Companheiros Filosóficos

Foto Izabela D'Urço

César Guimarães, Maria Inês de Almeida, João Rocha, Lucia Castello Branco, Flávia Trocoli, Vania Baeta, Ana Lucia Lutterbach Holck. Foto Izabela D’Urço

Na última sexta-feira, dia 22 de maio de 2015, tivemos a defesa da tese A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, de João Alves Rocha Neto, na Faculdade de Letras da UFMG.  Como um iniciado no vento, João seguiu, passo-a-passo, os dias de uma escrita que tem o dom de vegetalizar, descer ao rés do chão e de fazer torvelinhos na língua para encontrar, no pensamento da murta, o movimento da sua ética –  a justa medida da sua vida.

Ao lado de Llansol, seguindo a decisão da leitura como combate, João Rocha nos apresentou uma crítica-limite, uma teoria como persistência e desejo, trazendo de volta ao mundo as passagens que entram tímidas, sem lugar, excluídas que estão da lógica do poder e da glória a que os textos são confinados. Como se escutasse um chamado, um chamado do vento, João responde com a ventania ética de uma paisagem – que são várias – que tanto “nos absorve, quanto nos absolve”. O que passa pela escrita são os dias. Os dias menores, o pequeno sim, a luz intermitente dos vagalumes, o intempestivo, o ramo lilás e sua flor branca que falta. O que passa pela escrita é uma vida que se constitui com a literatura, não sem a psicanálise, ainda que isso o leve a comtemplar paisagens que lhe são difíceis de nomear.

Talvez pudéssemos dizer que a Paisagem escrita por João, nesses infinitos dias, é aquela de um leitor qualquer, que “bate à porta sabendo que o que lhe aguarda é apenas a serenidade e a justeza das coisas evidentes: pão, água, o convívio com as plantas e os animais, alguma luz mesmo de noite, alguma noite no corpo da própria luz. E o amor como partilha do mais difícil” (Eduardo Prado Coelho). Mas um leitor qualquer que não desiste e sabe, no fazer das coisas sem garantia, que o vivo resiste na margem, desenhando com justiça um lugar aberto no mundo.

Publicamos, a seguir, o texto de apresentação lido na defesa de sua tese.

Foto João Rocha. Encadernação Izabela D'Urço.

Foto João Rocha. Encadernação Izabela D’Urço.

Belo Horizonte, 22 de maio de 2015

Há alguns dias, um texto, lido ainda na minha infância, persegue-me de uma maneira insistente. Trata-se do conto O iniciado do vento, de Aníbal Machado. Tal insistência causou-me um certo incômodo, pois, a menos de uma semana da defesa de minha tese, deveria estar concentrado na escrita de sua apresentação e não em um texto que, aparentemente, não tem relação nenhuma com meu trabalho. Porém, qualquer palavra que escrevia para a apresentação, levava-me ao conto de Aníbal Machado. Foi então que me lembrei da seguinte frase, já bem conhecida, de Maria Gabriela Llansol: de uma palavra qualquer se conta. Sucumbi ao chamado do vento e decidi “pagar para ver” até onde me levaria esse método llansolliano.

***

Comecemos, então, por esta palavra: vento. Ainda sinto a pele ouriçada quando me lembro da história de Zé da Curva, o garoto que decidiu seguir o caminho do vento e não os que lhe foram traçados pela cidade: carregar as malas dos turistas e acompanhá-los como guia naquela terra governada pelos ventos. Lembro-me, como se fosse hoje, o fascínio e o medo de quando eu, ainda menino e muito magro, topava com uma ventania e sentia, muito forte, a sensação de poder ser levado pelo vento. Sim, pois, ao contrário do narrador do conto, cultivo, desde pequeno, uma atração pelo abismo e, portanto, o vento sempre fora para mim um acontecimento real, uma experiência palpável e uma forma de saber.

Mas ainda me pergunto: por que começar a apresentação desta tese, A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, com minhas memórias da leitura desse texto de Aníbal Machado?

Essa pergunta me leva para uma outra palavra: iniciado.

