Sonhar alto minha pesquisa

Que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?[1]

por Carlos Batista

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Quando a Lucia me convidou para sonhar alto minha pesquisa aqui, pensei se alguma parte do sonho voltaria ao sonho?[1] Ou se tudo desde sempre não seria só sonho. Mas, de fato, se é que se pode soar assim, o Projeto Poros, “Varda de ci de là Llansol”, me parece um projeto sonhado, o qual busca passagem para um encontro há muito adiado, escrito, ou cinescrito, por “palavras que nos escapam em sonhos” como o quer André Bazin para o primeiro filme de Agnès Varda:

“Antes de mais nada, é um filme de mulher do mesmo modo que existem romances femininos, o que é quase único no cinema. Além disso, a autora adotou no filme um ponto de vista paradoxal de estilização dentro do registro realista: tudo nele é simples e natural e, ao mesmo tempo, depurado e composto; e seus heróis dizem apenas coisas inúteis e essenciais, como as palavras que nos escapam em sonhos”.[2]

 Este primeiro filme de Varda, La Pointe Courte, estreou em 1955 e tem por título o nome da vila de pescadores onde foi filmado; seu elenco é composto por Silvia Monfort (uma mulher), por Philippe Noiret (um homem) e, esta é a hipótese que sonho, pela paisagem – dir-se-ia, pela “paisagem livre por deserança”[3], como na aula inaugural barthesiana, pois o filme atravessa os gêneros ficcional e documental, dessacralizando, enquanto fazer cinematográfico, o “modelo implícito do humano”[4]. Sim, sabemos que os seres humanos também se distribuem na paisagem, por isso na película estarão os habitantes da vila de pescadores; mas, ressalta-se, ou ressalto eu aqui, a paisagem enquanto “terceiro sexo”[5], e o amor, ou a cinescritura, que é feito em consonância com ele. Tal se veria neste enquadramento, em cuja profundidade do campo há um gato preto que acorda e se espreguiça.

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Assim, sonho a pesquisa onde a paisagem vardaniana – sua fotografia mas não só, não teria a ver com cenários, com cercas a querer conter, ou contar, a ação; pelo contrário, tratar-se-ia mais de um ponto de fuga para que não se fixe o sentido. Procedimento que diria, talvez, de um cinema em busca de “um espaço matinal de contra-sangue”[1]. O que poderia ser constatado pela pesquisa realizada pela cineasta belgo-francesa, compondo com paisagens distantes em 28 anos, a partir de uma fotografia, o documentário Ulysse (1982).

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Nesse sentido, se para a paisagem “um eu é pouco para o que está em causa”[1], confio que, para a cinescritura, uma Agnès também seria, então escrevo, Les Agnès, aí, como se um gato acordasse e se espreguiçasse apoiando-se no teclado e desarranjando o escrito, leio: Les Anges. Por essa via, a estátua de um leão da “Place Denfert-Rochereau” (em Montparnasse, Paris) volatiza-se na gata Zgougou da “Ciné-Tamaris”[2] E como “as árvores falam através dos ângulos que criam”[3], dando a ver o que viram, sonho um plátano sobreposto a uma tamaricácea, isso pelos poros da película, a qual, sim, respira, se projetada em meio ao vivo. E para sonhar a minha pesquisa, o sonho, altaneiro, há de dizer, como diria para Maria Gabriela Llansol: “Tens tudo o que precisas.”

 

ps: As duas primeiras imagens são do filme La pointe courte e a última do filme Ulysse. Ambos de Agnès Varda.

 

Referências

BAZIN, André, “Le Parisien Libéré”, 7 de janeiro de 1956. In: Retrospectiva Agnès Varda – o movimento perpétuo do olhar (Catálogo). Centro Cultural Banco do Brasil, 2006.

BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 2004.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vai, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um Beijo Dado Mais Tarde. Lisboa: Rolim, 1990.

Filmografia mencionada de Agnès Varda:

La Pointe Courte – ficção, 1954, p&b, 35 mm, 89 min.

Ulysse – documentário, 1982, cor, 35 mm, 22 min.

Le Lion Volatil – documentário, 2003, cor, 35 mm, 12 min.

Agnès de ci de là Varda – documentário serial exibido pela TV francesa em 2011.


[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vai, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000, p. 182.

[2] Referência ao filme de Varda Le Lion Volatil (2003).

[3] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?. Lisboa: Relógio d’Água, 2000, p. 178.


[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994, p. 117.


[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Um Beijo Dado Mais Tarde. Lisboa: Rolim, 1990, p. 77.

[2] BAZIN, André, “Le Parisien Libéré”, 7 de janeiro de 1956. In: Retrospectiva Agnès Varda – o movimento perpétuo do olhar (Catálogo). Centro Cultural Banco do Brasil, 2006, p. 77.

[3] BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 2004, p. 42.

[4] Ibidem.

[5] LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais Drama-Poesia?Lisboa: Relógio d’Água, 2000, p. 44-45.


[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994, p. 120.

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