Estético Convívio

bh

 

A Cas ‘a’ screver expandida

No último final de semana de julho, a Cas’a’screver expandiu suas atividades de estético convívio para o Rio de Janeiro, onde estiveram, em uma mesa-redonda sob o título “Conjugações para o verbo ler”, Juliano Pessanha, Lucia Castello Branco e Erick Gontijo, na unidade de pesquisa “Práticas da Letra”, coordenada por Ana Lúcia Lutterbach-Holck, na Seção Rio da Escola Brasileira de Psicanálise.

Juliano Pessanha pronunciou-se com a intervenção “Eu leio”, fazendo a leitura de um fragmento de seu livro “A Instabilidade Perpétua”, a ser relançado em um volume único, juntamente com os demais livros do autor, ainda este ano. Erick Gontijo e Lucia Castello Branco leram seus textos, intitulados “Tu lês” e “Ela nos lê”, respectivamente, em profundo diálogo com as obras de Juliano Pessanha e Maria Gabriela Llansol.

Ontem, sob o intenso céu azul de Belo Horizonte, o encontro prosseguiu, através de duas atividades na Cas’a’screver, em Santa Efigênia, organizadas por Janaína de Paula. Na parte da manhã, a reunião, coordenada por Sylvie Debs, para apresentação do projeto da Cabra, a Casa Brasileira para Escritores Refugiados, a ser em breve implantada no Brasil, como um braço brasileiro da rede internacional ICORN. Na parte da tarde, mais um “encontro inesperado do diverso” com Juliano Pessanha, dando prosseguimento às leituras do “Zaratustra”, de Nietszche, com cerca de trinta pessoas presentes.

Ao fim do dia, a casa apagou suas luzes, deixando em cada um a certeza de que ali se criou um “nicho frágil de escrita comum”, em que se realizam pequenos gestos de “compaciência pelos corpos que sofrem, e de alegria pelos que amam”.

Vejam, abaixo, alguns registros do encontro com Juliano Pessanha, ontem, feitos por João Rocha e Claudia Itaborahy. E leiam, aqui, os textos de Erick Gontijo e Lucia Castello Branco.

Foto Claudia Itaborahy

Foto Claudia Itaborahy

Foto João Rocha

Foto João Rocha

foto joao 2

Foto João Rocha

 

Tu lês

 

Erick Gontijo Costa

A literatura é algo muito diferente, é algo mais sério do que o “literário” e o “estético”. Ela é uma questão topológica, uma questão de passar pelo lugar de onde brota um dizer.[1]

Juliano Pessanha

 

Leitura do poema (método)

 

Gostaria de falar aqui de alguns escritores que tomam a literatura a sério. Melhor dizendo, falar em sua companhia, escrever pela ressonância de seus textos no que escrevo. Escrever por amizade. Me refiro àqueles para quem escrita e pensamento são questões vitais, experiência em que toda ficção, se há alguma, esboroa. Tentarei também pensar, lado a lado, o poema e o matema, tarefa que me tem parecido cada vez mais delicada. Mais convivo com a literatura e a psicanálise, mais pressinto a resistência de cada uma a qualquer dobra discursiva sobre si ou redução de uma à outra. E justamente por terem em seu cerne algo irredutível é que vale à pena pensá-las por atrito. Deixar, portanto, que o poema ressoe no matema e vice-versa.

O primeiro contato verdadeiro com o poema de que tenho lembrança foi na leitura de Fernando Pessoa. Seus poemas me anunciavam uma verdade abismante, que desconfiava ressoar na minha, ainda latente. Tinha a impressão de um homem múltiplo, oscilante na pulsação do texto, querendo se desembargar. Nem eu nem ele, “[…] qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro”, diria agora, citando outro poeta, Mário de Sá-Carneiro. (Nessa época, enquanto me exigiam preparo para exames de matemática, decorava e escrevia poemas. Lembro-me de ter rasgado quase tudo que escrevi nesse período. Poucas vezes voltei a ler Pessoa. A matemática ainda me assombra uma ou outra noite.)

