Falando com as paredes

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Foto de Lia Krucken

 

 

Inspirados nas “Conversas na Capela de Saint Anne”, pronunciadas por Lacan em 1971/1972, hospital psiquiátrico a que Lacan retorna e onde reencontra sua juventude de interno em psiquiatria, iniciamos aqui uma nova série que pretende não só evocar o encontro da psicanálise com o texto de Maria Gabriela Llansol – encontro celebrado por vários dos trabalhos desenvolvidos em Belo Horizonte, em torno da obra da autora –, mas também evocar o tom crítico e polêmico, tanto das intervenções lacanianas, nesse contexto, como também de diversas intervenções llansolianas, seja em seus discursos, seja em suas entrevistas, seja ainda em livros como O Senhor de Herbais e Onde vais, Drama-Poesia?.

A ideia desta nova série é, portanto, a de discutir, a partir de Llansol e de Lacan, sobretudo, as “estéticas do mundo e suas tentações”, buscando promover um retorno ao texto de Llansol, em respeito à radicalidade de suas proposições. Falar com as paredes, como queria Lacan, significa, também aqui, falar sozinho: “Nem com vocês, nem com o Outro maiúsculo (…) Cabe a vocês me interpretar”.

Apostando na direção de um não saber — que nada mais é que a de um saber suposto, o saber inconsciente –, pretendemos fazer frente à pretensa erudição que costuma entupir os manuais de literatura e a que não escapam nem mesmo alguns estudos llansolianos, que buscam conformar a restante vida dos textos da autora aos moldes da acomodação dos restos a que se prestam as “Belas Letras”. Nada mais distante do projeto llansoliano, que propunha “pactos de inconforto” àqueles que, tranquilamente, se propõem a ler e a compreender rápido demais.

Leia, abaixo, o texto “Felicidade Clandestina”, de Lucia Castello Branco:

 

Felicidade Clandestina

Para Jonas Samudio.

E, afinal, como numa felicidade clandestina, estou, novamente, com um livro dela nas mãos: A palavra imediata. Não quero lê-lo depressa, para que ele possa ainda arder, por algum tempo, em mim. O texto ardente, eu o recebo: como um fogo, uma desorganização enigmática.

O primeiro susto: ali está, pela primeira vez, o nome do analista dela: Francis Goerts. Aquele que teria permanecido silencioso durante seis anos. Até, finalmente, pronunciar a palavra que encerraria a análise: “E por que não amá-lo?” Esta frase, que Llansol receberia como uma palavra – ou uma holófrase, talvez — , referindo-se a seu pai, coincidiria, mais tarde, com o fim de O jogo da liberdade da alma, que, por sua vez, evocaria o fim de Um beijo mais tarde: “Inunda-me a felicidade excepcional”.

Mas aqui, neste novo livro, o que resta, na aparente “acomodação dos restos” a que os papeis avulsos se conformam, é tão somente a referência ao analista como o “burro que fala”: “Francis tem um nome adequado a um psicanalista – burro que fala. O que se pretende é que o inteligente seja eu. Ele desempenha bem o papel”.

Eles, os inteligentes que falam, não percebem nada. Não percebem que “Les non dupes errent”. Não têm angústia, não admitem o saber inconsciente, o saber que não se sabe. E entopem o livro com imagens em baixíssima resolução e com pés de página que não escondem que ali alguma coisa se perdeu, alguma coisa se passou. A quem pensam enganar?

Mas o texto llansoliano resiste. Sento-me com ele, ao pé de um riacho imaginário, e evoco um companheiro filosófico de Gabriela: Roland Barthes. De seus Fragmentos de um discurso amoroso, extraio:
“Assim, às vezes, a infelicidade ou a alegria desabam sobre mim, sem nenhum tumulto posterior: nenhum outro sofrimento: estou dissolvido, e não em pedaços; caio, escorro, derreto. Este pensamento levemente tocado, experimentado, tateado (como se tateia a água com o pé) pode voltar. Ele nada tem de solene. É exatamente a doçura.”

E, então, reencontro Llansol:

“Vem-me a ideia de anotar como se vive no dia a dia. Para certas pessoas, o mais importante é agir; para outras pessoas, o mais importante é agir no mundo novo – ver como se comporta o pensamento sobre o corpo
quando o corpo se lembra de que existem outras relações para além das relações óbvias _______
Havia uma imagem de São João Baptista, além da de Sant’Anna, na sua atitude principal ______ ensinar a ler a Myriam.
Cada um de nós tem uma atitude principal. A minha é a de estabelecer uma relação de doçura ________”

Falando com as paredes, “falo para a sua bondade que me vê; a bondade numa cura psicanalítica? É o elemento das obras de misericórdia a circular no seu mundo”. Misericórdia, Senhores.

Lucia Castello Branco

A partir da leitura “in progress” de LLANSOL, Maria Gabriela. A palavra imediata, Livro de Horas IV. Lisboa: Assírio & Alvim, 2014.

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