Companheiros Filosóficos

Continuamos hoje a postagem de fragmentos da dissertação de mestrado em Teoria da Literatura de Carlos Batista, intitulada “A boa nova anunciada à natureza: o ‘drama-poesia’ em três discursos de Maria Gabriela Llansol”.

Des Glaneuses - Jean-François Millet, 1857 / Les glaneurs et la glaneuse - Agnès Varda, 2000

Des Glaneuses – Jean-François Millet, 1857 / Les glaneurs et la glaneuse – Agnès Varda, 2000

 

Onde Vais, Drama-Poesia?

 

Pensar em Deus, é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou…

Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

Mestre Caeiro

Eis a questão. Questão bastante clara quanto a não se confundir com: “De onde vens?” ou “O que és?” – duas formulações de identificação que poderiam soar como perguntas de escravo. Nesse sentido, o drama-poesia parece pressupor um movimento de existência: movimento que passa, que vai, e, arrisco, que chama a seguir. Onde? Pergunta aberta e que se dirige ao Aberto, uma vez que o texto é ofertado à paisagem:

ofereço-lhes o texto que escrevo, ignoro se o entendem, como ignoro se a minha presença activa bate asas como a borboleta que causa um tufão sobre o Pacífico

<<é para si>>, e concluo <<é para nós>>[1]

Há, assim, essa conclusão do “é para si” ao “é para nós”. Conclusão que se dá, talvez, a partir de um movimento de mútua não-anulação. Tal movimento parece inserir-se em um campo figural, em que os intervenientes ou figuras tecem o eterno retorno do mútuo, o qual Llansol vê como a boa nova anunciada a todo o vivente.

Assim, parece haver um caminho por onde vai o Drama-Poesia, caminho que também leva ao eterno retorno do mútuo, ou, à boa nova anunciada à natureza. Onde?

Por essa via, que não oferece identificação de destino, mas que parece apontar para “a certeza de que a evolução não será uma catástrofe”[2], poderíamos, talvez, apenas concentrarmo-nos “na leveza e na firmeza do pé que sintetiza o caminho,

e transforma o traçado diurno em decurso libidinal”.[3]

Pleno de desejo? Sim, é o que mais deseja. Encontrar o cor-     po que, enfim, o escreva nesta voz. O texto.

Legente, que diz o texto? Que ler é ser chamado a um com-bate,  a  um  drama. Um poema  que procura  um corpo sem-eu, e um  eu que  quer ser  reconhecido  como seu escrevente. Pelo menos.  Esse  o  ente criado em  torno  do qual silenciosamente gira toda a criação.

O luar libidinal é o nome  que  dou,  hoje, a  esse  compromis-

  1. Uma jubilosa difusão do caminhante pelas ruas,

a escrever cópias da noite.

Fugir ao destino do  vate. Fugir  à   mediocridade  da  autobio-grafia.[4]

Assim, proponho irmos por um caminho trivial que nos assinale que “Exercitaremos os pés por entre imagens, a as mãos sobre a escrita”.[5] Nesse sentido, passaríamos a três passos com o drama-poesia. O primeiro passo teria a ver com retirar o “d” de “deus”. O segundo passo diria respeito a que “um eu é pouco para o que está em causa”. E o terceiro passo se apoiaria, se houver lugar onde se pôr o pé, na legência.

Primeiro passo – “Decido, nessa altura natalícia, tirar o d de deus”

Nesse passo, remarcamos, ainda uma vez, a importância da figura do mestre da legência, de que nos diz Maria Etelvina Santos: Jade, um da paisagem. Um, diria, mais des-possuído que a figura do pobre, no sentido de ser um com a vista desarmada de humano: o olhar que vê o Aberto. Nesse sentido, Jade talvez possa ser visto como o interveniente do mútuo por excelência, aquele que anuncia o eterno retorno do mútuo, e, em decorrência disso, aquele que anuncia, vivo e a ladrar de alegria ao texto, a boa nova a toda a criação. Assim, observemos um trecho do ensaio de Maria Etelvina Santos intitulado “Jade, uma figura da legência”, texto apresentado e discutido em 18 de março de 2006, na Casa da Saudação:

JADE, o da Boa Nova, figura do dom poético, desenha algumas das linhas que movimentam o Texto llansoliano. (…)