Felizmente, ficou a ressonância, o ritmo dos poemas, como um falcão cravado no punho. Desconfio às vezes que algo em mim foi lido principalmente pelos poemas de Caeiro e de Álvaro de Campos. Creio que, à beira de nomear algo, destravaram no corpo ainda novo o enigma que todo corpo habita. Menos por ter lido a multiplicidade de Pessoa que por ser incendiado pelo poema uno. Aquele capaz de nos tirar do curso pré-concebido, provocar mudanças nos circuitos do corpo. À beira de ser consumido pela mortificação da excessiva medida mundana, creio que encontrei no poema um trajeto, uma direção. Não que tenha fugido para terreno impalpável: o poema se dirige à realidade mais real, aquela que à desumanizadora máquina civilizatória escapa.

Tempos depois, eu leria em Paul Celan: “Poesia: é qualquer coisa que pode significar uma mudança na respiração. Quem sabe se a poesia não faz o caminho – também o caminho da arte – com vista a uma tal mudança?”[2] É sobre essa mudança de respiração decorrente da presença do poema, com sua atenção ao vivo, que pretendo falar. A leitura do poema: deixar que o poema leia.

Quem deseja ser habitado pelo poema precisa ter os pés descalços sobre uma fornalha acesa. E quem, de bom grado, está determinado a habitar em permanente agonia a mecânica da dispersão que lhe devolve um corpo aceso, conciso? É preciso desgarrar a vida aritmética da pura qualidade dos números, ver de que é feita a ínfima matéria numérica, sim, porque vai uma grande diferença entre o cálculo e o que se perde no mecanismo angustiado de uma equação simples.

Procuro, então, pensar o poema com rigor, sem colonizá-lo com rede conceitual firme, sem deixar a enxurrada de palavras extinguir sua centelha. Por excesso de nomeação, ou se perde ou se domestica o poema; sem alguma nomeação de sua passagem, sem um corpo literal que o sustente, há o risco de não se transmitir a sua força, que mobiliza o pensamento. Tento me valer da palavra conceitual e da palavra poética, mais afeita ao fracasso do dizer. Escrever e pensar por incompetência produtiva. Será esse o lugar do próprio conceito de letra na psicanálise, o de um conceito vivo, visto que é, em última instância, da palavra que tangencia o corpo pulsional que se trata?

 

 

Poema e psicanálise

 

Poema e psicanálise, me parece, caminham algumas vezes em direção ao aberto, ao que na língua é desaparecimento contínuo dos sentidos na emergência de um corpo vivo. Na psicanálise, o conceito de letra atesta essa passagem. A letra é limiar entre a linguagem e o que a excede, percurso do sentido que se silencia na emergência da pulsão. Espaço espesso da escrita em que exterior e interior não se distinguem claramente, mas se circunscrevem por opacidade de sentido e de imagem.

Porém, psicanálise e poema não se amalgamam. “O poema é sem apoio”[3], é desmedida, passagem, fluxo de intensidades, potência; a psicanálise, sem deixar de comportar algo do poema, visto que é das potências de vida e de morte que se trata em última instância, a da letra, é medida pela técnica. O poema só se sustenta no corpo; a psicanálise, no discurso (o do analista) e no corpo. Todavia, me parece possível conceber poema e psicanálise, cada um a seu modo, como medidas em aberto: des-medidas. Nessa perspectiva, ambos rumam ao aberto, ao limite da língua.

O matema, na psicanálise, é a forma encontrada por Lacan para formular o conceito no limite em que a palavra, ao tentar dizer com exatidão o real, se literaliza, perdendo sua significação. Perde a significação, mas transmite, sustentado pelo discurso analítico, algo da experiência do real. Lacan, revirando a psicanálise ao avesso, chega, como quem opera no limite da palavra poética, a vislumbrar “um discurso sem palavras”[4]. A esse horizonte de um discurso sem palavras, da escrita literal do matema, podemos chamar prática da letra[5]. Ou mesmo prática do poema: “a escrita exercida como caligrafia extrema do mundo, um texto apocalipticamente corporal”[6].

Herberto Helder, em uma espécie de testemunho sobre o ato de escrita, intitulado “Estilo”, demonstra o método de redução da linguagem ao seu caráter matemático, equacional, literal, visando a dar tratamento, por meio da operação com as letras, isto é, com o poema, às experiências vividas:

 

O estilo é um modo sutil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte[7].

