Falando com as paredes

Postamos aqui o texto lido por Erick Gontijo, ao falar com as paredes da Cas’a’screver, por ocasião do lançamento de seu livro Notas do Limbo, em 24 de outubro de 2015.

Fotografias de Luisa Greco.  Foto Frederico Amoz

Fotografias de Luisa Greco. Foto Frederico Amoz

O rosto negativo ou Notas do limbo

Vou tentar ser claro. Para reduzir o risco de falar à deriva demais de algo que escrevi há já algum tempo e tentar falar a partir do lugar que me parece mais viável agora, o de leitor, anotei o que tenho a dizer. Quero tentar dar uma palavra breve para apresentar o que está escrito, reproduzindo o enigma em questão, o que talvez comprometa a clareza do que tento aqui dizer, já que ser claro na busca de formular e transmitir um enigma só pode resultar em certa opacidade. Como se na noite completa uma lanterna dirigisse sua luz às coisas, e, ao invés de iluminá-las, uma matéria escura subisse pela luz, recuando lâmpada adentro, que se iria escurecendo. Espécie de lanterna-negativa. A escrita sabe mais do que quem responde por ela. Ela diz antes o que só depois se fica sabendo. E por isso pode parecer absurda. Porque todo excesso de evidência tem um quê de absurdidade.
Começo por um fragmento do livro:

Conferência

Gostaria de estar junto de vocês. Gostaria de poder falar algo para vocês ou de estar aí nesse lugar que me parece gentilmente reservado. Alguém que falasse para um grupo suspenso pelo som da conferência. Mas eu não estou aqui, embora tenha vindo. Estou chegando e não há passos audíveis. Vim apenas para falar com vocês. Só que aquele ali, assentado bem à frente neste auditório, não sou eu. Eu não estou aqui e vim porque supunham que eu teria algo a lhes dizer. Supondo-se que devo falar algo que não sabem, ainda que saibam, não sou um de vocês. E pode muito bem que o que eu diga sequer chegue a se sonorizar, mesmo que eu grite. Eu grito. Mas apenas os meus ouvidos doem e a garganta treme em falso. Talvez estejam perguntando por que algo parecido com lábios se mexe por detrás do vidro opaco que nos separa. Talvez do lado de cá haja som. Talvez haja alguém aí do outro lado. Talvez eu possa apenas levantar, porque não dariam pela ausência de quem, aqui estando, nunca esteve exatamente presente.

Esse é um dos fragmentos do livro. Escrevi isso, mas não me confundo com essa voz que aí fala. E a primeira pessoa, se é indício, é também apagamento, porque “eu” é palavra sem ninguém dentro. Pode funcionar cheia ou vazia. Tenho duas ou três coisas a dizer a respeito, de que tomo nota:

1- Comecei a escrever este livro em 2007. Em 2011 parei, sem saber se tinha acabado. Depois ajustei algo aqui e cortei algo ali. A ideia é que fosse um romance e de certo modo o é. Tem marcas do que poderia ter sido um enredo: um homem acorda na cama em um quarto, sem se lembrar de nada. Tem cicatrizes no corpo. Assim, desmemoriado, começa a tomar notas não do passado ou do presente, mas do futuro que lhe aparece como evidência. A ideia, com seu quê de absurda, não se sustentou de forma romanesca e a coisa foi se transformando em contos, esbarrando em poemas, limpando-se da aparência literária. Por falta de palavra melhor, entendi como notas, textos à margem do que teria sido, se fossem o que eu planejei. A respeito desse projeto de enredo paro por aqui para não criar sentido demais e para não falsear a coisa.

2- Quem fala no livro é diáfano, parece não ter forma fixa. Creio que por isso possa me confundir com uma ou outra voz ali, mas nunca por inteiro. Me parece melhor abordar cada texto do ponto de vista do livro. Suas notas são uma espécie de ressonância desmemoriada e indefinida das coisas refletidas num rosto-negativo. Com rosto-negativo quero dizer que esse rosto é o negativo das coisas (como o negativo nas fotografias. Esse rosto é também aquele que diz: tudo está na cara e não há nada que se possa ver). Há, portanto, coisas que se afirmam no negativo. Me parece um curto-circuito entre esse rosto e as coisas. Espécie de partido das coisas opacas. Ou desestabilização dos referentes, da qual resulta apenas um rosto-negativo.

