Falando com as paredes

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Arnaldo Antunes, “Paisagem”. Exposição “Palavra em movimento”, SP, 2015.

Hoje, publicamos um fragmento da tese de João Rocha, intitulada A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, defendida recentemente no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG.

LISBOA, 18 DE OUTUBRO DE 2013
Ainda escrevo a Partícula em sobreimpressão da minha tese. Hoje, tive a impressão de que essa partícula carrega em si o núcleo duro da questão da ética da paisagem: a relação com o outro. De alguma forma, penso, esse é também o núcleo duro do humano. Estamos sempre perdidos, quando nos deparamos com o outro e é justamente isso que nos faz seres humanos.

Nessa partícula, encontro-me sem palavras. Talvez por isso mesmo precise de tantas delas para dar algum contorno para esse vazio que não fala _____ mostra. A leitura do texto de Gabriela coloca-me em um beco sem saída: escrevo uma tese, mas o texto me leva a repensar justamente o lugar do crítico. Não dá para conceber a crítica literária, depois do contato com o texto de Llansol, como meramente um campo de análise. É preciso entrar na vibração do texto e não se distanciar dele para lê-lo sob as vistas da imparcialidade. Não posso ser imparcial diante de um texto que é vivo_____ é movimento. Não sou um crítico imparcial. Vivo na vibração do poema. Ser imparcial, como querem as regras da “boa” crítica literária, obrigar-me-ia a silenciar as múltiplas vozes do poema e, assim, decretaria sua morte. Sinto, com Hölderlin, que o homem habita o mundo poeticamente. Portanto, silenciar o poema implicaria a morte do próprio homem.

Esse distanciamento do crítico em relação ao seu “objeto de análise” sempre me pareceu um apelo à mediocridade. Há, em minha experiência, um distanciamento. Este: a mais curta distância entre dois pontos. Essa frase de Llansol transporta-me a um fragmento de O senhor de Herbais: entre a literatura e o mundo há ainda um ressalto de uma frase. E este ainda é precioso.

A distância que me coloco em relação ao poema é a distância de um “ainda”: essa palavra litoral. Distância curta para não me abismar no poço sem fundo de um poema. Nesse “ainda”, salta a vida. Minha vida.

Vejo nesta tese que não analiso a obra de Maria Gabriela Llansol. Eu vivo com ela. A seu lado. E, se eu ainda assim me coloco como crítico, é porque acredito em uma “crítica” que não se encontra na longa distância imposta por uma “análise” do texto. Tomando o caminho inverso, a crítica, como a vejo agora, deve dar conta deste apelo que leio em Barthes: como viver junto? Eu, crítico meio torto, penso: como viver junto com o Outro?

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