 

O estilo a que se faz referência é, de certo modo, a transposição da experiência – excessiva – à linguagem. Transposição da desordem estuporada da vida em tópicos que se equacionam. Onde a língua esgarça e se abre, o escrito concentra, no “jogo concêntrico das palavras”[8]: a morte, o amor, curiosamente dois nomes para as pulsões. No mesmo texto, o poeta afirma ter criado seu estilo, que se pode tomar como método para pensar o que é a prática da letra no poema, mas também no matema, a partir da aproximação da linguagem poética à equação matemática: “Arranjei meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. (…) Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações e três incógnitas. Primário. Rudimentar. Resolvi milhares de equações.”[9]

Essa indicação de que poesia e a literalidade máxima de uma equação podem se encontrar em procedimento, em técnica, é de grande valor para se pensar a teoria da letra e a experiência de escrita. O psicanalista Jacques Lacan, em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, percebe que o texto poético leva a linguagem à sua máxima literalidade e, por essa via, transmite o que tem a dizer integralmente: não a sua significação, mas a sua letra, o seu efeito poético de afetar os que leem ou escrevem por meio da letra: “o texto mais carregado de sentido desfaz-se, nessa análise, em bagatelas insignificantes, só resistindo a ela os algoritmos matemáticos, os quais, como seria de se esperar, são sem sentido algum”[10].

Na linguagem do poema, o mal-entendido gerado pela deriva do significante prosaico tende à redução, chegando-se à exatidão do dizer. Assim, a exatidão do poema aproxima-se do matema, de uma fórmula que se transmite integralmente, não pela via do sentido, mas pela via literal.

Se procuro pensar, o poema e o matema, falo de sobrevivência, do lampejo que, mal se transmite, se apaga. Talvez fosse preciso definir o que entendo por poema, porque falo do poema tal qual me visita, o poema tal qual me habita algumas vezes. Tendo o poema e o matema no horizonte, diria:

Só o corpo atesta o que o poema lê. O poema é transmissor do que no corpo pulsa, vivo. Corte preciso, exato. O poema em si é corpo literal. É transporte, conforma abertura a outra margem – a dos sons anteriores à língua, da língua de ninguém. O poema é des-medida humana – corpo irredutível que se espraia. É autenticação do resto concernido nas malhas da letra. No poema, existe-se – criação do poeta em devir. O poeta que se cria do texto, o texto que se cria pelas mãos do poeta. Hesitação anterior e, paradoxalmente, objeto futuro. O poema é resto acurado, desejo. Punho cerrado, relâmpago. Um pouco depois, impulso.

O poema é também uma forma de se atravessar a morte sem morrer, cerzi-la na impossibilidade de morrer. Ou a forma mais justa de amor. Porque se é para o aberto, para o campo sem parâmetros linguísticos (o feminino?) que o poema migra, talvez seja um modo de não perecer em território por demais aberto. O poema, rumando para o aberto, conta algo desse espaço, prolonga os corpos, conta-lhes, celebra encontros num impossível cálculo desmedido. Sabendo não haver Outro que o receba em campo aberto, o poema, ainda assim, se endereça atentamente às coisas:

 

O poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção – decerto nem sempre muito esperançada – de um dia ir dar a alguma praia, talvez a alguma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho – têm um rumo.

Para onde? Em direção a algo aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável. Penso que, para o poema, o que conta são essas realidades. E acredito ainda que raciocínios como este acompanham, não só os meus próprios esforços, mas também os de outros poetas da geração mais nova. São os esforços de quem, sobrevoando por estrelas que são obra humana, de quem, sem tecto, também neste sentido até agora nem sonhado e por isso desprotegido da forma mais inquietante, vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade.[11]

 

Ferido de realidade o poema passa, espera que a ferida circunscrita no espaço estreito e frágil de um garrafa possa encontrar pouso e espaço no limiar de outro corpo, para se aprender de cor, se dizer num só gesto em que se reconhece alguma verdade.  E só quem tem a experiência do corpo aberto pode abrir a garrafa do poema. Nesse espaço, não é a palavra que protege a ferida. É a ferida – a marca de uma ruptura no corpo da língua – que protege a palavra. A ferida como salvaguarda de um dizer precário, verdadeiro. Mas, convenhamos, nem todo corpo se abre ao que o poema atenta.

