Sonhar alto minha pesquisa

Manter o começo prosseguindo

por Erick Gontijo Costa

 

O escritor real tem, muitas vezes, apenas uma ferida cujo nome ele desconhece, mas que lhe concede silêncio e uma palavra gaga e balbuciante[1].

(Juliano Pessanha)

 

Quando criança, gostava de desenhos animados em que um tronco de árvore, girando, era limado velozmente até seu quase desaparecimento, restando um lápis. Algumas vezes, penso de modo infantil que, no cerne de cada árvore, há um lápis.

Uma árvore, quando ferida, pode liberar uma resina de efeitos curativos sobre a superfície de sua madeira. A resina, uma vez exposta ao ar, fossiliza-se em um material cristalino, o âmbar. Ferida agora intocável, intacta como a imagem refletida nos olhos cegos, que naturalmente não as vê.

A letra é a resina do lápis. Encapsula outra ferida, a do escritor. Revestida pela transparência do poema, a ferida encapsula-se em texto-âmbar, em material cristalino, resina fóssil: livro. Mas a ferida do escritor, diferentemente dos insetos que por vezes se encontram no interior do âmbar (cicatriz íntima, mas visível na superfície cristalina), continua pulsando, escoa texto a texto.

Nesse lugar em que a vida pulsa, lugar afeito ao informe, uma obra pode instalar-se. Sabe-se que uma obra pode ser “aquilo que resulta de um trabalho, de uma ação”, “o objeto resultante do trabalho de um operário, de um artista ou de um artesão”. Pode também ser “reparação ou remodelação”[2].

Tomemos a obra como o trabalho, a ação de reparar, de remodelar. A escrita, a partir da ferida, repara a falha na linguagem, remodela lacunas em objetos escritos, que sinalizam a marca de uma ausência ou de uma inexistência: cicatriz. Sobre essa prática rumo à obra, menos um objeto acabado que um horizonte perseguido no ato de escrita, o escritor paulista Juliano Pessanha, em seu livro Instabilidade perpétua, escreve:

 

A obra é o instante natal que faz advir um mundo-casa a partir da profundidade da terra. Na obra acontece a verdade, pois ela é o acontecimento desmedido que outorga a medida: ela instala um mundo e abre a clareira na qual todo (o) ente ganha um sentido e um contorno. Mas essa abertura do mundo remete ao fechado da terra e os dois são mantidos conjunta e disjuntamente, sem pacificação dialética, e sem recalque psicanalítico. A obra é como o galo português cantando lusitânia, cantando a luz do dia, mas um galo bifronte com olho na nuca, que ao cantar o dia não se livrasse da noite, mas a mantivesse acesa[3].

 

Na obra, acontecimento desmedido, faz-se o instante natal, em que advém a medida do acontecimento desmedido. A obra é abertura na realidade e, também, o que se faz no lugar da ferida aberta no próprio corpo. Medida instável, perpetuamente instável, em que se funda o texto e, dele, o mundo-casa em que possa habitar o corpo-escritor. O escritor nasce do texto, da medida escrita que é o limiar onde se atritam o dia e a noite acesa, a medida e a desmedida. No escrito, o que é noite é simultaneamente dia. O escritor é um primeiro movimento a se fazer obra e só em face dela constitui-se, como corpo em devir.

Nesse lugar começante, a obra, o pensamento é uma roda a girar por si mesma, é criação afirmativa em devir, é matéria, tal como a árvore que se lima aos giros, até que reste apenas o lápis que em seu cerne já estava. A escrita é o primeiro movimento verdadeiro que se expande em cada gesto, circulando, renovando e expandindo o corpo. O desejo circula junto à escrita, compondo o “redemoinho-poema”[4]: uma nova paisagem que se abre em espiral a quem escreve. Partindo desse ponto íntimo, a ferida do escritor e seu corpo-obra a se expandir no redemoinho-poema, a tarefa do escritor é manter o começo prosseguindo:

 

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.

Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo.

Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.

Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie.

Vou chamar-lhe fio_____linha, confiança, crédito, tecido[5].

 


[1] PESSANHA, Juliano. Como fracassar em Literatura. Pausa, Belo Horizonte, n. 100, p. 19, jun. 2013. Disponível em: http://issuu.com/pausa/docs/pausacem. Acesso em: 16 ago. 2013.

[2]OBRA. In: HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

[3]PESSANHA, Juliano Garcia. Instabilidade Perpétua. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, p. 82-83.

[4]LLANSOL, Maria Gabriela.Hölder, de Hölderlin. Sintra: Colares Editora, 1993, p. 20.

[5]LLANSOL, Maria Gabriela. O começo de um livro é precioso. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003 (B), p. 1.

 

 

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