Companheiros Filosóficos

Publicamos, hoje, o último fragmento da conclusão, intitulada “Notas sobre o fim”, da tese A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol, de João Rocha.

fotofio

Na direção do fragmento, o diário foi a forma que pôde sustentar a dissolução escrita pelos dias, pois sua datação, marca irrefutável dos dias, guarda um duplo movimento: a rasura indelével do passado e a potência de um porvir, dado que uma data em um diário sempre escreve o futuro.

***

O que moveu a escrita dos dias que construíram esta tese foi menos o desejo de registrar o cotidiano e mais o desejo de algo sempre por vir, pois a cada dia o que se escrevia era o futuro, a promessa de um texto sempre inapreensível. Por isso mesmo a escrita dos dias, sua restante vida, não é pautada pela frustração, mas pelo desastre, esse outro nome do desejo, que nos obriga a ir sempre além, ainda mais. Como a queda de um astro que sublinha no céu uma promessa, o desastre nos coloca a possibilidade de escrever o impossível e a certeza de que o “universo é caminho.”[1]

***

No trabalho de transposição dos dias para os limites de uma página, na cura desse excesso, os textos-paisagem encontram, mesmo que temporariamente, abrigo.

***

O diário abriga as dobras dos dias, o que deles precipitou como resto – restante vida – e nos coloca face àquilo que nos vê sem cessar: a paisagem.

***

A ética da paisagem, como um pássaro anônimo, pousa e invade, serena e firme, o pulso da literatura e, misturando-se a sua matéria vital, ensina que sua função não é criar reflexos do mundo, mas manter-se pulsante, viva, encarando o próprio fim, forçando aberturas para aquilo que fora soterrado pela voracidade do sentido: o vivo.

***

a melodia é para a árvore e folhas; a leitura, a escrita, para o rosto entre ambas; o texto, ao entrar na árvore, sai paisagem. Resta-me a dor de aprender a identificar.[2]

[1] LLANSOL. O senhor de Herbais. 2002, p. 244.

[2] LLANSOL. Amigo e amiga: curso de silêncio de 2004, p. 86.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Companheiros Filosóficos

  1. Karen disse:

    “Resta-me a dor de aprender a identificar” é muito bonito!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s