Se pudéssemos dizer dO poema, diria que ele está a céu aberto. Penso que O poema não existe. Sei, no entanto, que já fui tocado por muitos poemas. O poema nos atravessa, o poema – mensagem endereçada ao corpo aberto – lê o desconhecido que nos habita, concentra-o, literaliza-o: “A atenção que o poema procura dedicar a tudo aquilo com que se encontra […] é antes uma forma de concentração que tem presentes todos os nossos dados.”[12]

A atenção, a sua concentração, seu gesto de acurar-se devolve a quem escreve alguma existência: às vezes todos os nossos dados se precipitam, reduzidos de imaginário, depurados de símbolos, como um atravessamento para o aberto das coisas escritas em sua inocência, como se, atentando às coisas, o objeto de letras faiscasse na ponta dos dedos

 

até cada objeto se encher de luz e ser apanhado

por todos os lados hábeis, e ser ímpar,

ser escolhido,

e lampejando do ar à volta

na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos

como para escrever cada palavra:

pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:

um copo de água,

tudo pronto para que a luz estremeça:

o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima

tão súbito e implacável na vida administrativa[13].

 

O poema formula, exato, o que resta vivo do que cai da nomeação do corpo. O testemunho do corpo em estado de milagre. Ou o Matema: experiência do real, testemunho do que lê.

 

Ps: Eu talvez tenha tentado falar um pouco do Celan, do Helder, do Juliano. Mas acabei falando junto a eles, falando com eles, porque são eles, os poemas, que lêem e transmitem. Lêem algo e nos habitam na brevidade desmedida do tempo.

[1] PESSANHA, Juliano Garcia. Instabilidade perpétua. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009 , p 51

[2] CELAN, Paul. Arte Poética – O meridiano e outros textos.  Lisboa: Edições cotovia, 1996, p 54.

[3] LLANSOL, Maria Gabriela. Onde vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 168

[4] LACAN, Jacques. O seminário. Livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1991, p.11.

[5] Ver homenagem a Marguerit Duras.

[6] HELDER, Herberto. Photomaton e vox. Assírio e Alvim: Porto, 2013, p.10.

[7] HELDER, Herberto. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005, p. 11-12.

[8] HELDER, Herberto. Photomaton e vox. Assírio e Alvim: Porto, 2013, p 25.

[9] HELDER, Herberto. Os passos em volta. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005, p. 12-13.

[10] LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 301.

[11] CELAN, Paul. Arte Poética – O meridiano e outros textos.  Lisboa: Edições cotovia, 1996, p.34.

[12] CELAN, Paul. Arte Poética – O meridiano e outros textos.  Lisboa: Edições cotovia, 1996, p.57.

[13] HELDER, Herberto. Servidões, Lisboa: Assírio e Alvim, 2013, p. 45.

 

Ela, a escrita, nos lê

(notas sobre o grande segredo da escrita e da leitura)

 

                                                                                                     Lucia Castello Branco

 

Escolhi falar de um texto de Juliano Pessanha que especialmente me comove, movendo-me, com ele, na direção para a qual ele aponta, nesse texto. Trata-se de “Equação natal: presença roubada”, escrito surpreendente que abre o livro Instabilidade perpétua, do autor. Escolhi, para me fazer companhia nesta leitura, e também para acompanhar Juliano, aquela que já me acompanha há vinte e dois anos: Maria Gabriela Llansol. Mas escolhi recortar um texto que muitos não conhecem, pois aqueles que cuidam do acervo de Llansol fazem questão de escondê-lo. Trata-se de uma carta da autora, dirigida ao crítico Eduardo Prado Coelho, em 25 de novembro de 1999. Trata-se de uma carta também surpreendente, escrita no dia de Natal, no ano em que o mundo estava prestes a acabar. Tive a honra de escutar essa carta de Llansol ao telefone, tão logo ela a escreveu. Eu estava em Portugal na época e Llansol me ligou para ler a carta e para me pedir que eu tentasse publicá-la no jornal português O público, pois sabia que eu tinha amigos ali. Não consegui fazê-lo, na ocasião. Ninguém, de fato, estava muito interessado no que Llansol tinha então a dizer, naquela carta em que ela apresentava os motivos de sua recusa em representar a literatura portuguesa na França, no ano em que Portugal seria ali o país homenageado. E seus motivos, nessa carta, são tão contundentes e tão verdadeiros e tão imperiosos que ninguém quis saber deles.

