Conversas com Llansol

Nesta breve interrupção do Canto de Leitura (retornaremos na próxima semana), postamos esta conversa íntima de Lucia Castello Branco com Llansol. Para receber o ano que se inicia, para sustentar a questão llansoliana: “que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?

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O Caderno sem Sonhos de Gabriela

por Lucia Castello Branco

Ele havia decidido, como convém a qualquer tirano: retiraria, do caderno, todos os sonhos dela. Desde que soubera que Lúcia estava interessada nos sonhos de Gabriela, ele não hesitaria: ela não os terá, como não terá nenhum dos cadernos, nenhum dos papéis avulsos, nenhuma letra, nenhum pingo sequer.

O que ele não sabia é que desde pequena Lúcia se acostumara aos milagres. Primeiro àqueles que lhes caíram, como pétalas de Santa Theresinha, nas mãos. Depois àqueles que ela mesma havia aprendido a fabricar, como aprendera a nadar no seco, desde tão criança. Depois — e estes eram, de fato, os mais raros — àqueles que ela extraía das próprias lágrimas, da própria dor. “A cada mil lágrimas sai um milagre” — lera, na letra da canção de Alice. E sabia que estes — os milágrimas — eram os mais preciosos.

Como Ãngela. Como Maria. Como Ana. Como Claudia. Como Bethânia. Todas tinham nomes de mulher. Mas eram, de fato, figuras. Aquelas que habitariam, na terna reciprocidade feminina, o caderno sem sonhos de Gabriela. Como observara Freud, é necessário que os sonhos comportem as condições de figurabilidade para se formarem.

Mas o tirano nada entendia acerca das condições de figurabilidade. Preferia entender das moças, aquelas que ele tentava seduzir, apresentando-lhes os aposentos íntimos da Mulher de Balthus. A última delas, Tatame, viera de longe, ele supunha, para deitar-se com ele. Mas Tatame não era, como ele desejaria, nenhum colchão de plumas. Estivera ali, na casa da cidade serrana, apenas para detectar suas condições de figurabilidade. E de lá trouxera, sem que ele percebesse, o caderno sem sonhos de Gabriela.

Quando o recebeu nas mãos, Lúcia permaneceu por algum tempo muda. De início, teve medo de falar acerca daquela preciosidade: o caderno branco de capa branca. Depois, aos poucos, nas noites brancas do verão de seu país, enquanto as gotas de suor se misturavam às lágrimas nascidas da memória de Gabriela na voz de Maúda, Lúcia poderia ler nas folhas transparentes do caderno: “No dia do amor, as palavras entram num turbilhão elástico e reconhecido; embora seja já tarde e mil mulheres saiam com mil pensamentos…”

Mal terminava de ler a frase e ela desparecia diante de seus olhos. Lúcia não ousava pronunciá-la em voz alta, pois o tirano poderia ouvi-la e, sabendo que Lúcia se interessava pelos sonhos de Gabriela, poderia supor que ali se encontrava um sonho em sua potência de figurabilidade. E isso o faria retirá-lo depressa do caderno, arrancando-lhe as páginas transparentes.

O tirano não sabia que as transparências enganam. Não entendia bem, quando lia em Blanchot que a literatura caminha para seu desaparecimento. Confundia o desaparecimento com a inexistência, a inexistência com a irrealidade e, para ele, o sonho desaparecia em seu umbigo, esse ponto em que tudo mergulha no desconhecido.

Mas, na noite de lua nova, aquela que os fogos de artifício fizeram desaparecer no céu, Lúcia deitou-se na areia para ler o percurso das andorinhas. E estas seriam as primeiras palavras que ela escreveria no caderno sem sonhos de Gabriela que Tatame lhe trouxera: “Sobre meu corpo se deitou a noite”.

ps: a imagem acima é uma foto do manuscrito de “O livro de cabeceira”, de Sei Shonagon, retirada do site http://www.margaretpeot.com/950/sei-shonagon/.

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