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 Cléo de 5 à 7  - Agnès Varda

Cléo de 5 à 7 – Agnès Varda

Terminamos hoje a postagem de fragmentos da dissertação de mestrado em Teoria da Literatura de Carlos Batista, intitulada “A boa nova anunciada à natureza: o ‘drama-poesia’ em três discursos de Maria Gabriela Llansol”.

Terceiro passo – para compor, com rigor, um ramo lilás

“Para compor, com rigor, um ramo lilás”, seria necessário compreender que “Compreender um texto é como compreender um cão, uma previsão do tempo, ou seja, é aceitar que não se fala, que não se compreende, excepto pela companhia”[1]. Para essa composição, então, levaríamos rigorosamente em consideração que não se trata de uma “relação de captação, dispositivo gestual e cénico de submissão de todas as vozes a uma única voz, ou por serem originárias de uma única, ou a esta deverem regressar, para nela se fundirem.”[2] Esse ramo a compor, ao contrário, se daria através de “um acontecer imponderável sem destinatário preciso, despido de qualquer intenção de atrair: pura afirmação a criar movimento.”[3] Assim, vislumbraríamos que não é um movimento em busca da verdade, embasado na “temporalidade da história”[4], mas sim um movimento de busca de verdade[5], na temporalidade dos afectos, a perscrutar o há, através dos graus de leveza, pela densidade da caligrafia, densidade da restante vida. Um caminho pela “forma”, caminho aberto às comunidades:

“nem todos tinham texto. O texto não era absolutamente necessário. Comunidades havia que tinham apenas o que sentiam, sem saber o que experimentavam. Tal acontecia, sobretudo, com as comunidades em que predominavam plantas ou animais ou estrelas. Tomavam por livro o seu mapa envolvente, sem que soubéssemos se nalgum deles estaríamos incluídos. Tínhamos apenas uma informação essencial. Não éramos um ermo. No pomar, por exemplo, havia-se formado um lago onde nadava o peixe da impossibilidade. Era-nos, pois, impossível repousar sobre a verdade. O nosso olhar saía do livro e mergulhava nas suas águas levemente agitadas. Nelas víamos espelhado o lugar em que sempre pensávamos quando sobrevinham as imagens de todos os lugares por onde havíamos passado. E todas elas nos diziam <<vós sois os habitantes natos deste mundo>>”.[6]

Caminhemos na direção dessa imagem, diria, imagem de imanência, em que Maria Gabriela Llansol veria que “há uma <<presença insondável>> na nossa vida.”[7] Caminhemos na dinâmica, ou sentido, da “mutação das grandes narrativas”[8]. Pois as grandes narrativas, penso, apoiar-se-iam na sedução de um pensamento judicativo, evocativo de um juízo final, diga-se, demasiado humano. Dessa forma, vejamos a sedução em sua “apetência de poder”, tal qual Llansol no-la demonstra ao responder a uma pergunta a respeito da “problemática da civilização”:

“E, no entanto, se há coisa que mais define o mundo, muito mais do que a apetência pelo poder, é a necessidade de afecto. Embora, para mim, haja uma forte correlação entre as duas ordens de factos. Seja como for, a televisão que se vê entendeu isso e o que se ouve, onde quer que se vá, confirma isso mesmo. A conversa é da ordem do lamento, deseja-se uma espantosa deslocação do bem-estar dos corpos, que, apesar de tudo <<indicar>> que é impossível, está a provocar rupturas dos pontos de fixação do poder. Por outro lado, este continua, inertemente, a impelir os corpos a manifestarem-se fora do mútuo. Não é só lá longe daqui que se dá o embate entre a crença e a razão. Também aqui. As vidas continuam calendarizadas como desterros, como verdadeiros fragmentos de inferno. A maior parte resiste a sair da dor que sente, porque ou nunca houve tecido, ou o tecido se rompeu. Vês, é isto a sedução o corpo não se coloca face à luz de que sente a falta, mas na melhor postura perante os holofotes. O romance respondeu, retratando a tudo isto”.[9]

Observemos que à sedução parece ser propiciatória a ausência ou o rompimento do tecido. Dessa forma, há tecido ou não o há e, se não o houver, haverá vidas “como verdadeiros fragmentos de inferno” a buscar os holofotes de alguma identificação, identidades conferidas às pessoas definhadas pela civilização, que gostam “de se lamentar e de sentir ressentimento por terem perdido a lotaria da vida.”[10]

Em meio a isso, há a outra vertente, aquela das folhas dispersas, em que “o texto, por mais ilegível ou incompreensível que o achem, convoca a presença do espaço edénico.”[11] Há tecido, e arrisco: vou chamar-lhe fio, sopro de vida, linha, confiança, crédito, dom poético. O tecido parece chamar a sermos intervenientes com o que há de vir ao nosso corpo de afectos, diria, o que há de vir na inocência do devir, a se considerar que o texto, em sua linhagem[12], acolhe o amor fati nietzscheano.[13]

O texto, então, nos convocaria a desviar o olhar no ponto-voraz da apetência de poder, de convencimento, essa sedução. Dessa forma, avancemos a cogitar que uma língua sem impostura talvez se dê a partir de uma postura corporal, dir-se-ia sem maledicência nem cegueira, postura de “um corpo integralmente feito de linguagem”[14].