Mais tarde, Llansol publicou essa carta em um blog, que logo desapareceu, fazendo a carta sumir do cenário. Trago-a hoje, aqui, partida aos pedaços, na tentativa de fazê-la ressoar ao lado do texto de Juliano, pois esta é a equação natal que gostaria de propor para essas duas presenças roubadas do cenário da literatura, do “palácio de cristal da instituição literária”, como Juliano o nomeia. E espero fazer ressoar o texto de Llansol, ao lado do de Juliano, numa tentativa de fazer justiça à contundente questão colocada pela perplexidade de Juliano nesse texto — “Onde está o poema da chegada? Tua vida, onde fica?” –, fazendo jus também às palavras de Shoshana Felman, em sua análise do silêncio/suicídio de Benjamin, em O inconsciente jurídico:

 

Vida para os mortos reside numa lembrança (por parte dos vivos) de sua história; justiça para os mortos reside numa lembrança (por parte dos vivos) da injustiça e do ultraje cometidos contra eles. A história é assim, muito além das narrativas oficiais, uma reivindicação mnemonicamente persistente e recorrente que os mortos dirigem aos vivos, cuja responsabilidade não é apenas lembrar os mortos, mas protegê-los contra serem apropriados de maneira incorreta: “O dom de despertar do passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer (“Teses”, p. 225).” (FELMAN 2014, p. 44).

 

 

Este texto sustenta-se por uma hipótese que o seu título encerra: a de que a escrita nos lê e que, nessa operação de leitura efetuada pela escrita, reside sua capacidade de curar, reduzindo ao “ponto de letra” (BRANCO, 2000), aquilo que necessitaria de um tempo e de um espaço maiores que a própria vida para ser escrito. Mas, observemos: sendo a própria escrita que faz esse trabalho de leitura, pouco sabemos acerca do que se lê, nesse trabalho, restando-nos, apenas, testemunhar os efeitos desse “grande segredo”. Por isso, talvez aqui possamos evocar estas palavras de Lacan, dirigidas aos psicanalistas:

 

No discurso analítico de vocês, o sujeito do inconsciente, vocês supõem que ele sabe ler. E não é outra coisa, esta história do inconsciente, de vocês. Não só vocês supõem que ele sabe ler, como supõem que ele pode aprender a ler.

Só que, o que vocês o ensinam a ler, não tem, então, absolutamente, nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever a respeito. (LACAN 1982, p. 52)

 

1 – O animal chamado escrita

 

Era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz de plantas e, em

terceiro,

a matriz de todos os seres existentes (LLANSOL 1984, p. 160)

 

Assim Maria Gabriela Llansol define a escrita: como um animal que desde sempre esteve lá e que devíamos todos, obrigatoriamente, encontrar no caminho. Sabemos que Juliano o encontrou e, para ele, esse encontro foi, a princípio, da ordem do espanto pela “maravilha de haver coisas”:

 

Aconteceu de eu caminhar pela praia quando vi um caranguejinho azul. Ele zanzava loucamente de um lado para o outro e eu ergui os meus bracinhos para comemorá-lo; e dizendo “bis-su, bis-su, bis-su”, esfreguei os pés na areia num transe de imitação e de excitação diante daquela estranha criaturinha. (Pessanha 2007, p. 36-7)

 

Mas não havia, ali, naquele encontro de Juliano com “o animal chamado escrita”, ninguém que pudesse testemunhar a dignidade de seu gesto diante da “maravilha de haver coisas”: “Para tanto, para que eles tivessem acolhido e reconhecido o meu gesto, eles teriam de ter, ainda, alguma companhia do desconhecido”. Mas “a festa da criança não conseguiu arrastá-los até a ventania da aparição”, ficando “sem o tu e sem o outro”.

