se com a terra, as folhas e os textos trazidos pela matilha, tinham encontrado precário abrigo. Frases repelentes e doces, vozes escritas, aceitaram ficar fechadas na expectativa. A ri(t)ma, por cúmulo de prudência, foi revestida de excrementos de cavalos e um odor nauseabundo espalhar-se-ia sobre quem ousasse descerrar a porta do forno”. (Llansol, A restante vida, p. 30)
É possível sentir o odor que exala de uma “ri(t)ma” no meio da batalha. Em meio ao sangue, não é possível ressaltar rimas, ou ritmos, de pura beleza. Pelo menos se pensarmos a beleza como algo de sublime, isto é, idealizada, longínqua. A beleza, aqui, ressalta dos corpos, muitos deles dilacerados por conta da batalha. Ela surge coberta de excrementos e secreções de todos que se colocam no combate. Não se pode entender isso rapidamente. É preciso tempo. Somente aqueles que têm o corpo coberto de letras vindas de algures podem colocar-se no cerne dessa batalha. Estes que colocam o corpo em risco encontram algo que pode fazer do risco de perder o corpo o traço para redesenhá-lo. Estes encontram a leitura, pois só os que se colocam em risco podem ler. “Ler é ser chamado a um combate, a um drama” (Llansol, Onde vais, Drama-Poesia, p. 18).

A leitura pode esfacelar um corpo para construir outro. Ela é um sopro de vida. A leitura, aqui, não é límpida, clara, elucidativa. Ler é dizer sim face a um exército com todas as lanças voltadas para o peito daquele que diz: ¬-“Sim, eu leio para além do medo”. Ler é um grito. E também um tiro. Ler não elucida nada, pois nunca se pode chegar ao fim de um corpo. O corpo não morre, ele perdura, mesmo que tenha de mudar de forma. Ler é gritar em direção ao aberto do mar.

A leitura não pode encerrar um texto. Ela o abre para todas as possibilidades que podem habitar um corpo. “Ler é nunca chegar ao fim de um livro” (Llansol, Amar um cão, s/p). Esta é a batalha, esta é a ética: fazer com que a leitura não seja elucidativa, porque ela é uma forma de vida e uma vida bordeja as raias do impossível. Ler é a construção e a desconstrução ininterruptas de corpos. Ler é também escrever.

 

ps: a imagem que trazemos é o recorte de uma campanha publicitária do designer gráfico Ivan Bertin.

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Uma resposta para Sonhar alto minha pesquisa

  1. Lucia Castello Branco disse:

    João,

    Você sempre foi um bom sonhador. E agora sonha alto: a ética da leitura. Aos que sonham “auto”, este é um deslocamento e tanto. De longe, acolho seu sonho. Distante como a palma da mão.

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