Falando com as paredes

Béguinage em Bruges. Foto João Rocha.

Béguinage em Bruges. Foto João Rocha.

Hoje, publicamos outro fragmento da tese de João Rocha, intitulada A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, defendida recentemente no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMG.

Lisboa, 21 de outubro de 2013

Acabo de ler um pedaço da minha tese para Bela. Li o que escrevi hoje antes de ir ao cinema. Para mim também foi uma primeira leitura. Ela disse que via, ao fim do texto, uma diferença de tom, como se, de repente, ela escutasse dois textos diferentes. Ela tinha razão, pois ainda não havia tido tempo para “equilibrar” o texto. Essa palavra, “equilibrar”, não me parece apropriada, pois em um texto há diversas vozes desequilibradas. O que quero dizer é que escrever é próximo de compor uma música. Não que eu saiba o que é compor uma música, mas eu sinto. É preciso encontrar uma certa harmonia entre as palavras. Harmonia parece-me melhor que equilíbrio. É mais sonora, pelo menos.

Bela também me disse algumas ideias que teve, ao ouvir a leitura, para a encadernação da tese. Ela pensa em fazer uma pasta de couro e as partículas viriam como libretos “soltos” e costurados pela técnica criada por Spinoza. Achei a ideia maravilhosa. Sempre me encanta esse compromisso da Bela com a forma. Ele me faz avançar, pois com a forma o texto encontra um caminho.

Encontrarei, nesta semana, uma harmonia entre as palavras. Ela já está lá, mas é preciso que a veja melhor. Também começarei a partícula três: “Paisagem de uma cena fulgor”. Ela será, penso, um lugar para aqueles que fazem resistência à luz dos holofotes – que cegam – pela intermitência da luz dos vaga-lumes. Resistência à luz pela luz. Encontrar-se-ão, aí, Llansol, Antígona, Pasolini e eu a tentar estabelecer uma certa política: a política constelar, sustentada pela intermitência do brilho fraco dos vaga-lumes e pelo indecidível.

Lisboa, 23 de outubro de 2013

“É noite”. Acordei com essa frase.

Hoje, terminei a leitura de Um beijo dado mais tarde e penso que a primeira frase do dia não poderia ter sido outra, pois, ao fechar o livro, esta foi a primeira coisa em que pensei: “este livro é a noite”.

Tudo começa com um balido de uma cabra e o nascimento de uma língua. Essa língua é uma língua da noite. A narradora ainda não nasceu e, imersa na noite, conta / descreve a história de seu nascimento futuro. Nascimento com parte no céu da boca e na morte de seu irmão que não pôde nascer. A noite desse não nascimento estende-se por todo o livro. Às vezes, tinha a sensação de poder tocá-la.

As letras, uma a uma, imprimiam com tinta azul escura, do chão ao teto da casa, o escuro. No andar de cima, Infausta está a morrer. Mas a menina está sempre a nascer. Ela cresce com a noite de Maria Adélia, sua outra mãe que não pôde ter tido um filho de seu próprio ventre. Maria Adélia, a serva que, pela violência da diferença de classes, viu seu filho partir antes mesmo do nascimento. Porém, o filho-irmão mora no leito escuro e extenso da noite daquela casa. A menina também.

Nem tudo é treva. Não poderia ser. A menina, desde sempre mulher, precisa lidar com a herança deixada pelas sombras de sua família: a casa e os objetos que nela habitavam. A menina que andava a aprender uma nova língua queria encontrar um caminho que não fosse nostálgico, isto é, que não desembocasse na melancolia. Decidiu, então, retirar da noite os objetos que herdara. O que não significa eliminar a noite do cerne de cada um deles. Ela começa então a seguir o caminho da luz; o caminho ativo da luz. Começa a aprender a ler, na noite, com Ana e Myriam – figuras herdadas.

A luz do sol, do fogo, da chama de uma vela, tudo oferecia um caminho no seio da noite daquela casa; por mais fraca que fosse, servia para trazer os objetos à vida. Ao observar seu trabalho, a menina percebia a vida de cada um deles. Nesse trabalho ativo da luz e também dos olhos da menina, nascia a leitura – essa mão que nos acompanha no escuro da noite.

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