 

Essa decepção do encontro, assim Maria Gabriela Llansol a define, nesta carta a Eduardo Prado Coelho:

 

Nas experiências que fiz, no meio literário, não encontrei qualquer caminho para o meu texto. A falta de humanidade é de regra, ninguém sabe porque escreve, a minha obra é apresentada como um meteoro desconhecido, nunca ninguém pediu a quem sabe um pouco mais sobre ela para a apresentar, eu própria estou desde sempre catalogada como inacessível, nunca encontrei ninguém que estivesse minimamente interessado em escutar os problemas que me punha a obra que nascia de mim e à qual eu sempre estive firmemente disposta a dar corpo.

 

 

2 – A pequena fagulha do poema

 

 

Em consonância com essa decepção, Juliano Pessanha teria dito:

 

 

Vejo de um lado todo o palácio de cristal da instituição literária e, do outro, a pequena fagulha do poema. Pode um camundongo atravessar um elefante, entrar-lhe pelo rabo e furar toda a sua pele grossa para saltar do outro lado pela tromba? E já nem se trata de elefante. O elefante é um animal maravilhoso. Se trata de manadas inteiras de entulho e de carapaças de metal e de calcário. Se trata de um universo inteiro hipernomeado de sentido, hipersaturado de narrações. Escrevo para reencontrar a primeira intensidade, a intensidade sem sentido do gesto inaugural. Escrevo para furar e atravessar o piche sobre o meu rosto e os meus braços.  Preparo meu corpo para o poema da proximidade. Escavo o lugar de um novo começo; lugar de um rosto que amasse o fundamento.

 

Sim, porque é nesse universo hipersaturado de narrações que é preciso encontrar a narrativa que suporte a experiência de uma singularidade. Mas, para que se assente numa narrativa, “é necessário, antes, ter passado pelo poema”,  observa Juliano, ou ter passado pela textualidade, diria Llansol:

 

O que mais me impressionou no caso de Timor foi o facto de não haver texto para onde (e por onde) pudesse caminhar toda a revolta emotiva que se ergueu. Vi, assim, as pessoas descerem cada vez mais na emoção, terem cada vez menos palavras para a dizerem, entregando-se às práticas ancestrais, como rezar, dispor-se a dar a vida, levantar castelos de proclamações, em suma, servir-se dos textos que havia, não tendo um novo por onde trilhar o facto novo, porque foi, de facto, um novo que emergiu e se perdeu.

 

Sem a textualidade, ou sem a fagulha do poema, o novo se perde, a experiência não se assenta numa narrativa, e os sujeitos não se localizam. Porque eles estão lá, “mas em pleno sumiço do corpo”, escreve Juliano. Ao que Llansol poderia acrescentar:

Xanana, por vezes, fez-me lembrar o gesto de levantar o corpo dos camponeses mortos, a dizer ´este sou eu´, dizer-lhe estando vivo enquanto nos braços lhes morriam as palavras, e com esse texto tentar abrir no real da política actos mais freqüentes de dom poético, de compaciência pelos corpos que sofrem, e de alegria pelos que amam.

 

Só o dom poético é capaz de gestos de compaciência pelos corpos que sofrem e de alegria pelos que amam, afirma Llansol. É preciso suportar a fagulha do poema, insiste Juliano Pessanha, pois, “se o poema morreu dentro do adulto, se ele já fechou o seu olhar de aparição, então o que é aberto vai ser logo fechado, selado”.

 

3 – O beijo dado mais tarde

 

Para aqueles que suportam a fagulha do poema, ainda é possível que, “pelos dedos invisíveis do acaso”, o encontro se dê. Foi assim que, um dia, aquele que vagava por “dois meses engolido no vazio”, com palavras que já “não grudavam em nada” e numa exaustão de dor, deparou-se com as Notas do subterrâneo, de Dostoievski:

 

Eu o li de um só golpe e, ao terminar,percebi meu coração pulsando quase humanamente. Beijei a lombada do livro e anotei na contracapa: Você é o grande livro da terra. Você morou no quarto giratório das tremendas ansiedades. Você beijou a goela do horror e, mesmo assim, me parece que certa vez, a vida de um homem esteve protegida pelo véu da noite…