***

É preciso lembrar que uma das definições, e a mais interessante neste momento, para um iniciado é justamente aquele que foi introduzido na prática ou no conhecimento de qualquer coisa. Dessa forma, o que essa palavra nos conta é que esta tese é também uma iniciada do vento, pois cultiva certa atração pelo abismo e também porque o vento escreve, em suas páginas, a passagem interminável dos dias. E em qual prática ou conhecimento o vento a introduziu? Respondo, com Llansol, que o vento introduz à ideia de que tudo o que não é humano tem , tal como o humano, necessidade de redenção e que isso  é vital para a nossa continuação aqui , ou noutro lugar[1], pois tudo participa nas diversas partes: a boca, a copa frondosa, o cogumelo, a falésia, o mar, a erva rasteira, a leve aragem, os corpos dos amantes. Os três sexos que movimentam a dança do vivo: a mulher, o homem e a paisagem[2].

Um iniciado, também, guarda nas letras e no som de seu nome um destino: o começo. Começo, aqui, sem qualquer relação com uma ideia de origem, de verdade, mas como uma potência de criação, de transformação, pois um iniciado do vento guarda no som de seu nome o destino da metamorfose. E é, sobretudo, no campo da metamorfose que se inscreve o que aqui se revela como o cerne desta tese: a ética da paisagem. Ética cultivada na direção do abismo e que se abre e se sustenta, sempre, ao/no vivo – espaço em constante movimento, pulsante e sem hierarquia entre os seres que o habitam.

***

A ética da paisagem, que talvez também pudesse ser chamada de ética do vivo, é o que pode sustentar, em tempos de barbárie, um texto para onde (e por onde) pudesse caminhar toda a revolta emotiva que se ergueu. Como Llansol narra, em carta a Eduardo do Prado Coelho, referindo-se ao Timor Leste:

 O que mais me impressionou no caso de Timor foi o facto de não haver texto para onde (e por onde) pudesse caminhar toda a revolta emotiva que se ergueu. Vi, assim, as pessoas descerem cada vez mais na emoção, terem cada vez menos palavras para a dizerem, entregando-se às práticas ancestrais, como rezar, dispor-se a dar a vida, levantar castelos de proclamações, em suma, servir-se dos textos que havia, não tendo um novo por onde trilhar o facto novo, porque foi, de facto um novo que emergiu e se perdeu. Lembrei-me de Coração do Urso, Xanana, por vezes, fez-me lembrar o gesto de levantar o corpo dos camponeses mortos, a dizer “este sou eu”, dizê-lo estando vivo enquanto nos braços lhe morriam as palavras, e com esse texto tentar abrir no real da política actos mais frequentes de dom poético, de compaciência pelos corpos que sofrem, e de alegria pelos que amam. O dom poético faltou, de facto, ao «rendez-vous». Se tivesse um lugar minimamente «aceite» nesta cultura, creio que o poderia ter escrito.

Nessa direção, a ética da paisagem apresenta-se como uma ética do intempestivo[3], pois ela irrompe, faz irromper o que fora soterrado pelo poder, abrindo clareiras de respiração, num espaço antes entulhado de imagens e que, agora, esburacado de vazios, pode deixar correr, não sem atrito, o poema.   Ela se encontra, assim, em um certo estado de emergência, pois é preciso abrir espaços para que a palavra não morra, assegurando, como escreveu Blanchot, que a palavra seja a vida que carrega a morte e nela se mantém[4] e, assim, tornar-se uma potência da metamorfose para que o poeta possa continuar, indefinidamente, o seu canto:

____ escrevo,

para que o romance não morra.

Escrevo, para que continue,

mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,

mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,

mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,

mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis de nomear[5].

Em meio a esse canto lançado ao vento, aqueles que tomam a ética da paisagem como um meio de vida, de leitura e de escrita, fazem seu laço com o mundo antes pelo amor que pela cultura, isto é, pelo simbólico.  Fora justamente nessa direção, a resposta dada por Juliano Pessanha, em sua palestra “O intempestivo em três registros: Nietzsche, Tsvetaieva e Gombrowicz”, quando foi interpelado sobre a necessidade de o poeta fazer um laço social. Ao que ele respondeu: “não seria preciso antes um laço amoroso?”.

Nos litorais da ética da paisagem, o encontro se dá mais por um laço amoroso, isto é, por uma certa atração pelo abismo, e menos por um laço social, mais preocupado com as questões de identidade, por exemplo. Talvez, porque no laço amoroso seja mais possível aproximar-se de um pensamento de paisagem, que concebe o Outro não como um inimigo, mas como um destino[6]. Nessa direção, o abismo é levado, por rajadas de vento, para o cerne da cultura.

