Falando com as paredes

Foto João Rocha

Foto João Rocha

Belo Horizonte, 10 de outubro de 2014

Li a primeira página de Os cantores de leitura, pela milésima vez. Parece que fiz uma longa viagem para entrar na obra de Llansol, sem, ao menos, ter saído dela.

***

Ouço um desejo de escrever entre o pelo dos animais.[1]

Com essa escrita que se faz por entre o pelo dos animais, abro o meu canto de leitura. Sobre o pelo dos animais, passa o canto de leitura de Maria Gabriela Llansol. Canto o toque – leve – sobre a pele de quem há muito tempo se esqueceu de sua porção animal, pois esse canto deve toar a memória de que um dia o homem foi um animal como outro qualquer. É como animal que se pode ler o que é ainda desconhecido no mundo e, assim, sustentar esse segredo.

***

Eu rebento

como um trovão dentro da mata.

E a imensidão do som

desse momento.[2]

Belo Horizonte, 12 de outubro de 2014

Mais uma vez, é noite.

Mais uma vez, um fragmento me tira o sono.

Mais uma vez, a leitura confunde-se com a insônia ____ insônia de ler.

Abro Os cantores de leitura e, logo na primeira página, deparo-me com isto:

Eu sou Gratuita.

Ouço o desejo de escrever entre os pelos dos animais. O seu miar doce, o prato de leite, as dejecções dos mais novos – as lutas.[3]

Mais uma vez, as lutas_______ a batalha para trazer os animais para junto de nós, sem que seja preciso qualquer forma de mordaça.

Mais uma vez, o desejo intenso de dividir com eles um bem precioso: a leitura; a escrita.

Mais uma vez, em meio aos pelos dos animais, a tentativa para lembrar-me de uma língua perdida ____ soterrada pela arrogância dos homens ao construírem um mundo vertical, onde, do alto, tentam se equilibrar para não se espatifarem no chão.

Mais uma vez, o medo.

Mais uma vez, a certeza de que tudo no mundo guarda um grau de parentesco.

Mais uma vez, a certeza de que tudo está ligado a tudo e sem o tudo anterior não há o tudo seguinte.

Mais uma vez, a vontade incontrolável da cópia:

[…] tenho a firme vontade de não esperar louvores do mundo. Que me esqueçam, mesmo os mais próximos, e me deixem estar sozinha______ não há texto autobiográfico. Que os humanos,

ao ler-me, não falem de mim,

pois tenho presa à borda

da minha saia, como se já fosse

um pouco mais crescido,

e começasse a gatinhar, no meio destas

mães de carne e sangue, que deram num caixote

e em cima de malas, à luz,

 

um raio de sol,

que ao levar-me à Casa da saudação

me chamou ao cântico de leitura.[4]

[1] LLANSOL. Os cantores de leitura. 2007, p. 11.

[2] GIL. Rebento. 1979.

[3] LLANSOL. Os cantores de leitura. 2007, p. 11.

[4] LLANSOL. Os cantores de leitura. 2007, p. 11.

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