Antes d’A Restante Vida, é a luta pela “liberdade de consciência” que é premente na obra de Llansol, a voz do Texto e das figuras ocupa-se dela. Caminha-se para fazer encontros com os da mesma linhagem, para dar voz aos que a História silenciou, para completar o esforço dos que caíram antes de virar o rumo dos acontecimentos, para trazer do futuro esses-outros capazes de uma justiça des-hierarquizada e não da justiça que actua seguindo as leis do Poder. No seio de Ana de Peñalosa, figura agregadora, terão abrigo todos os “pobres” da História, e esta poderá vir a orientar-se pela “liberdade de consciência”; mas há ainda uma outra vontade, um outro caminho a percorrer – sabendo que o nosso vivo, como diz o Texto, é apenas um dos muitos vivos que existem, de pouco nos servirá a liberdade de consciência se a não estendermos a todo o vivo, numa abertura de espírito e de diálogo com todos os que, diferentes por condição, fazem o todo que nos envolve. A essa outra vontade se chamará “dom poético”, e a figura de Jade vem mostrá-la no texto de Llansol.[6]

Assim, Jade prefiguraria um arauto do drama-poesia, um que anuncia um combate: a união do dom poético com a liberdade de consciência, pela via da leitura. Por essa via, Jade nos proporia não um retorno à natureza, mas trazer a natureza de volta, uma vez que não está em causa eliminar a liberdade de consciência. Pois, se esta representa um dom exportado nas caravelas – a dádiva que a Europa fez aos outros povos e continentes[7] – ela fundamentaria o mundo humano, e a paisagem não ataca nem apoia o mundo humano, mas não cessa de enunciar-lhe sua presença não-humana.

Então, a paisagem, esse terceiro sexo, não cessa de enunciar a presença não-humana. Por essa via, a pensarmos com Espinosa, se um da paisagem constitui-se em uma modalidade do Deus sive natura, esse da paisagem (aliás, um excelente mestre em seu estabelecimento de relações com a Presença não-humana)[8] nos recordaria os murmúrios, os balbuciamentos[9] do afecto, pois tudo comunica, e também por incompreensão, e com inexpugnável beleza em um espaço onde não há poder sobre os corpos. Espaço este onde se daria o “contrato de mútua não-anulação”, conforme nos diz a ensaísta portuguesa, ao referir-se ao aparecimento de Jade:

Jade só vai aparecer, e ter voz, quando já estão delineadas algumas das figuras da comunidade que, reunidas em volta de Ana de Peñalosa, têm voz para mostrar a existência de uma “restante vida” a que advirá, a que não conhece hierarquias, a da “mútua não-anulação”. Mas, para que essa vida se estenda a todo o universo, é preciso que o vivo não-humano também tenha voz. Jade será a figura desses seres-da-diferença e a voz dessa outra linguagem. E fará o seu caminho, paralelo ao de Ana de Peñalosa, conduzindo, levando o humano pela trela, até outro reino, traduzindo-o para que aquele possa ter um outro ponto de vista; e aí, Jade será também testemunha de um contrato de mútua não-anulação.[10]

Assim, remarquemos a importância da maestria de Jade, a qual, penso, pode nos guiar, a arriscar a forma-humana, sem contudo modificá-la, mas nesse risco mesmo dissolver a hierarquia – palavra cuja etimologia me leva a suscitar que na proximidade desse risco passaríamos para os estados de fora-do-deus, pelo menos fora daquele demasiado humano. Nessa passagem, Jade nos recordaria que ler é ser chamado a um combate, a combater pelo espaço edénico, no sentido de não se ler apenas pelo foco exclusivo da liberdade de consciência, liberdade concernente apenas ao humano e que poderia guardar resquícios de um livre-arbítrio culposo[11], à luz irreversível das alternativas entre o bem e o mal.[12]

Assim, Jade, condutor do dom poético, nos guiaria, a partir da trela, pela decisão que despe o nome de sua inicial, à luz reversível do mútuo, dir-se-ia à luz do luar libidinal: “eus”. E, então, talvez nos encaminhássemos, a acompanhar aquele que se envolve em uma alegria redundante e saúda três vezes a mesma árvore, por um  espaço edénico fora da ciência do bem e do mal, pois o poema, cuja primeira matéria é a clorofila, nos escreveria que não há, de fato, maneira mais alta de dar a vida. E talvez aí, também nós nos encontrássemos no novo.

