Companheiros Filosóficos

Começamos, hoje, a publicar a conclusão, intitulada “Notas sobre o fim”, da tese A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, de João Rocha.

Tacita Dean

Tacita Dean

O fim sempre está a menos de um palmo de distância. Sempre ali, nos fitando, olho no olho, invisível. Para que se mostre, mesmo que parcialmente, é preciso narrá-lo, contá-lo. Fugidio como as notas de uma canção, ou fragmentário como anotações displicentes sobre a passagem de um dia qualquer, feitas em um caderno qualquer, ele sempre se impõe como uma espécie de presença muda. O que contar, então, do fim destes dias? Como narrar o fim, se ele sempre escapa? Como chegar a uma conclusão?

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“Concluir” é o verbo que se espera ao fim de uma tese. Palavra com a força e a truculência sonora, escrita por suas consoantes oclusivas. Verbo que pede por um fechamento, por uma solução, por um fim que tranquilize as tensões deixadas pela escrita dos dias. Porém, dentro desse verbo há outros sons, outras notas que contrastam com a dureza das consoantes. No fim do verbo “concluir”, pode-se respirar um pouco mais de ar, na leveza das vogais e vislumbrar além, além do fim – “ir”. Caminho que aponta, como uma seta, para o aberto de uma solução e, como bem disse Lacan, só pode acertar o fora, isto é, a dissolução. Pelo menos fora a dissolução o que Lacan apontara como solução para sua Escola[1], pois, sendo a psicanálise um saber em fracasso, uma escola em que as hierarquias estavam cada vez mais marcadas, só poderia mirar no fracasso do saber, no fracasso da transmissão de uma experiência estrutural da psicanálise: colocar o saber sempre em xeque. Portanto, foi preciso dissolver o que já caminhava para a solução, isto é, a formação de um grupo, de um todo.

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A literatura também caminha ao lado da dissolução, pois faz parte de sua experiência a construção de ruínas, ali onde o saber já está cristalizado e, assim, ela abre, na cultura, lugares de respiração ampla – désoeuvrement –; transmite o fracasso de uma experiência – pois em literatura só se pode fracassar[2] e nisso consiste seu saber –; e ensina que uma comunidade também pode se formar na solidão.

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Essas notas sobre o fim não podem procurar uma solução para os nós que sustentaram a escrita dos dias, que compuseram esta tese, mas seguem o caminho da dissolução, tentando construir notas leves e dissonantes sobre esta experiência fundadora de um escrito: o fim.

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O que atravessa a escrita é a presença insondável dos dias.

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Os textos que compõem esta tese são atravessados por uma ausência insondável que força, a todo momento, um movimento em direção a um radicalmente Outro. Nesse movimento reside a responsabilidade do poeta – no chão abismado por onde se cruzam as linhas de fuga do amor, da justiça, da vida, da leitura e da paisagem, que desenham uma ética litoral aqui chamada de ética da paisagem.

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Nesse litoral, em meio às raízes aéreas que já não apontam mais para uma origem, mas para a multiplicidade de um rizoma, a ética da paisagem encara de frente uma responsabilidade: hospedar o Outro.  Movimento que nos força, mais um vez, a tomar o caminho da dissolução, pois, na hospitalidade daquilo que jamais conheceremos, daquilo que excede a toda e qualquer mesura social, política e cultural, somos colocados cara a cara com o horror do fim – fim dos dias, fim do mundo, fim do sujeito. Porém, a dissolução como caminho, como método e como ética, impele-nos ao disforme, ao fim, é verdade, mas também coloca-nos, sempre, a possibilidade de um começo. Com ela, a dissolução, a hospitalidade daquilo que excede toda medida do humano, pode seguir outro caminho: desfazer as estruturas sólidas e estáticas das instituições, os territórios bem demarcados e sempre minados dos campos da ciência, para desenhar um litoral onde o saber pode ser mais plural e a partilha das singularidades não será mais um privilégio do humano, mas de toda forma do vivo.

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A crítica, nessa direção, torna-se uma experiência litoral. Nela não se desenhará mais qualquer tipo de fronteira, mas margens, pois, na costa do pensamento[3], sempre se está à beira de um abismo, face ao Outro. A responsabilidade da crítica litoral é a de deixar que toda força do vivo irrompa, permitindo que o homem saia de seu exílio para se tornar mais um “vivo no meio do vivo” e reaprender a ler e a escrever, na frontalidade do que restou em silêncio nas ruínas de Babel: a sintaxe dos animais, das plantas, das pedras, do céu, do fogo, dos mares e dos rios, dos raios, dos ventos…

[1] “Il y a un problème de l’École. Ce n’est pas une énigme. Aussi, je m’y oriente, point trop tôt. Ce problème se démontre tel, d’avoir une solution : c’est la dis – la dissolution.” LACAN. La dissolution et annexes. 1980. Também faço referência, aqui, à “Aula de encerramento do seminário Entre Espinosa e Lacan e nós”, ministrado por Shoshana Felman, em que a autora relata os motivos que levaram Lacan a romper com a Associação Internacional de Psicanálise (IPA) e sua exclusão, ou “excomunhão”, da Sociedade Francesa de Psicanálise, instituição que ajudou a criar, junto com colegas e alunos, mas da qual teve que se retirar por decisão dos próprios integrantes, devido à pressão da IPA que só a reconheceria se Lacan não pudesse atuar como analista didata, ou seja, aquele que poderia formar outros analistas. Em resposta a esse movimento, Lacan profere a palestra intitulada “L’excommunication”, publicada como o primeiro capítulo do livro Le Séminaire, livre XI: les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. FELMAN, 2007, p. 448-473. [Sessão de 6 de dezembro de 2004 do seminário de Pós-Graduação em Yale, intitulado “Arte e Atos de Justiça”, ministrado por Shoshana Felman. Transcrição de Charles Boardman e tradução para o português de Lucia Castello Branco, inédita.]

[2] Cf. PESSANHA. Como fracassar em Literatura. 2013, p. 19.

[3] Cf. “Arrière-pensée”. Blanchot. Écriture du désastre. 1980, p. 12.

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