Falando com as paredes

Foto Lucia Castello Branco

Foto Lucia Castello Branco

Em meio a um encontro intenso, entre os escritores perseguidos do Cosovo e aqueles da Palestina, ou do Irã, meu coração se apressa por dizer seu nome, Gabriela, e a experiência de uma escola que se chamou L’École La Maison. Seu nome estava ali, como um sinal de vida, como a marca do meio de uma vida, de um antes e de um depois.

E depois? Seguem-se, como uma ressonância feliz, os comentários acerca do afeto presente no discurso das brasileiras e da alegria pela criação da Cabra – A Casa Brasileira para Escritores Perseguidos – casa-refúgio, abrigo na orla da Mata Atlântica, casa de escrita, cas’a’screver.

Mas Portugal, sempre deslocado, sempre atrasado, não poderia faltar ao rendez-vous. Parece que veio para me dar a notícia de que a sua tradução de Mallarmé, aquela a que você se dedicou nos últimos anos de sua vida, não seria publicada. Afinal, o guardião (sic) dos seus textos considerou que não valia a pena publicá-la.

Penso na sua morte, na carta chamada carta, supostamente deixada sobre a máquina datilográfica com que você escrevia, a máquina chamada Gabriela.
Penso na beleza inútil dessa carta roubada.

Penso em Abazar Musa, o músico negro do Sudão, e em seu delito por ter ensinado às mulheres guerreiras a cantarem pela paz. Penso em Ramy Essam, o jovem egípcio a entregar seu corpo ao ritmo da revolução, como em sacrifício.

Penso na jornalista tão jovem, aos trinta anos, que escapou do atentado aos cartunistas franceses, apenas porque estava em viagem, a trabalho. Mas que agora, viva, cercada de ameaças e de guarda-costas, precisa dormir a cada noite numa casa, no sofá dos amigos, para tentar escapar ao próximo atentado.

Penso no jovem rapper da Faixa de Gaza, seus olhos verdes e sua percussão entrecortada, escuto sua poesia urbana e as batidas de seu coração a deriva, e o que ouço são ainda as palavras de Mohsen Emadi: a overdose entre Amsterdã e Teerã. Depois, na noite obscura da Síria, vejo os olhos para sempre atônitos do poeta Faraj Bayrakdar.

E só então volto à pena, porque não vale a pena publicar a sua tradução. Mas nós sabemos que foi a sua pena da escrita, apenas e tão só, o que ali suportou a ferida de Mallarmé, aquele que um dia teria declarado que “sim, a literatura existe, e se quiserem, sozinha, à exceção de tudo”.

Sim, a literatura existe. E resiste. “Creative Resistance” – chamava-se o encontro do ICORN, naquela cidade de Amsterdã. E a poesia, a sua, e o drama-poesia, o nosso, estiveram ali, a testemunhar que a censura, a intolerância, a opressão e o mau silêncio foram rasgados, por três dias e três noites, enquanto as águas do Amstel se encontraram com as águas do Tejo para escorrer aqui, num fio de água do texto.

Lucia Castello Branco

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3 respostas para Falando com as paredes

  1. Maria José Vargas Boaventura! disse:

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Vania Baeta disse:

    Como as paredes têm ouvidos, responderam: “a censura funciona para o que é da ordem do recalcado, mas não para a pulsão da escrita, que segue como o fio de água do texto”.

  3. LK disse:

    Ler Maria Gabriela Llansol aqui em Hamburgo, na Alemanha, é ter pés descalços na areia, receber uma mensagem de calor.
    É liberdade que se respira com o texto – os textos livres.
    Li e vibro (“um pouco mais tarde”):
    “O meu país não é a minha língua, mas leva-la-ei para aquele que encontrar.”

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