Companheiros Filosóficos

Continuamos hoje a postagem de fragmentos da dissertação de mestrado em Teoria da Literatura de Carlos Batista, intitulada “A boa nova anunciada à natureza: o ‘drama-poesia’ em três discursos de Maria Gabriela Llansol”.

L'Une Chante, l'Autre pas - Agnès Varda - 1977

L’Une Chante, l’Autre pas – Agnès Varda – 1977

À sombra do movimento animal que percorre soberanamente a escrita (continuação)

Sim. Erremos no espaço, no aberto de um traço, pela descontinuidade que nos permitiria, de “Nuvens”, atravessarmos “Para que o romance não morra”[1], rumo a “O encontro inesperado do diverso”[2]:

“Não adorava — sabia-o para sempre — qualquer        forma de poder, ou de violência. Por que aceitara eu um    Prémio que tantas vezes fazia sangue, a não ser por desejar    criar, com tantos outros, e no espaço da nossa Cultura,

um espaço matinal de contra-sangue?”[3]

No espaço, os dois discursos se encontram. No lugar de uma premiação, o espaço aberto pelo desejo, espaço aberto na Cultura: “um espaço matinal de contra-sangue”. Talvez pudéssemos reparar que não se trata de ocupar um lugar autoral, mas, sim, de criar, pelo deslize de “t” a “r”, um espaço auroral.

Nesse espaço, a pena do desejo que cria, acercada da pergunta “mas o que  é que   eu lhes vou dizer?”, seria afirmada, num mesmo momento tênue, por outra pergunta, desta vez do livro para o qual coincidem os dois discursos,  Um Beijo dado Mais Tarde:

“_________ que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?”[4] Assim, atentemos a um ponto de partida:

“Peço-vos que atenteis neste ponto de partida:

nós estamos sempre a contar coisas uns aos outros.

A maior parte das vezes, são histórias de furor e de sangue. Sabe-se. Mas não sempre. Às  vezes, acontece-nos   como acontece aos amantes nus que falam de coisas         anódinas, pequenas confidências em troca,            enquanto se acariciam e se contemplam.

Nesse instante, os corpos brilham

porque,

nesse trânsito, a palavra aí existe, mas sem importância          útil, e os corpos, sem que nós o saibamos, a absorvem — e  fulgem”.[5]

Das nuvens, dir-se-ia que o fulgor não condena a pena à fixação. Pois à sombra da árvore o texto se ilumina: “Há ritmo. Há espaço. Há voz.” Pela pujança do neutro, se é que se pode dizer assim, se faz, em uma topografia de suspiros, uma topografia de intensidades:

“<<Mas o que é a inteligência?>>, perguntou ela quando, de facto é a pergunta que o sexo da paisagem, desde que há humanos, a si próprio se coloca.

<<É um lugar onde a própria interrogação não é incerta>>, recebe como resposta

mas a objecto-de-beleza não aceita, quer entardecer

lançar os raios da sua beleza como um sol

e extinguir-se como uma galáxia”.[6]

Sim, a objecto-de-beleza não se sujeita, está fora do lugar, dir-se-ia pobre de si. Advém de um som que escreve, e com vida.  Por essa via, ouvir-se-ia: Com vida se escreve.[7]

Sim, convicta, ela escreve. A mulher, a que faz o amor em maneira diferente – amor que concerne à distância de um olhar desmunido e também à distância de uma palavra desmunida: “tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra.”[8]

Nessa maneira de amor, talvez pudéssemos observar a regra no posfácio de A Restante Vida: “Desmunir-se é a regra do abrir.”[9] Assim, recordemos o que Llansol nos diz acerca do amor aberto, aquele que se faz a três: “A melhor forma de amor – e estou aqui a falar sobre qualquer tipo de amor, o amor a uma planta, a um cão – é a forma de amor que se abre para fora de si mesma.”[10]

Para acompanhar essa regra amante que, desmunida, não adora “qualquer forma de poder, ou de violência.”[11],  vejamos onde nos leva o que se escreve no prefácio de O Livro das Comunidades:

Há, pela última vez o digo, três coisas que metem medo.     A terceira é um corp’a’screver. Só os que passam por          lá, sabem o que isso é. E que isso justamente a ninguém interessa.

O falar e negociar o produzir e explorar constroem, com efeito, os acontecimentos do Poder. O escrever acompa-  nha a densidade da Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem.

Escrever vislumbra, não presta para consignar. Escrever, como neste livro, leva fatalmente o Poder à perca de memória.

E sabe-se lá o que é um Corpo Cem Memórias de Paisagem.[12]

 

Corp’a’screver – abertura ímpar à qual somos convidados pelo terceiro sexo, que, num momento tênue, vivifica: “É vital conhecer a paisagem.”[13]

Assim, a essa “maneira distante de fazer amor” vale a pena.  A pena leve de uma certa nostalgia, a qual, “contrariamente ao que se crê, não alcança o passado, mas é acto <<aguado>> de futuro”[14]. Desse modo, talvez pudéssemos ver essa escrita como aquela que permite ler sem o nó da dor, da mágoa, este nome: nostalgia – o qual descreveria uma pertença a um país. Dessa forma, pela pulsação do falcão: “Há ritmo, há espaço, há voz”, não ouviremos o que não houve.

— Sim — disse a voz, por final. — Mas há outra vertente. A restante vida: a nostalgia de um falcão para   cada punho.

— Sim. A propósito de nuvens__________.[15]

 

 Referências bibliográficas

BRANCO, Lucia Castello. Encontros com escritoras portuguesas. Boletim do CESP. Belo Horizonte: FALE/UFMG, v. 14, n. 16, jul./dez. 1993.

LLANSOL, Maria Gabriela. A Restante Vida. Lisboa: Relógio d’Água, 2001.

LLANSOL, Maria Gabriela. Finita. Lisboa: Rolim, 1987.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. O Livro das Comunidades. Lisboa: Afrontamento, 1977.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1990.

Referência cinematográfica

L’Une Chante, L’Autre pas – Agnès Varda – 1977

[1] Recordemos que trata-se de um discurso proferido por Maria Gabriela Llansol quando da atribuição do Grande Prèmio do Romance e da Novela de 1990, da Associação Portuguesa de Escritores, conferido a Um Beijo Dado Mais Tarde, em Tróia, a 14 de junho de 1991. Incluído, mais tarde, em Lisboaleipzig 1 – o encontro inesperado do diverso.

[2] Assinalo que trata-se de um discurso proferido por Maria Gabriela Llansol no Convento dos Dominicanos do Lumiar, em Lisboa, a 11 de dezembro de 1991. Incluído, mais tarde, em Lisboaleipzig 1 – o encontro inesperado do diverso.

[3] LLANSOL. Para que o romance não morra, p. 117.

[4] LLANSOL. Um Beijo dado Mais Tarde, p. 49.

[5] LLANSOL. Para que o romance não morra, p. 118.

[6] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p.102,103.

[7] Convido, nesse sentido, para a tese de doutorado de Cinara de Araújo. ARAÚJO. Biografia como Método. A escrita da fuga em Maria Gabriela Llansol.

[8] LLANSOL. O Livro das Comunidades, p. 11.

[9] LLANSOL. A Restante Vida, p. 101.

[10] BRANCO. Encontro com escritoras portuguesas, p. 109-110.

[11] LLANSOL. Para que o romance não morra, p. 117.

[12] LLANSOL. O Livro das Comunidades, p. 10.

[13] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 45.

[14] LLANSOL. A Restante Vida, p. 101.

[15] LLANSOL. Nuvens, p. 115.

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