Não há maneira mais alta de dar a vida, escreve o poema, en- quanto atravessamos o pinhal ─ os gatos, a medo, e Jade en- volto na sua alegria redundante;

<<as árvores falam através dos ângulos que criam>>, nos dize- mos, uns para ganhar coragem, Jade por ser incapaz de não   saudar três vezes a mesma árvore,

e eu

porque medito no novo mundo em que penetro:

o luar libidinal.[13]

 

Referências

bibliográficas

BARRENTO, João (Org.). O que é uma figura? Diálogos sobre a Obra de Maria Gabriela Llansol na Casa da Saudação. Lisboa: Mariposa Azul, [s/d].

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 2: o ensaio de música. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. O Senhor de Herbais. Lisboa: Relógio d’Água, 2002.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

MARTINS, André. (Org.). O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. O Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o martelo. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2009.

PESSOA, Fernando. O eu profundo e os outros eus. Seleção de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

cinematográficas

VARDA, Agnès. Les glaneurs et la glaneuse – 2000, cor, 35mm, 122 min.

iconográficas

MILLET, Jean-François. Des Glaneuses, 1857, óleo sobre tela, 83.5 x 110 cm, Museu de Orsay, Paris.

[1] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 179.

[2] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 180.

[3] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 15-16.

[4] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 18.

[5] LLANSOL. O Senhor de Herbais, p. 37.

[6] BARRENTO. O que é uma figura?, p. 93-94.

[7] LLANSOL. Lisboaleipzig 2 – o ensaio de música, s/p.

[8] LLANSOL. O encontro inesperado do diverso, p. 142.

[9] Nessa tônica dos balbuciamentos, recordo o seguinte trecho do discurso “Encontro-me no novo”, proferido na Casa de Mateus, durante a atribuição do Prémio D. Dinis de 1985 a Um Falcão no Punho: “Há uma história silenciosa dos intensos que, porque necessitados de misericórdia, não impuseram aos seus congeneres as cadeias da explicação, nem miragens para o desejo. Gostaria que sobrevivesse a afirmação que nós somos epifanias do mistério, e mistério que nos nossos balbuciamentos se desenrola.” LLANSOL. Lisboaleipzig 1, p. 85.

[10] BARRENTO. O que é uma figura?, p. 94.

[11] No sentido das relações entre livre-arbítrio e culpa, podemos ler no seguinte fragmento nietzscheano que: “Em todo lugar onde se procura responsabilidades, costuma ser o instinto de querer punir e julgar que está a procura delas. O devir foi despido de sua inocência quando se busca explicar pela vontade, pelas intenções ou por atos de responsabilidade alguma maneira de ser: a doutrina da vontade foi inventada essencialmente com a finalidade de punir, ou seja, de querer encontrar culpados.” NIETZSCHE. O crepúsculo dos ídolos, p. 57.

[12] Ainda com relação ao livre-arbítrio, reenvio ao ensaio “Da impotência à potência ou da imagem do livre-arbítrio à ideia da liberdade”, onde Marilena Chauí nos diz que “Porque a liberdade é a identidade de si consigo, a Ética pode demonstrar que o conatus  (ou o esforço de autoperseveração no ser) é o único fundamento da virtude, uma vez que esta não é senão a força do corpo e da mente para afirmar-se como causa adequada de suas ações (ou causa eficiente total de seus próprios efeitos), isto é, a liberdade é a força interna para ser plenamente uma potência de agir que encontra em si mesma a causa total de suas ações. É essa ideia da liberdade que permite a Spinoza fazer uma demonstração espantosa, a saber, que se nascêssemos livres isso não significaria que estaríamos inteiramente imersos no bem e banhados pelo conhecimento dele, e sim que não teríamos como formar qualquer conceito de bem e mal, pois não teríamos nenhuma experiência de uma distância entre nós e nós mesmos e estaríamos além do bem e do mal. Eis por que Spinoza pode realizar a crítica do mito da perfeição do primeiro homem, que teria sido perdida em decorrência da liberdade, isto é, a crítica do pecado original como um ato de liberdade: justamente por acreditar na existência do bem e do mal como realidades externas decretadas pelo livre-arbítrio de Deus, Adão não era livre.” CHAUI. Da impotência à potência ou da imagem do livre-arbítrio à ideia da liberdade.  In: MARTINS (Org.). O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche, p. 63.

[13] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 178.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s