Companheiros Filosóficos

Continuamos hoje a postagem de fragmentos da dissertação de mestrado em Teoria da Literatura de Carlos Batista, intitulada “A boa nova anunciada à natureza: o ‘drama-poesia’ em três discursos de Maria Gabriela Llansol”.

Fotograma do filme  "Lions Love",  de Agnès Varda, de 1969.

Fotograma do filme “Lions Love”, de Agnès Varda, de 1969.

À sombra do movimento animal que percorre soberanamente a escrita

  

Aliás, o livro do Génesis, de que nos servimos, está cheio de erradas (para não dizer conscientemente falsas) traduções. Para te dar um exemplo: onde está dito: “Sois poalha de luz e em seres luminosos haveis de vos tornar”, foi traduzido por “Sois pó e em pó vos haveis de tornar”. Mas não é meu trabalho discutir com livros mortos. Basta dizer que o texto evoca outra realidade.

Maria Gabriela Llansol

Sim, não a esconderemos aqui. Que ela nos mova, a nostalgia dos seres futuros que estão por vir. Essa, a nostalgia que forma as nuvens, pois o sabemos: o drama-poesia “não nasce de uma falta ou de uma carência, nem da falta de uma carência”[1]. Nesse sentido, seria necessário não nomear, e, por conseguinte, não fixar as nuvens em um lugar exposto no contexto de um fragmento de um discurso amoroso barthesiano, fragmento que nos diz que:

Há no entanto nuvens mais sutis [que as do mau humor enquanto “signo grosseiro”, “chantagem vergonhosa”]; todas as sombras ligeiras, de causa rápida, incerta, que passam sobre a relação, mudam a luz, o relevo; é de repente uma outra paisagem, uma leve embriaguez negra. A nuvem é então apenas isto: alguma coisa me falta.[2]

Sim, e não assim. Nuvens sim, e nuvens não assim. Talvez, assim: “flutuar, ou seja, habitar um espaço sem se fixar num lugar”[3], a se pensar no “despotismo tópico”[4] que tenta obrigar à situação, – sitiar, seria isso? -, e, a partir do qual, Roland Barthes diferencia o “lugar” do “espaço”; este, fora das posições, neutro[5]:

(…) cansa-me procurar (e não encontrar) meu lugar (conversas de desconhecidos), mas esse cansaço é transformado (cf. rugby) se não me pedirem que ocupe um lugar (num jogo), mas que apenas flutue num espaço → lugar ≠ espaço.[6]

Voltemo-nos, então, para “o espaço circundante, onde a linguagem é o fruto mais apetecível que lá deixámos.”[7] Fruto proibido no lugar da tradição da teologia cristã, fruto proibido no lugar do poder – lugar que põe no limiar da chama mulheres e homens, entre os quais Giordano Bruno. Recordemos que a luz desse lugar impõe-se na fogueira e que outra luz, pela indigência do fulgor ou pelo fulgor da indigência, é a preferida por Llansol.[8]

Eu já referi que esse lugar vem nomeado várias vezes no texto: é o espaço edénico. Até hoje não encontrei termo mais adequado, apesar de ao chamá-lo assim, me ver obrigada a desconstruir uma tradição religiosa. O que muitas vezes é pura perca de tempo. Mas se conseguires imaginar um espaço edénico que não esteja na origem do universo, como diz o mito; que seja criado no meio da coisa, como um duplo feito de novo e de desordem. Que sempre existiu e não só no princípio dos tempos. Que está correndo o risco de desaparecer aqui e a novidade de aparecer além, incógnito e irreconhecível; que não é fixo, como sugere a tradição, mas elaborável segundo o desejo criador do homem, compreenderás o que entendo por espaço edénico. É um espaço que vive confrontado, como o texto mostra, com o poder e com as imagens de início, com o tropel de imagens que vem do horizonte. Em termos psicológicos, esse espaço vive confrontado com a opressão política e/ou a obrigatoriedade de viver identificado com status sociais, e com a depressão.[9]

Nesse espaço, quem, ao provar desse fruto, desejasse a escrita, flutuaria para a margem da língua, a falar-nos das nuvens. E seria esse também, penso, o mais apetecível dos frutos para o sujeito amoroso, esse marginal que, a flutuar, restaria “em sua nudez, em sua situação de ser inacessível às formas habituais de recuperação social: em particular o romance.”[10]

