Companheiros Filosóficos

Continuamos hoje a postagem de fragmentos da dissertação de mestrado em Teoria da Literatura de Carlos Batista, intitulada “A boa nova anunciada à natureza: o ‘drama-poesia’ em três discursos de Maria Gabriela Llansol”.

Agnès de ci de là Varda

Agnès de ci de là Varda – minissérie para a tv francesa.

Segundo passo – “um eu é pouco para o que está em causa”

Nesse passo, em que um eu é pouco, remarcaremos o gesto que inverte o nome de Pessoa. Tal inversão, penso, não afetaria apenas ao próprio, ou ao nome próprio: o particular Pessoa, mas dirige-se também ao universal: a qualquer pessoa que possua um nome e seja por ele possuída, e, também, a qualquer pessoa que possua obra ou seja por ela possuída. Assim, Llansol opera concretamente, através da escrita à luz do luar libinal, o arriscar a identidade, colocando em obra o risco da forma-humana, em letra, por força de metamorfose. Tal gesto da ordem da interveniência, do mútuo, põe em abertura caminhos de leitura. Assim, há um chamado, pela via da compaciência, à leitura enquanto drama: um drama-poético, operado a partir da letra.

Nesse sentido de um drama fora do gênero dramático, observemos um fragmento do ensaio intitulado “Llansóis de areia: uma leitura de Onde vais, drama-poesia?, de Maria Gabriela Llansol”, onde Maria Esther Maciel, após citar o excerto em que Fernando Pessoa se refere à variedade de poetas contidos em um único poeta dramático e ao transporte, não pelo viés da forma, da poesia lírica à dramática[1], nos dirá do desdobramento do projeto do drama-em-gente pessoano na textualidade de Llansol:

Como se vê, o dramático, nesse caso, furta-se obviamente à condição de “gênero” literário para se tornar um exercício complexo de “outridade”, a que o drama-poesia llansoliano vai conferir novos matizes, uma vez que, em Onde vais, drama-poesia?, o processo de despersonalização acontece no processo de entrada da própria autora no que chama de campo figural. Convertida não em personagem de ficção mas em um delineamento (ou uma sensação) sem duração biográfica, ela passa a integrar a própria comunidade dos poetas  que, como vimos, ela desdiviniza em eus de sua voz e de sua escrita. À luz reversa de Pessoa, compõe um drama sem gênero, no qual a cena viva instaurada na arena da escrita revela-se como uma cena fulgor.[2]

Maria Esther Maciel nos ilumina, à luz reversa de Pessoa, o drama-poesia enquanto despersonalização, exercício complexo que abre caminho a outro real. E, recordemos que o real surge a Llansol como cenas, as quais, no texto, se dão em encadeamento fulgurante. Atentemos, então, para o fato de que a autora, ao desdivinizar os poetas em “eus”, acena para o pensamento de que “um eu é pouco para o que está em causa”. E o que está em causa? Aqui, talvez se tratasse de uma causa amante, arriscar a pessoa humana, ou os Pessoas humanos, em um drama sem forma-humana, à luz do eterno retorno do mútuo, à luz da boa nova anunciada a toda a natureza, dir-se-ia uma luz preferida: a do luar libidinal: a luz do afecto[3]: a “da cena viva instaurada na arena da escrita”, aquela que nos revelam as cenas fulgor.

Por esse caminho, poderíamos, além disso, cogitar que “um eu” talvez resguardasse a má-consciência do livre-arbítrio, ao passo que quando “um eu é pouco”, para além do livre-arbítrio, talvez encontrássemos a graça, o dom: “um poema sem eu”[4]. Nesse sentido da graça, observemos, à regra, a retribuição do dom:

a fecundidade do dom é a única retribuição do dom,

parece-me, antes de mais, que a regra deve repousar sobre si mesma, quer dizer,

quer dizer que ela deve poder permanecer a dormir,

e ser levada como um sonho, e só então Frederico N. recebeu a carta, desceu do quadro em que surge crucificado ao livro, pôs o pé em terra e,[5]

Assim, a regra não repousa sobre “um eu”, mas sobre si mesma; o que quererá dizer: “poder permanecer a dormir” e “ser levada como um sonho”. Entretanto, se um sonho é também aquele de que temos a linguagem, há de ser a regra levada como travessia? Pois, “o que é uma travessia senão o sonho de que temos a linguagem?”[6] Travessia, perscrutemos, que se dá fora da jurisdição temporal, uma vez que “Toda idade desaparece, quando se escreve ao vivo”.[7] Face ao tempo desmedido, restaria o encontro inesperado do diverso, uma “continuidade de problemática” e “permanência do vórtice vibratório”[8] na linhagem onde se inscreve o texto, caminho aberto do  sensacionismo[9] à sensualética[10].

