Companheiros Filosóficos

Continuamos a publicar a conclusão, intitulada “Notas sobre o fim”, da tese A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, de João Rocha.

Foto Izabela D'Urço

Foto Izabela D’Urço

A identidade, na ética da paisagem, está sempre em dissolução, abismada, pois, estando sempre em constante mutação, escreve, sem cessar: “um eu é pouco para o que está em causa.”[1]

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Abrir espaço para a avalanche de imagens que atravessa o dia, ser responsável pelos restos de tal passagem e fazer, da sujeira e do buraco das imagens, matéria de composição para a escrita dos dias, é levar a experiência e o perigo da literatura até o fim. Ou até o fim do dia, para que possa começar de novo e adensar a limpidez da manhã com as máculas indeléveis da noite.

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Com os restos da noite a manchar a claridade do dia – letras que, como gotas, caem, deixando em baixo relevo suas marcas na superfície branca do papel – os movimentos da ética da paisagem, também manchada pelas cores da noite e adensada de vivo, vão se construindo.

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A perdição é um caminho transitável, em meio a uma sentença de destruição: o fim do homem ou a sua transformação em homo sacer. Abrir a possibilidade do perder-se para uma via que ultrapassa as letras inscritas pela destruição, pois há sempre um dia por vir, há sempre o tempo para se perder ainda mais, é uma das tarefas da ética da paisagem.

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Conter a força de perdição do texto poético, nos limites das páginas de um livro, sem que elas próprias se percam e sigam, inapreensíveis e errantes, pelo sem fim das paisagens do mundo, é o trabalho incansável da “justiça da língua”, impelida por um gesto de decisão sustentado pela letra – esse ponto ínfimo, justo e preciso do infinito.

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A edição foi uma das forças que, silenciosa, sustentou o “ponto de letra” da escrita desses dias. Apostando no fragmento, nas partículas, na tentativa de escrever, com rigor, os cortes que nos levaram à ética da paisagem e, incumbidos da tarefa séria de manter a “responsabilidade da forma”, demos um tratamento ao texto que caminhou para a dissolução de toda e qualquer tentativa de totalidade, pois no fragmentário temos o cerne duro do pensamento e, portanto, um ponto cerrado de sentido. Porém, o dedo do fragmento aponta para o futuro, para o aberto, para a dissolução de toda e qualquer sedimentação.

[1] LLANSOL. Onde vais, Drama-Poesia?2000c, p. 182.

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