Estético Convívio

Nos canais de Amsterdã. Foto Lucia Castello Branco

Nos canais de Amsterdã. Foto Lucia Castello Branco

Hoje, postamos o discurso proferido por Lucia Castello Branco, no encontro bienal do PEN Internacional e da ICORN, intitulado Resistência Criativa – Histórias das bordas da Liberdade, realizado de 26 a 28 de maio, em Amsterdã. Seguem as versões em português e em inglês.

Amsterdã, 27 de maio de 2015.

Senhores,

É com alegria que aqui represento a Faculdade de Letras, casa que me recebeu há trinta e um anos como um abrigo para minhas formas de ler, de escrever e de transmitir esta paixão que me anima: a paixão pela literatura.

Não tendo nascido nas Minas Gerais, foi no entanto ali, na Universidade Federal de Minas Gerais, que encontrei uma casa – uma Casa de Letras – onde tenho passado a metade da minha vida, na companhia de colegas e alunos que funcionam, muitas vezes, como uma caixa de ressonância para essa paixão que me anima.

Ali, nessa Casa de Letras, fundei, com outros amigos, uma linha de pesquisa que há mais de vinte anos venho sustentando: a linha de pesquisa “Literatura e Psicanálise”. E é nessa linha tênue, mas precisa, que a maior parte dos meus trabalhos vem sendo escrita.

Creio que é não só por causa da Faculdade de Letras, mas também em razão dessa linha tênue, que hoje me encontro aqui, entre vocês. Porque foi a Psicanálise, em seu encontro com a Literatura, que me ensinou que o trauma, o exílio, o sofrimento, o abandono, mas também a alegria, o encontro, a hospitalidade e o entusiasmo são forças que habitam o mundo e que, afinal, constituem aquilo que chamamos de sujeito.

Foi por causa desse encontro entre a Literatura e a Psicanálise que fundei, em Belo Horizonte, ao lado de alguns colegas, um espaço de “práticas da letra” que chamamos de “Cas’a’screver”. Sim trata-se de uma casa, que abriga aqueles que escrevem, aqueles que sempre estão a escrever: os que se submetem à experiência da Literatura e da Psicanálise.

É, portanto, a partir da experiência de uma Cas’a’screver que ouso dizer a vocês que um refúgio, um abrigo, no contexto do que de mais próprio podemos lhes oferecer – um país e uma língua – não é pouca coisa para um escritor.

Tantos, antes de mim, já o disseram. Mas talvez aqui caiba apenas lembrar alguns , cujos chamamentos vocês já conhecem, e uma, que talvez ainda não conheçam, mas que em breve pretendo lhes apresentar.

O primeiro desses chamamentos, que já é conhecido de vocês, é o do poeta Paul Celan, que anuncia, em seu “Meridiano” (1960), que os poemas são caminhos no qual a língua ganha voz, caminhos “de uma voz para um Tu que recebe, caminhos da criatura, projetos de existência […] Uma espécie de regresso à casa.”

O segundo deles, ainda mais remoto que o de Paul Celan, é o chamamento de Virginia Woolf, em seu A room of one’s own [1929], quando ela anuncia, para suas colegas de ofício, sua prosaica conclusão acerca das relações entre “As mulheres e a ficção”: “É necessário ter quinhentas libras por ano e um quarto com fechadura na porta, se vocês quiserem escrever ficção ou poesia”.

O terceiro desses chamamentos eu vou buscar em uma escritora portuguesa contemporânea, Maria Gabriela Llansol, que viveu durante vinte anos exilada na Bélgica, onde fundou uma escola para filhos de exilados, que era conhecida como L’École La Maison. É Llansol, autora de um livro que justamente se chama Na casa de julho e agosto, quem escreve: “É a minha própria casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém”.

É por isso, Senhores, que não pude deixar de vir até aqui para lhes dizer que, “se o amor é a saudade de casa”, como assinala Sigmund Freud, em seu magnífico ensaio “O Estranho”, é porque, no amor, o familiar é sempre o estrangeiro, o estranho em sua estrangeiridade.