 

Foi assim que, também um dia, exausta da literatura e das aulas de literatura que eu era obrigada a ministrar, deparei-me com o livro Um beijo dado mais tarde, de Maria Gabriela Llansol. Havia ali um “mau silêncio”, ela dizia, um “mau silêncio” na casa. No meio do mau silêncio, havia uma rapariga que temia a impostura da língua. Mas era possível, num gesto de coragem e resistência, tornar iluminados os objetos apagados. Lembro-me de que, nessa noite, eu me sentei no chão da cozinha e pensei que seria necessário sustentar esse texto, publicamente, e não privadamente, pois esse texto me ajudava a viver melhor e com menos impostura. Isso foi em 1992.  Duas décadas depois de um trabalho ininterrupto com esse texto, no Brasil, leio, ainda, na atualidade desta carta da autora dirigida a Eduardo Prado Coelho:

 

Esta cultura pura e simplesmente não quer a minha obra, não sabe o que fazer dela, excepto em termos privados. O número de pessoas ´cultas´ da nossa praça que a lêem (algumas citaram-me páginas inteiras de cor), e são incapazes de a nomear no espaço público é propriamente aterrador. E, mesmo em privado, procuram silenciar o pensamento que ela veicula. Ou seja, eles próprios, no sistema da dupla cultura, colocam aquele texto na esfera do privado, não abrindo espaço para que eu possa intervir, não como marginal, mas como ser humano que criou uma perspectiva que, em privado, lhes é útil (…) como se não fosse sua obrigação estrita bater-se, a meu lado, ombro a ombro, por uma obra que nos ajudava a viver melhor e com menos impostura.

 

Estamos muito longe do “palácio de cristal da instituição literária”. Por isso, é preciso ler em voz alta os textos desses sujeitos, estes que sustentam, em seu corpo, o “animal chamado escrita”. Lê-los, sim, fora do espaço privado do palácio de cristal. Bater-nos, a seu lado, ombro a ombro, por uma obra que nos ajude a viver melhor e com menos impostura. Esta a verdadeira cura promovida pelo animal chamado escrita: a criação de “um espaço de vida, que não seja marginal a nada, mas um lugar real de escrita e de leitura”, propõe Llansol.

Creio que esse lugar vem sendo cavado por Juliano Pessanha. Nisso, coloco-me a seu lado. Com ele, co-movo-me, ao ler:

 

Eu fugi e, ao chegar em casa, escrevi sem parar e, ao escrever, ao relatar o acontecido, eu comecei a cavar um outro lugar, um lugar além da normalidade e além da exclusão. Era preciso imitar o animal fascinante cujo nome é cupim. Eu estava soterrado num lugar morto e medido. Tinha um corpo barrado e só podia me mover no formol e no quadriculado. Não havia outra saída senão cavar. Aquele lugar não podia ser a vida! Não podia ter faltado coração e combustível na criação! Conduzido pelo pressentimento do espaço aberto, cavei por mais de duas décadas. Interpelado pelo brilho das orlas e apaixonado pelo futuro, cheguei um dia a colocar os pés na areia e a presença roubada foi, enfim, devolvida. Aspirei o fervilhar da espuma entre a terra e o mar, e o meu corpo urrou ressoando a exuberância do paradiso terrestre. Agora, guardo comigo um grande segredo e nenhuma potência do mundo conseguirá arrancá-lo.

 

 

Referências Bibliográficas

 

BRANCO, Lucia Castello. Os absolutamente sós: Llansol – a letra – Lacan. BH: Autêntica, 2000.

LACAN, Jacques. O seminário. Livro 20. Mais, ainda. 2 ed. RJ: Zahar, 1984. P. 38-52: A função do escrito.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1991.

LLANSOL, Maria Gabriela. Carta a Eduardo Prado Coelho. Lisboa, 25 de dezembro de 1999. fiodeaguadotexto.wordpress.

PESSANHA, Juliano. Instabilidade perpétua. SP: Ateliê Editorial, 2009. P. 29-39: Equação natal: presença roubada.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Estético Convívio

  1. maria ines de almeida disse:

    Muito bom ler esses textos e sentir que o animal- escrita – está lá no caminho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s