Fruto de restante desejo, isso quererá dizer de uma certa selvageria.[11]Isso quer dizer de uma domesticação que o romance impõe ao amoroso, tornando-o um objeto de uma história de amor, e, por via de consequencia, sujeitaria seu leitor a esse lugar:

Isso quer dizer que, se você coloca o sujeito amoroso numa “história de amor”, por esse fato mesmo, você o reconcilia com a sociedade. Por quê? Porque contar faz parte das grandes imposições sociais, das atividades codificadas pela sociedade. Através da história de amor, a sociedade domestica o amoroso.[12]

Fruto de outra árvore que não aquela que dá ciência do bem e do mal, permitida pelo pensamento de outro jardim, escrevendo-se no puro amor do há, nos dá a ler a outra vertente: a do sexo de ler:

escrevia apenas que esse mal era uma metáfora. Foi quando a copa da árvore, um plátano imponente, lhe começou a ensinar   a descer da árvore, a descer da cidade vegetal que era até à ci-  dade humana,

igualmente iluminada pelo sol.

— É Parasceve, a cheia de graça — disse ao poema em que   meu olhar crescia: — Desce até ela.

Foi a segunda descoberta do olhar — na clorofila não há metáfora. O corpo ouviu e traduziu para as suas necessidades de movimento__em Parasceve, não há descida aos infernos.     Há ritmo, há espaço, há voz.

A sensação de subir e de descer, de ascender e de mergu-  lhar,

esta sensação ondulatória permanente que me arrasta o corpo tornou-se o verbo com que dedilho o espaço da cidade,

e que a move, em sentido inverso__a correr irresistivelmen-     te para o poema.[13]

Sim, restamos desobrigados dos lugares. Sim, restamos abrigados num espaço de inexpugnável beleza, a ler uma imagem sem o nó da dor, a des-nodar, pois que não há metáfora na clorofila – “a primeira matéria do poema”, matéria que concerne ao afecto: o belo, o pensamento, o vivo.

Referências bibliográficas

BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Hortênsia dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

BARTHES, Roland. O grão da voz. Entrevistas – 1962-1980. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BARTHES, Roland. O neutro. Anotações de aulas e seminários ministrados no Collège de France, 1977-1978. Trad. Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

DURAS, Marguerite. Emily L. Trad. Vera Adami. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. O Jogo da Liberdade da Alma. Lisboa: Relógio d’Água, 2003.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

Filmografia relacionada

Lions Love – Agnès Varda, 1969

[1] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?,  p.18.

[2] BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p. 154.

[3] BARTHES. O neutro. Anotações de aulas e seminários ministrados no Collége de France, 1977-1978, p. 43.

[4] PELBART. Da clausura do fora ao fora da clausura, p. 90.

[5] Peter Pál Pelbart, a acompanhar Barthes, diz que: “O neutro representa o recuo dos lugares em direção ao espaço – com tudo o que isso implica em termos de possibilidade de circulação, estados intensivos e uma nova modalidade de experiência nômade. Nela prima o indefinido, o indeterminado, a deriva, a errância, a perda, etc.” PELBART. Da clausura do fora ao fora da clausura, p. 91.

[6] BARTHES. O neutro, p. 42.

[7] LLANSOL. O Jogo da Liberdade da Alma, p. 88.

[8] O que poderia ser lido à luz de Um Falcão no Punho: “O uso do desejo parece-me preferível ao uso do poder. Se eu desejo escrever é para assumir os sinais da vida à medida que ela se metamorfoseia em poder; reforçar a existência com a paisagem de seu desaparecimento, torná-la livro à espera de outra liberdade, ou simplesmente, de leitura desejosa.” LLANSOL. Um Falcão no Punho, p. 48.

[9] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 146.

[10] BARTHES. O grão da voz. Entrevistas -1962-1980, p. 424

[11] Marguerite Duras nos diz na quarta capa de Emily L:  “Emily L. faz poemas, mas não fala sobre isso. Seu desejo é o de escrever. Seu desejo, ela o recebe como uma compulsão. Muito antiga. Antiga demais. Eu a associo àquela que acometia os caçadores da pré-história, nas noites de primavera. Eu vejo a literatura assim, como um algo comparável à caça pré-histórica. Quando nenhuma palavra tinha sido escrita. Eu a vejo chegar assim. Com essa força que levanta os homens (…) Escrever é também isso, esse apetite de carne fresca, de matança, de marcha, de consumação da força. É também essa cegueira.”

[12] BARTHES. O grão da voz, p. 424.

[13] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p.12-13.

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