Assim, é num gesto amoroso (com toda a complexidade que esse gesto envolve) que a casa em que hoje habitamos, Leda Martins e eu – essa Casa das Letras da Universidade Federal Minas Gerais – abre as suas portas para receber o estrangeiro, lembrando que o regresso à casa nada mais é que o caminho do poema, como quer Paul Celan, ou o caminho do texto, como propõe Llansol: “a mais curta distância entre dois pontos”.  Sejam muito bem vindos.

Amsterdam, May 27th,  2015.

Ladies and Gentlemen:

It is with great pleasure that I find myself here representing the School of Arts and Letters, a home that welcomed me thirty-one years ago like a shelter for my ways of reading, writing, and transmitting this passion that animates me: a passion for literature.

Though I wasn’t born in Minas Gerais, it was there nonetheless, in the Federal University of Minas Gerais, that I found a home—a House of Letters—where I’ve spent half my life in the company of colleagues and students who, oftentimes act as a sounding board for this passion that animates me.

There in that House of Letters, together with friends, I established a line of research which I’ve nourished for more than twenty years: the line of “Literature and Psychoanalysis.” And it is in that tenuous but precise line that most of my work has been written.

I believe it is not only because of the School of Arts and Letters, but also because of that tenuous line that today I find myself here among you. Because it was Psychoanalysis, in its encounter with Literature, which taught me that trauma, exile, suffering, abandonment—and also joy, our encounters with others, hospitality, and enthusiasm are forces that inhabit the world and which, in the end, constitute what we call “the subject.”

It was because of that encounter between Literature and Psychoanalysis, that I established in Belo Horizonte, together with  some colleagues, a space for “the practice of writing” that we call

“Cas’a’screver.” Yes, it is a home, a shelter that houses those who write, those who are always writing: those who submit to the experience of literature and psychoanalysis.

It is, therefore, as a result of the experience of a Cas’a’screver, that we can offer you a refuge, cover, in the context of what most belongs to us—a country and a language—which is no small thing for a writer.

So many before me have already said it. But perhaps it’s appropriate here to remember a few others whose calls you all know already, and one, a woman you won’t know, but who, very shortly I intend to introduce you to.

The first of these calls comes from someone you already know, the poet Paul Celan, who announces, in “Meridien” (1960), that poems are the ways language gains a voice, ways of a voice to a receptive you, ways of a creature, projects of existence[…] A sort of  homecoming]

The second, even more remote than the one from Paul Celan, is the call of Virginia Woolf in A Room of One’s Own [1929], when she announces to her fellow writers, the prosaic conclusion concerning the relations between women and fiction: “a woman must have five hundred a year and a room of her own if she is to write.”

The third of these calls I bring from a contemporary Portuguese writer, Maria Gabriela Llansol, who lived for forty years as an exile in Belgium, where she founded a school for children of exiles known as L’École La Maison. It is Llansol, author of a book appropriately titled In the House of July and August.  , who writes: [“It’s very much my house, but I feel as if I’ve come to pay someone else a visit.”]

And so, Ladies and Gentlemen, I couldn’t come all this way without telling you that, “if love is the longing for home,” as Sigmund Freud points out in his magnificent essay “The Uncanny,” it’s because, in love, the familiar is always the stranger, the strange in all its strangeness.

And so it is in a gesture of love (with all the complexity this gesture implies) that the house which today Leda Martins and I inhabit—this House of Arts and Letters in the Federal University of Minas Gerais—opens its doors to welcome the stranger, remembering all the while that the way home is the way of the poem, as Paul Celan suggests, or the way of the text, as Llansol proposes: “the shortest distance between two points.” All of you are most welcome there.

                                                                                   Lucia Castello Branco

                                                                                   Trans. Paul Aviles

Lucia Castello Branco, Helgue Lund, Leda Maria Martins, Sylvie Debs e Elizabeth Dyvik, no ICORN Network Meeting 2015, em Amsterdã, maio de 2015. Foto de Lia Krucken

Lucia Castello Branco, Helgue Lund, Leda Maria Martins, Sylvie Debs e Elizabeth Dyvik, no ICORN Network Meeting 2015, em Amsterdã, maio de 2015. Foto de Lia Krucken

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