Companheiros Filosóficos

helena almeidaHoje, o cor’p’oema, de Janaina de Paula, começa o seu pouso aqui, no fio de água do texto. O texto que trazemos abaixo foi apresentado pela autora, no dia da defesa de sua tese, intitulada Cor’p’oema Llansol. A fotografia é de Helena Almeida.

 

Porque um dia olhei para o azul e me faltou o céu

O florescer me faz lembrar dela, como se fossem as suas próprias flores.
A natureza está a entregar-se neste momento – ela diz .
Sim, exatamente como acontece ao texto que ouve o movimento do mar na copa das árvores,
a dança frenética dos elementos. É preciso pegar nas coisas simples e começá-las pelo seu começo. Nesse lugar onde os vestígios desaparecem, desfazem-se nas mãos de quem toca a matéria, para fazê-los vibrar no vazio que os suportam.
As folhas voam em sopro e em escrita _______________ os corpos nus das flores rasteiras,
em pleno esplendor, não sabem o que o despertar lhes trará, sob a forma desse começo.
A traição de um acento pode dar por vencido o êxtase – ela continua.
Sem distância não vemos a profundidade que se apaga e da qual não há regresso possível. Penso ainda se o nosso fim pode ser tão surpreendente quanto a curva de existência de um cravo.
Repare que, ao fundo, a árvore é um livro que distribui as folhas pelos ramos de modo que nenhuma escape ao sol; há um tal fulgor no sol que desce e se esconde, que dificilmente posso concentrar-me sempre no mesmo lugar verde. A distância é o meu percurso, e, na globalidade do céu, receio não descobrir viagem por mar que nos oriente.
Desorientada, olho o céu, desorientada sigo as constelações móveis, raros clarões de luz. Nas mãos do poema, o gosto dos dias colhidos das copas mais altas. De lá, lugar do nascimento,
ela,
poema, oferece o carvalho e a clareira onde meu corpo vagueia com todo o resto. Na intimidade das árvores, combato com o invisível por misericórdia com o destino dos homens e da paisagem. Sigo o meu traço

com as palavras perdidas em terra estrangeira, pois o
texto continua repleto de contrários.

Sim, ela diz. Quem se mete por atalhos sabe os trabalhos que arranja.
E isso não quer dizer que aqueles que escrevem tenham o direito de escapar às conseqüências.
Ouço apenas um fragmento dos grafemas de uma vida. Ouço o vivo nos traços mínimos de um eu que se desloca e se esvai, marcado pela dispersão de uma escrita insistente, que guarda, nela mesma, os seus mínimos – cintilações fulgurantes – escritos sob a luz do luar libidinal.
Sinto que me estilhaço melodiosamente à procura dos meus múltiplos prazeres (o maior – o da sensibilidade do corpo). Começa sempre pelos olhos, que distribuem temas de meditação aos outros sentidos. Nesse dia, corremos na direção da árvore e com ela alcançamos o aberto do céu. Ela, a rapariga que, num tempo anterior, temia a impostura da língua, já sem memória, nos acompanha no retorno ao lugar aberto do nascimento. Deveria contar sobre ela. Deveria contar como se fez em poema para que o texto encontrasse o corpo que o escreveria nessa voz. Deveria.
Leio, em voz alta, o diário do primeiro dia:
– A voz está sozinha – disse a mãe, quando ela ainda estava no seu ventre, a ler poesia.
– Não por muito tempo – responderam àquela que se iniciava na língua. E ela nasceu na sequência de um ritmo.
“Eu nasci para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho. De um lado a outro do percurso, não sei o que existe, o caminho caminha,
eu deslumbro-me quando o tempo se suspende
e me permite parar a contemplar o espaço sem tempo”.
Nesse passo, a rapariga descobriu que se, em vez de se concentrar na sombra do corredor, se deitasse de costas a olhar a mancha rutilante, o seu olhar poderia realizar o caminho inverso da luz e pousar no ramo mais alto da árvore e aprender com esta a produzir clorofila – a primeira matéria do poema.
O corpo permanecia deitado,
no chão do quarto,
enquanto o olhar aprendia a fazer poemas.
Essa foi a primeira descoberta do olhar: se não levantares os olhos, não haverá sensualidade que nos abisme.
A clorofila, ela murmura, acompanhando o deslocamento do corpo a contemplar o céu.
Lá em cima há o espaço e, de longe em longe, uma condensação de espaço em luz, uma solidão unida e ordenada de pontos que parecem ignorar-se uns aos outros. Com ela, aprendi a descer da cidade vegetal que era até a cidade humana,
igualmente iluminada pelo sol. Aprendi, na copa mais alta desse cor’p’oema, que na clorofila não há metáfora. Pois o corpo está sempre a traduzir, para a sua necessidade de movimento, o desejo de que a palavra volte a significar o real. Aprendi a desenhar com o olhar a arquitetura para a aventura da luz, pois o pensamento é impelido pela geometria dos corpos. E há o adormecido. Há o aberto. Há.
Escreve – diz o texto.
E, se tem medo, escreve. Se o aberto lhe retira o fundo, escreve. Acompanha todos os movimentos: em proporção com a sua medida, na obediência de sua natureza, no ritmo de seus vícios. Escuta os passos e reconhece a sombra desenhada no espaço opaco do dia. Escreve a agonia de quem sabe que as palavras são indignas diante do tormento dos corpos que conhecem a medida da ruína. Escreve o intervalo denso das tardes e o nada que nos visita em cada entardecer. Escreve, com ela, porque só com ela se escreve. Para o corpo, que não tem a dignidade de ser um só, a escrita é loucura do tempo todo.

 

Estou aqui a escrever cópias da noite, atravesso este tempo sem desterro nem resignação, e isso só terá sentido se alguém vier sublinhar a noite escura com a claridade dos seus olhos.

 

 

Janaina de Paula

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