Assim, para, com rigor, compor um ramo lilás, é preciso distinguir entre a sedução e o fascínio. Nesse sentido, a se ver a qual luz o drama-poesia se dá, à dos holofotes ou à dos afectos, acompanhemos Vania Andrade a observar, a partir da letra anelada dessa caligrafia de restante vida, e com O espaço literário de Maurice Blanchot, qual a luz preferida no jardim que “tem a sua própria forma de pensar o pensamento.”[15]

“O fascínio, por outro lado [ao da sedução], parece atender a um chamamento radical, traz a marca de uma sina, ou uma assinatura digital no corpo do inexorável. O fascínio des-possui. Em Blanchot, o fascínio está ligado à essência da solidão e esta à obra e ao “escrever”: espaço de desaparecimento em ato, espaço de ninguém em alguém, espaço da intimidade exterior. O pensamento exterior blanchotiano é, assim o de um olhar fascinado. “O fascínio é o olhar da solidão”. O fascínio está ligado à visão que cega, mas “a cegueira ainda é visão, visão que já não é possibilidade de ver mas impossibilidade de não ver”. Chamamento do fora na dissolução de um “eu”, num terceiro impessoal. Extasiamento. O ver pressupõe uma distância: uma separação que já é reencontro; um toque, um contato na decisão da distância; um olhar capturado pela imagem (ou por uma cena fulgor?), em que o sentido, num borrão de luz, se perdeu. O fascínio é o arrebatamento do olhar, arrebatamento tal que “faz dele um clarão neutro extraviado que não se extingue”, meio onde “o olhar se condensa em luz, onde a luz é o fulgor absoluto de um olho que não vê mas não cessa, porém de ver”. Luz do abismo: ponto-voraz. Escrever, diz Blanchot, “é dispor a linguagem sob o fascínio””.[16]

Essa disposição da linguagem parece afetar a disposição do corpo legente. Escrever, pela via do fascínio – essa des-possessão, à risca de uma regra, a do sonho (o sonho de que temos a linguagem), viria, então, ao encontro do que nos escreve Marguerite Duras:

“Escrever.

Não posso.

Ninguém pode.

É preciso dizer: não se pode.

E se escreve.

É o desconhecido que trazemos conosco;

escrever, é isto o que se alcança. Isto ou nada”.[17]

Sim, escreve-se sem poder.

Sim, escreve-se rigorosamente sem poder. Escrita da ordem da impossibilidade que há em “um espaço onde não há poder sobre os corpos”. Uma preciosa atividade-passividade prática de silêncio que não se dá à metafórica luz da compreensão judicativa, à sedutora clareza romanceada dos papéis fixos: identidades conferidas aos personagens que comem, dormem, trabalham, morrem e adensam a ilusão do mundo como um dado adquirido.

Sim, escreve-se assim: o encontro inesperado do diverso.

Sim, escreve-se. E, sem poder, à sombra da cheia de graça: Parasceve, e conclui-se do “para si” ao “para nós”.

um fulgor estético que ilumina o próximo passo

Nesse passo, observaríamos que passamos por três discursos, a acompanhar o drama-poesia: “Para que o romance não morra”, “Nuvens” e “O encontro inesperado do diverso”. E que, nessa passagem, pousamos, quiçá delicadamente, os pés nesse seio, ou território, que anuncia a boa nova à criação.

Dessa passagem por esse seio de restante vida viria a recordação da linguagem de um sonho, linguagem que, de fato, não veio em inteligibilidade ideal. Veio de uma sensação de que o sentido desse passo me falta, e que haveria caminho aberto à luz dessa falta.

Assim, atentemos a este sonho que viria na noite que iluminaria a noite de 25 de abril de 2011. Sonho em que, enquanto copiava os três discursos com os pés descalços que sintetizam o caminho, João, diria, nessa altura, são das nuvens, observou, sem levitar, que chegaremos aonde não sabemos por caminhos que não sabemos, e, também, que, por esse caminho onde vai o Drama-Poesia, anuncia-se a boa nova à natureza.

Após acordar com o sonho, teria a sensação de que, ao terminar esta dissertação, estaria começando a escrevê-la. Enquanto o texto prosseguiria a escrever inesperadamente nas folhas dispersas a boa nova anunciada à natureza: “legente, [“a cada um por sua conta, risco e alegria,”] o mundo está prometido ao Drama-Poesia.”