***

Os laços de amor que esta tese tentou construir com a passagem dos dias apontam para a tentativa de esclarecer – no sentido de ressaltar o seu brilho, a sua luz, seu fulgor – uma frase de Maria Gabriela Llansol, dita em entrevista a Lucia Castello Branco:  da mesma maneira que eu escrevo um texto único, mais do que um livro, é que eu faço aquele traço para querer mostrar, de uma maneira muito concreta, ,que eu sinto mesmo que o traço irrompe, que tudo está ligado a tudo e que sem o tudo anterior não existe o tudo seguinte[7].

Foi na tentativa amorosa de ligar o tudo anterior ao tudo seguinte, e por que não dizer, se nos encontramos no litoral do mundo, o nada anterior ao nada seguinte, que a primeira parte desta tese, intitulada Paisagens e organizada em partículas, se escreveu. Na esperança que pudessem abrir espaços de respiração ampla e silêncio, as partículas foram, assim, nomeadas:

Partícula 1: Paisagem Causa Amante;

Partícula 2: Paisagem em Sobreimpressão;

Partícula 3: Paisagem Fulgor;

Partícula 4: Paisagem da Restante Vida;

Partícula 5: Paisagem da Ética.

Como folhas soltas, elas se entrelaçam, sublinhando as cinco noções que movimentam esta tese. São elas: o amor, o Outro, a justiça, a vida e a leitura.

***

A segunda parte da tese, intitulada A escrita dos dias, faz ressoar as vozes que atravessaram os dias e que restaram como palavras em meus cadernos. Na Escrita dos dias, é possível ler o que chega com o vento, perder-se em sua falta de forma, ou ainda observar bem de perto o mundo para que se possa construir outros, com outras cores e sabores.  Essa parte foi organizada como um diário, pois as datas e os lugares podem conter, mesmo que precariamente, a força intempestiva dos dias ou o seu testemunho, como disse Llansol, na mesma entrevista a Lucia Castello Branco:

Por que escrevo? Escrevo para testemunhar o que meus olhos expectantes veem. E vejo as coisas concomitantes, várias realidades que me rodeiam e das quais faço parte. Aqui estamos eu e Lucia, neste jardim. Ali uma planta respira, ali correm crianças, ali um cão late. A minha escrita é isto: o meu sopro[8].

O sopro é o testemunho dos dias de Llansol. Ele é a sua escrita. E não é o sopro, também, uma das várias formas do vento? Não é também, como vento que, segundo Duras, a escrita chega? Ela diz: a escrita chega como o vento, é nua, é de tinta a escrita, e passa como nada mais passa na vida, nada mais, exceto ela, a vida[9].

Não fora à toa que o texto de Aníbal Machado batera insistentemente a minha porta. Era o vento que queria entrar. Como decidi, ainda menino, não ir com ele para não acabar como ele – sem forma e morando, sempre, no aberto do mundo –, ele veio para lembrar que ainda sou um iniciado do vento, pois, ao invés de me lançar em seus braços, lanço, hoje, minhas palavras ao vento, esperando que elas possam encontrar, naqueles que atravessarem seu caminho, alguma ressonância.

Obrigado.

João Rocha

[1] LLANSOL. Onde vais, Drama-Poesia?, p. 44.

[2] LLANSOL. Onde vais, Drama-Poesia?, p. 44.

[3] Refiro-me, aqui, à palestra, de Juliano Garcia Pessanha, intitulada “O intempestivo em três registros: Nietzsche, Tsvetaieva e Gombrowicz”, proferida no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, no dia 15/05/2015.

[4] BLANCHOT. A parte do fogo, 323.

[5] LLANSOL. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso, p. 116.

[6] Cf. CASTRO. A inconstância da alma selvagem.

[7] LLANSOL. Entrevistas, p. 51.

[8] LLANSOL. Entrevistas, p. 48.

[9] DURAS. Écrire, p. 53.

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Uma resposta para Companheiros Filosóficos

  1. Vanda disse:

    Joao querido
    Como lhe disse não foi possível estar com vc no dia da defesa mas, certamente seu belo texto me conduziu aos bons ventos que lhe trazem sempre! Parabéns! Vanda

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