Companheiros Filosóficos

O texto - a mais curta distância entre dois pontos, a mais cura distância entre dois pontos. Foto Julia Branco

O texto – a mais curta distância entre dois pontos, a mais cura distância entre dois pontos. Foto Julia Branco

Continuamos, hoje, com a postagem das partículas que compõem a conclusão da tese de Doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, de Erick Gontijo Costa, intitulada “acurar-se da escrita — Maria Gabriela Llansol”.

Leia, a seguir, a nona partícula, intitulada “ cura”:

Na psicanálise, um sujeito, ao falar a seu analista, desloca-se, refuga, avança, reposiciona-se, à medida que seu discurso depura. O que de um sujeito é objeto, assintático, decanta, ao ser aparado por um analista. Ante a queda de algumas palavras – objetos irredutíveis –, pode-se então tratar um sujeito em análise.

Na escrita, o processo de depuração da linguagem pode também se apresentar. Há escritores para quem a palavra é não apenas signo, mas matéria viva. A palavra poética, em si, é depuração, conformação de objetos estéticos, pulsantes, corpos vivos. E as palavras, se não se transformam nas coisas a que um dia se referiram, podem ser tomadas, em si, como coisas, matéria sonora, visual, plástica. O que, em certa medida, as liberta de seus primitivos referentes, de seu sentido rígido e sintomático e pode permitir certo tratamento ao sujeito que escreve, seja em análise, seja nos limites de uma folha de papel.
Nessa dimensão textual, a palavra é pontual, precisa, capaz de localizar o que em um corpo é morte e errância. Corpo pulsional escrito que opera a partir de traços restantes da composição psíquico-corporal, isto é, a partir do que resta da construção de uma ideia do que se é, da noção que se cria de corpo e de realidade. Se há cura, um novo sujeito, desconhecido que se traz em si, se enlaça de determinado modo a objetos.
Escreve-se a partir de resíduos, de furos a se contornarem na linguagem, porque, onde a palavra falta, escreve-se. Onde a linguagem é posta em xeque, onde a fala é choque e desvanecimento, letras irredutíveis cristalizam-se. Cura, nessa perspectiva, é desejo da escrita. Cura em devir: acurar-se da escrita.

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