Dessa forma, o drama-poesia nos convidaria a essa travessia, o sonho de que temos a linguagem, que advém não através da passagem das horas, mas pela passagem dos “graus de leveza”, em que se ouve “uma grinalda de sons activos”[11]:

Na leveza é mais difícil sentir. No denso, a liberdade é rara e muito lenta. Não há outra definição para a caligrafia. Insensivelmente, e sem dar por isso, resvalando, eu própria comecei a aumentar o tamanho da minha caligrafia atrás da qual se agitam melros e pardais.[12]

Na finalidade dos instrumentos dessa travessia, talvez pudéssemos ler um drama em que “tudo participa nas diversas partes”[13]. Nesse sentido de des-possessão, um eu “sem duração biográfica”, — aquele que passa, sem fixação ou ficção, por um “processo de despersonalização”, e, que, nessa passagem mesma, “passa a integrar a comunidade dos poetas”, comunidade dos absolutamente sós —, esse “um eu” não se colocaria mais em foco do que a paisagem — dir-se-ia que está em simbiose com esse sexo, pois por trás da mão que o escreve “se agitam melros e pardais”, por essa abertura de caminho, o texto “permite dar voz, sem dispersar a voz ou a tornar uma”[14]. Dessa forma, falar-nos-ia, de fato, das nuvens: “o que não se ouve, não houve.”[15] Pois isto parece bem certo: o que se ouve, há.

Referências

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Na Casa de Julho e Agosto. Lisboa: Afrontamento, 1984.

LLANSOL, Maria Gabriela. O começo de um livro é precioso: Assírio & Alvim, 2003.

LLANSOL, Maria Gabriela. O Senhor de Herbais. Lisboa: Relógio d’Água, 2002.

LLANSOL, Maria Gabriela. O sonho de que temos a linguagem. Colóquio/Letras. Lisboa, n. 143/144, p.7-18, janeiro-junho, 1997.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. Parasceve. Lisboa: Relógio d’Água, 2001.

MACIEL, Maria Esther. A memória das coisas. Ensaios de literatura cinema e artes plásticas. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.

MACIEL, Maria Esther. Cena viva: poesia e teatro em Fernando Pessoa. Boletim do CESP. Belo Horizonte: FALE/UFMG, v. 18, n. 22 – jan./jun. 1998.

VARDA, Agnès. Agnès de ci de là Varda – minissérie para a tv francesa, 2011, cor, 16/9 Dolby Digital, 225 min.

[1] No referido excerto, Pessoa nos diz que: “Dê-se o passo final, e teremos um poeta que seja vários poetas, um poeta dramático escrevendo em poesia lírica. Cada grupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornará uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos (…) E assim se terá levado a poesia lírica – ou qualquer forma literária análoga em sua substância à poesia lírica – até à poesia dramática, sem, todavia, lhe dar a forma do drama, nem explícita nem implicitamente.” PESSOA. Obra em prosa, p. 87.

[2] MACIEL. A memória das coisas, p. 137.

[3] LLANSOL. O sonho de que temos da linguagem, p. 12.

[4] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 14.

[5] LLANSOL. Perílogo de O Livro das Comunidades In: LLANSOL. O Senhor de Herbais, p. 264, 265.

[6] LLANSOL. O sonho de que temos da linguagem, p. 12.

[7] LLANSOL. O começo de um livro é precioso, p. 343.

[8] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 158.

[9] Recordo a “continuidade de problemática” da linhagem do texto llansoliano, observando, com Maria Esther Maciel, que: “Quando Fernando Pessoa cria o Sensacionismo, corrente que atribui ao poeta a tarefa de captar a realidade através de sensações múltiplas e simultâneas, passando-as pelo filtro do entendimento e da palavra, ele busca em outras artes, como a pintura cubista, o teatro e a música, subsídios para sua teoria. O interseccionismo, uma das vertentes do Sensacionismo, pressupõe a espacialização do poema, compreendido enquanto um topos móvel de entrecruzamento e sobreposição reversíveis de planos, linguagens, imagens, realidades, como se pode ver não apenas no poema Chuva Oblíqua, onde o teatro aparece explicitamente como tema especial da sexta parte, mas também na própria constituição do conjunto da obra pessoana.” MACIEL. Cena viva: poesia e teatro em Fernando Pessoa, p. 203.

[10] LLANSOL. Parasceve. Puzzles e ironias p. 81.

[11] LLANSOL. Parasceve, p. 51.

[12] LLANSOL. Parasceve, p. 51.

[13] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 44.

[14] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 163.

[15] LLANSOL. Nuvens, p. 113.

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