Falando com as paredes

helene bamberger

Marguerite Duras

Carta Aberta 

aos panacas que se julgam donos de sua vida, donos de sua escrita, ou, ainda pior, donos da escrita alheia

                                                                        por Lucia Castello Branco

 

A propósito da recente decisão do STF, que encerrou a polêmica em torno das biografias não autorizadas, liberando sua publicação em nome do direito à liberdade de expressão, e a propósito dos disparates que vemos acontecer, em torno dos chamados direitos do autor, que costumam beneficiar muito mais os “atravessadores” do texto, dentre os quais se situam, muitas vezes, os herdeiros legítimos e ilegítimos, ouçamos as sábias palavras de Marguerite Duras, pronunciadas há quase meio século, em conversa com a psicanalista Xavière Gautier:

M.D. – Um de meus amigos me disse: “Sabe, o filme me envolveu de imediato, mas o livro não.” E eu disse, logo depois dele: “Engraçado, a mim o livro me envolveu de imediato.” Então eles me olharam. Mas foi por alguns segundos, e então todos nós rimos. Eu me esquecera que o havia escrito, em suma, é … Mas eles não tinham esquecido.

X.G. – Sim, claro, mas mesmo assim parece que, na medida em que você não é como os outros escritores, alguém que possui … entende, como os possuidores: o que eles escrevem, entende, eles se agarram àquilo, e à possessão deles … outros também podem possuir, os leitores. É a mesma coisa que você me dizia que acontece com Lol V. Stein, não?

M.D. – Quer dizer, se torna deles?

X. G. – Sim.

 M.D. – Sim, mas Kévork Kuttukdjian disse: “Fui eu que escrevi Lol V. Stein.” Adoro que se possa dizer isso.

 X.G. – Está vendo … E vem de você, vem da maneira como você escreve. Se as pessoas pensarem que é vaidade dizer isso…, mas é totalmente, é uma humildade, não no sentido cristão, mas no sentido … verdadeiro, quer dizer, não se colocar à frente de alguma coisa. Olhe o vice-cônsul, ele não se coloca à frente de seu ato.

 M. D. – Não. Mas, veja, conheci … conheço alguém que quis me conhecer por causa de Le Vice-consul, e que fez um livro, fez um romance e me pediu que inserisse nesse romance trechos de Le Vice-consul, longos, às vezes capítulos, sem citação. Aceitei, é claro.

 X. G. – Aceitou?

 M. D. – Bem, é claro. Com alegria.

 X. G. – Está vendo, é isso … você conhece muitos escritores, aqui, que teriam feito isso, que teriam aceitado?

 M. D. – Olha, me parece, não sei, é …

 X. G. – Parece? As pessoas estão apegadas demais a sua …

 M. D. – O livro se tornou como uma pessoa, é do domínio do imaginário do jovem que escreve esse romance.

 X. G. – Sim.

 M. D. – É preciso desligá-lo de sua … de sua desvantagem de ser do escrito, tirá-lo dessa ganga do escrito, essa ganga sacralizada.

 X. G. – Sim…

 M.D. – Tem que circular.

 X. G. – Sim, eu diria que, mais do que do escrito, é … o que é sagrado é o autor … o autor posto em … o autor sagrado … bem, a ideia sagrada do autor.

 M. D. – Isso são os panacas que pensam.

 

 (DURAS, Marguerite; GAUTIER, Xavière. Boas Falas. RJ: Record, s.d. P. 141-142)

 

 *******

Lembro-me de que, quando encontrei Maria Gabriela Llansol, em 1992, ela me disse, acerca de uma matéria que havia saído no jornal, a propósito de Marguerite Duras, em que a escritora declarava que seus livros não faziam mais que falar de seus livros: “Com esse tipo de declaração, com esse tipo de escritor, eu me identifico”.

E lembro-me ainda de que, em 2000, quando lancei o livro Os absolutamente sós, Llansol me pediu que enviasse a ela 25 exemplares desse livro, para que ela pudesse distribuir para o grupo português que começava a se reunir em torno de sua obra. Quando estranhei o pedido, pelo número elevado de exemplares que ela me demandava, ela sorriu e me disse: “Porque esse livro é também um pouco meu, não é?”

Quantos estariam à altura dessas duas escritoras legentes, que retiravam o texto da “ganga do escrito” para lançá-lo no campo da textualidade? Quantos suportariam a dessacralização do autor em nome da dignidade da escritura?

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2 respostas para Falando com as paredes

  1. Maria José Vargas Boaventura disse:

    Poucos sairiam do seu plano de galho para ganhar espaço. Embora se arvorem, não sabem a árvorescritura. Em artes plásticas, a dessacralização do autor deixou um rico legado de apropriações, releituras e citações, sem lugar para babacas beletristas de plantão…

  2. …é perigoso quando alguém abala os adorados ídolos estatuídos… isso tudo tem a ver com poder… AUTORidade…
    Com Octavio Paz, “tudo é sagrado e se transfigura”; mas o sagrado não é pétreo; o fogo passa entre mãos; a ninguém o prêmio eterno… entre vivos e mortos circula a dádiva, “é de ninguém a vida… todos somos/a vida” (Pedra de sol).

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