Falando com as paredes

“Modos de ser”, Leonora Weissmann

Hoje, publicamos um fragmento da tese de João Rocha, intitulada A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, defendida recentemente no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG.

LISBOA, 16 DE OUTUBRO DE 2013
São cinco e vinte da manhã. Levanto-me, tão cedo, impelido pelo desejo de escrever. Não sei bem o quê. Nunca sei.
Levantei, lembrando que ontem à tarde fui ao Jardim do Príncipe Real para ler. Levei comigo A inconstância da alma selvagem, um estojo com canetas, este caderno, minha carteira e meu chaveiro. Enquanto lia, ouvia vozes de pessoas que me chegavam apagadas. Elas falavam em diversas línguas. Havia também muitos cães. Sempre tive medo de cães, mas dessa vez o medo manteve-se distante. Muitas crianças brincavam ao redor, mas ainda podia ficar no silêncio que a leitura daquele livro provocava. Sim, porque há livros que causam silêncios.
Lia sobre a relação com o “outro” em comunidades indígenas brasileiras. Para eles, o outro não era um inimigo, mas um destino. A beleza dessa constatação é pungente. Essa formulação de Viveiros de Castro abre-me caminhos para pensar na metamorfose que move o mundo como eu o vejo.
Sempre pensei que o mundo se faz de encontros. Ele existe e não existe a todo momento. Atualiza-se, à medida que vamos encontrando uns com os outros. Ontem, no Jardim do Príncipe Real, ele já era outro: não havia ali meu medo dos cães. Isso não quer dizer que meu medo tenha acabado para sempre, pois o mais surpreendente no mundo das metamorfoses, no qual o outro é um destino, é que tudo pode aparecer e desaparecer ________ a todo momento.
No Jardim do Príncipe Real, naquele momento, tudo mudava. O mundo caminhava na sua infinita mutação. Naquele instante, onde já não havia mais o medo dos cães, percebi que a leitura da Inconstância da alma selvagem mudava o mundo. Pelo menos aquele a passar na minha frente. Ninguém ali – as pessoas, os animais, as plantas – sabia o que eu estava lendo, exceto eu: eu sabia o que lia. E, ao ler que o outro, para os índios, era um destino, tudo começou a girar.
Tudo girava e nesse movimento via, frente a meus olhos, ao pé de uma grande árvore, o encontro de Maria Gabriela Llansol com os índios. E eu, sentado em uma mesa, entregue a este sentido: a visão. Podia ver Gabriela, com seu olhar atento, a catar letras no chão. Podia vê-la acariciando o rosto pintado de um homem que não falava sua língua. Os índios pediam que ela lhes ensinasse a ler em sua língua tão difícil de apreender, pois era, a todo instante, outra. Ela lhes dizia: “Estamos todos a aprender a ler. Sempre.”
Via tudo isso ali, no Jardim do Príncipe Real, e a melancolia de estar sozinho dava uma trégua, pois percebia que somente a solidão pode abrir uma brecha para aquilo que está à espreita encontrar caminho. E o que espreitava, ali, era a floresta.
Tive vontade de chegar mais perto de Gabriela e dos índios, mas meu corpo sustentava a leitura e ela, a leitura, era o que fazia com que o tempo e o espaço se dobrassem, a fim de permitir aquele encontro que só eu presenciava.
Penso ter ouvido Gabriela dizer, sem nenhum constrangimento, que viveria com eles, mas não como eles, pois não poderia comer carne humana e muito menos viver calcada na vingança; seu corpo não suportaria essas frontalidades, embora visse, em tudo isso, a beleza que Viveiros de Castro marca: na vingança e no canibalismo têm-se a sustentação de uma cultura não fundamentada na identidade, mas no outro, nessa alteridade radical, nesse destino que traz, no seu cerne, a perdição. Gabriela fascinava-se com tudo isso, mas o que ela queria mesmo era ensinar a ler aqueles que estivessem abertos para essa prática. Aprender também, pois aquele mundo era-lhe completamente novo.
Enquanto lia A inconstância da alma selvagem e via o encontro de Gabriela com os índios, o Jardim do Príncipe Real ampliava suas dimensões. De repente, ele era uma floresta e eu a vagar por ela sem rumo, mas com o livro de Viveiros de Castro nas mãos. Ao longe, avisto Gabriela, nua, com o corpo pintado, brincando com alguns animais. Aproximei-me dela, que me interpelou:
– Pensei que não vinhas ter comigo.
– O que faz aqui?
– Estou a aprender a ler com os peixes desse rio que acabo de conhecer.
– Quem lhes ensinou?
– O mesmo que ensinou a ti e a mim: o texto.
– E por que está nua?
– Sempre estive. Nunca percebeste?
Gabriela então me deu um beijo e desapareceu nas águas do rio.
Fechei o caderno, o livro, paguei a água e voltei para casa, pensando nesse encontro com Gabriela. Pensava, enquanto caminhava, que escrever e ler são maneiras de sustentar uma certa nudez.

Ontem, no Jardim do Príncipe Real, na floresta, pude perceber tudo isso com Viveiros de Castro, os índios e Gabriela. Percebi também que a leitura não nos abre para o mundo. Ela abre o mundo.

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2 respostas para Falando com as paredes

  1. Maria José Vargas Boaventura! disse:

    Preciosos encontros do texto: com a imagem, com os textos dentro do texto, com o sonho, com o mundo sempre aberto pela leitura. Muito bem, João Rocha!

  2. João Rocha disse:

    Obrigado, Marijô!

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