Falando com as paredes

Lucien Freud

Lucien Freud

Lisboa, 04 de setembro de 2013

Escrevo na plena posse das minhas faculdades de leitura.[1]

Este diário começa com uma frase de Llansol. As páginas anteriores estão cobertas de números. Estão distantes do poema. Tais páginas se consumiram. Fazem parte de um outro começo: a entrada de um estrangeiro no mundo das burocracias. E isso é completamente diferente do começo que marco aqui, nesta página, com a frase de Llansol. Começo, então, pleno das minhas faculdades de leituras. Não digo faculdades mentais, pois elas dizem respeito a nomenclaturas das quais gostaria de passar longe; mas não longe da loucura, esta, sim, muito próxima da leitura.

Ler é um milagre sem qualquer religião. Ler é um milagre sem qualquer aparato religioso que o sustente ou apazigue. Ler é um milagre em suspensão, errante.  E, por isso mesmo, avizinha-se da loucura, pois ler é emprestar sua ferida e sua dor ao outro[2] . Portanto, não é com minhas faculdades mentais que começo este diário. Começo pela leitura, pela loucura, pelo milagre, palavras que sempre me fascinaram, sobretudo “milagre”. Gosto das lágrimas entremeadas ao som dessa palavra. As mil lágrimas que escorrem de suas letras.

***

Quando leio, por vezes, saltam-me lágrimas, mil e uma lágrimas, milagres, dos meus olhos, mesmo que sejam lágrimas invisíveis, pois elas, como o milagre, não podem ser vistas facilmente nem tocadas com facilidade. Diante delas, do milagre, é preciso deixar o corpo livre ao toque. Ao toque leve sobre a pele. Deixar-se ser tocado por uma mão que percorre um rosto sem pressa, por uma carícia descompromissada. Deixar que uma lágrima encontre seu caminho sobre a superfície de um corpo é um passo da leitura. Não há milagre, não há lágrimas sem um corpo. E este é o milagre da leitura: não há leitura sem corpo. Mesmo que ele seja outro, partido, pelo avesso, até mesmo ausente. Sempre há um corpo-pouso para a leitura, para a loucura e para o milagre. Sempre há um corpo por onde se pode deixar correr as lágrimas, nossas mil lágrimas. Há também corpo na ausência do próprio corpo e, nesse caso, só podemos ver os vestígios do corpo que ali esteve. E isso, também, é um milagre.

Leitura, loucura, milagre – com essas palavras em ponto de lágrimas começo o avesso, do avesso, do avesso daquilo que devo chamar de “tese”.

[1] LLANSOL.  A restante vida. 2001a, p. 14.

[2] PESSANHA. O gesto repetido de Nietzsche e o tema da repetição em sua obra. 2015.

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