Falando com as paredes

Foto de Jonas Samúdio

Foto de Jonas Samúdio

Estou falando com as paredes. E calo. Não é o muro, nem o murmúrio da cidade lá fora que me faz calar; não é a gota de chuva que, impedida pela densidade atmosférica, não pode se deixar chover; não é o peso do ar que me faz sofrer, que me faz chorar, que não me deixa escrever. É apenas uma palavra: aquela que sulca e atravessa a obra de Maria Gabriela Llansol, como um veio de água suja que escorresse pelo mapa inteiro; é aquela que faz a rapariga temer; é aquela desconhecida, que nos acompanha e nos arranha o fígado todo dia, todo dia até sangrar; aquela que sorri com facilidade; aquela que seduz enquanto morde a jugular; aquela que escapa das mãos; aquela que não se deixar tocar; aquela que se pinta sem se pintar. Apenas uma palavra: aquela contra a qual Llansol atravessou a noite obscura; contra a qual riscou seu meio dia. Lançou a chama, o anel e suas palavras de amor. Trancou-se e se escondeu. Partiu; fugiu dela e de sua tirania; fugiu dela e de sua ironia; fugiu dela e de sua covardia; fugiu dela e de sua arrogância, de sua ganância, de sua ignorância. Mas no fim, no fim do dia, ela vem. Ratos da noite roubam o fulgor que não lhes pertence. Mas, quando mordem os cadernos – roendo, roendo, roendo -, a claridade morre no canto de sua boca sedenta. Nada de luz do sol de Llansol há de banhar sua pele surda.

Estou falando com as paredes. E calo. Busco um canto, um banho, uma chuva. Tapo os ouvidos e ouço: até quando essa palavra, até quando..? Agacho-me: pequena, insignificante, nada. Ainda escuto a gargalhada escancarada daqueles que gozam sem parar, corroendo os cadernos alheios, devorando as traduções, imitando a luz, tirando o chapéu para quem dá mais. Ratos rigorosos manipulam holofotes: fortes olhos velozes espelhando a cifra voraz escrita no fundo de sua garganta.

Estou falando com as paredes. E grito: “bem-aventurados os alucinados, porque deles será o real / bem-aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano / bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível / bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança”.

Estou falando com as paredes. E repito: porque deles será a restante esperança.

por Vania Baeta

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Uma resposta para Falando com as paredes

  1. querida V.,

    Você sabe que estive um mês, no Brooklyn, lutando contra um casal de ratos que não consegui exterminar. A duras penas, entendi que eles são mais velozes que eu e estão se lixando para a impostura.
    Por isso é incrível que a restante esperança resista, nas mãos de uma santa sem pé nem cabeça, enquanto os ratos roem. Continuemos, pois.

    Lucia

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