“o texto escreve nas folhas dispersas

<<apoptose rima com apoteose>>,

senta-se no alto da falésia e olha, com os olhos da terra, o mar

é a hora do crepúsculo,

quando sobressaem com clareza as proporções do homem e

do resto do mundo;

quantas vezes este pinhal, esta falésia, este vento

não poderão dizer <<por aqui passou um texto?>>,

criado entre elementos fortes, indomáveis e diferentes;

a árvore que escutou o drama-poesia

tornou-se mais árvore

e, movida pelas emoções humanas, caminha;

os seus passos vão de ela própria à próxima árvore, ao vento que sopra, à falésia austera e de festividades efémeras

uma maior soberania, um sentir mais complexo,

a certeza de que a evolução não será uma catástrofe

e escutamos o mistério a que teremos de dar destino ________ é noite”[18],

Referências:

ANDRADE, Vania Maria Baeta. Luz preferida: a pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Teresa de Lisieux. 2006. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006.

BAETA, Vania Maria Rodriguez. Este é o jardim que o pensamento permite – fragmentos no litoral da textualidade Llansol. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2001.

DURAS, Marguerite. Escrever. Trad. Rubens figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Ardente Texto Joshua. Lisboa: Relógio d’Água, 1998.

LLANSOL, Maria Gabriela. Carta ao legente. Belo Horizonte: Edições 2 Luas, 1998.

LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994.

LLANSOL, Maria Gabriela. Na Casa de Julho e Agosto. Lisboa: Afrontamento, 1984.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio d’Água, 2000.

LLANSOL, Maria Gabriela. O Senhor de Herbais. Lisboa: Relógio d’Água, 2002.

LLANSOL, Maria Gabriela. O sonho de que temos a linguagem. Colóquio/Letras. Lisboa, n. 143/144, p.7-18, janeiro-junho, 1997.

LLANSOL, Maria Gabriela. Parasceve. Lisboa: Relógio d’Água, 2001.

LLANSOL, Maria Gabriela. Um Falcão no Punho. 2.ed. Lisboa: Relógio d’Água, 1997.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Trad. Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2008.

VARDA, Agnès. Cléo de 5 à 7 – 1961, p&b, 35 mm, 90 min.

[1] LLANSOL. Ardente Texto Joshua, p. 74.

[2] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 161.

[3] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 162.

[4] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 163.

[5] Refiro a um fragmento de um diário llansoliano intitulado “A escrita como busca de verdade”, em que Llansol nos diz que: “Não sou portadora de uma verdade porque a verdade não se pode ser transportada mas sofro o impulso de formular perguntas à verdade que vejo como ajuste. Os seres têm um sentimento final de que há um lugar onde chegarão à sua coincidência. Para cada um, a sua. Dizer qual é, é um dado suspenso. A verdade como matéria é-nos inacessível mas todos caminhamos pela <<forma>> para esse ponto atractivo. Não há quem não caminhe.” LLANSOL. Um Falcão No Punho, p. 129-130.

[6] LLANSOL. O Senhor de Herbais, p. 322.

[7] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 166.

[8] LLANSOL. Nuvens, p. 143.

[9] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 149.

[10] LLANSOL. Parasceve, p. 17.

[11] LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 150.

[12] Nesse sentido, Llansol nos diz, a respeito da linhagem em que se inscreve o texto, que: “A esses autores que convergem chamei linhagem, ao encadeamento do que procuram chamei genealogia de problemas. Só para te dar um exemplo, um dos mais graves problemas da linhagem, onde os meus textos se inscrevem é a procura do ambo a ser formado pela liberdade de consciência e pelo dom poético. Esse ambo supõe uma forma de silêncio à sua volta, que é postura face ao mundo – porque este não pode ser nem apoiado, nem atacado. E estão soterrados os caminhos que nos permitiriam passar-lhe ao lado. Consequentemente, é pouco visível o lugar da sua alma crescendo. Se esta não for visível, dificilmente provocará fascínio, mesmo se produz frequentes formas de sedução. Sem fascínio, não há credibilidade, não há tronco perceptível que atraia os corpos para o risco da passagem. É por isso que é quase praticamente impossível falar de Deus e se esboça um sorriso, quando se ouve a palavra <<amor>>.” LLANSOL. O Espaço Edénico, p. 153.

[13] Diz-nos Nietzsche: “Desejo aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati (amor ao destino): seja assim, de agora em diante, o meu amor. Não pretendo fazer a guerra ao que é feio. Não pretendo acusar, nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de agora em diante, a minha única negação! E, em uma palavra, portanto: não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão uma pessoa que diz Sim!” NIETZSCHE. A Gaia Ciência, p. 143.

[14] LLANSOL. O sonho de que temos a linguagem, p. 7.

[15] LLANSOL. Parasceve, p. 12.

[16] BAETA. Esse é o jardim que o pensamento permite. Fragmentos no litoral da textualidade Llansol, p. 118-119.

[17] DURAS. Escrever, p. 47.

[18] LLANSOL. Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 180.

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