3 – Cada uma das notas me parece um fragmento de uma máscara, um pedaço de tempo decomposto. Esses pedaços de máscaras decompostas talvez pudessem ter composto personagens. Mas, no livro, as máscaras fragmentadas não se ajustam bem ao rosto-negativo, quase inumano. Há apenas silhuetas sem nomes tragadas pelo rosto inanimado das coisas. Creio que esse livro foi escrito por heterogeneidades irremediáveis, daí ser estilhaçado e ter falhado como romance e mesmo como livro de contos. No sentido da ficção, esse não é um livro feliz. O motivo de não ter seguido a via narrativa de maneira “estável” foi esse rosto-negativo ter operado como uma espécie de detector de farsa, embargando a maior parte da ficção representativa à sua volta ou a seu respeito.

4 – Se ajunto os fragmentos buscando o rosto que às vezes penso estar ali velado, o que me aparece é algo híbrido ou petrificado, um Frankenstein ou um Golem. Desisto então do esforço de tentar unificar o que está escrito, o que só me levaria ao caminho do monstro. Me interesso, então, pelo rosto que não chegou a se formar de maneira estável entre um e outro fragmento e que parece olhar dali. Imagino que, se quisesse cristalizar esse rosto e lhe dar um nome (imagino que é assim que se fazem personagens), ele me devolveria um sorriso irônico do que não se mostra por inteiro e simultaneamente se multiplica. Refuga e está ali, esse rosto de ninguém. Rosto esfíngico que se apropria da palavra que se aproxima. A palavra que tenta dar nome a ele se torna pedra e por isso fica sem pronúncia. Ou fica opaca como o livro, a quem retorno, pois vejo que já se vai formando um sentido:

Opacidade

A gente não sabe bem o que é uma coisa. A língua, os olhos, as mãos, tudo está cheio de coisas. As coisas são sem perspectiva. Vemos algo e está bem, pensamos ser assim. Mas nunca é bem assim. Há sempre um pouco a mais ou a menos. O que não vejo nas coisas imagino. (As pessoas têm seu tanto de coisa.)

Imagina-se algo no que se pensa que vê. Mas as coisas riem de nós.

5 – Não sei se a via da opacidade é algo que se escolhe. Me parece que ela se impõe a quem escreve e cada um é responsável pela opacidade que lhe concerne. Explico-me: para mim, há um limbo de onde as palavras brotam. Lugar do esquecimento, extremidade sem alcance, depósito de coisas inúteis. Espécie de nascente de palavras que se dizem por sua própria iniciativa, em nome do rosto-negativo. É o limbo que escreve as notas, são notas do limbo. Se há autor, ele está lá. É de lá que brota sua verdade, a minha, digo, “a voz úmida que brota da carne”.

6 – Se há opacidade, a ficção não ganha lastro, fica em alguma medida por se fazer. Sobram uma ou outra imagem, funcionando como captadores-emissores de forças, que circulam no escrito. Forças condensam-se e dispersam-se de imagem em imagem escritas. Elas (as imagens) ora fibrilam, ora pulsam. Há uma disposição rítmica das imagens. E por baixo, há uma só lei: a da metamorfose. A metamorfose das coisas por debaixo da percepção e dos nomes.

7 – Procurar uma língua apta a dizer as coisas de modo preciso não é simples. Entra-se numa espécie de pulsação rítmica do verbo, uma afinação inesperada entre palavra e batimento cardíaco, a frase acontece. O acontecimento frasal não se confunde com a palavra habituada ao diálogo. Têm densidades distintas, são heterogêneas entre si. A frase que acontece surpreende a quem escreve por parecer ditada e não fazer concessões. Acontece no ritmo, e é aí que uma imagem se aloja e ganha peso. Algumas vezes têm peso suficiente para ter os pés no mundo. Outras, são leves, suspendem-se e ficam à espera de um sentido. Frases que acontecem têm força. Algumas comovem, isto é, movem quem escreve ou lê junto de seu ritmo.

8 – No livro, me parece acontecer um duplo movimento, tendendo para antípodas.
Um é o movimento da voragem. (Penso nos redemoinhos de água que se formam no mar ou no rio, cujo giro arrasta as coisas para o fundo. Esse é um dos sentidos para a palavra voragem, no dicionário.)

Voragem

1

Objetos decompostos em átomos estéreis, sim, há um pequeno holocausto em tudo o que vive.

2

Um susto antes da ideia, mal aberta a boca, o dito cai tal qual cascalho. Mas repare – carrega ainda uma célula viva. O que para ela converge refuga. É quando cresce a solidão. É quando proliferam cacos e ecos de espelho.
3

Aqueles que perderam algo. Não um bem que tivessem e lhes escapasse: a mão vazia que vaza entre os dedos. Sombra do que restou. Sobra. Em seu grau máximo.

Outro é o movimento da deriva ou de pensamento em aberto, inconclusivo:
O tédio das sereias

O navegante desatento, por incompetência, está a salvo das sereias. Quando avista a ilha em que esperam, tem pouca sorte: ela se distancia a cada metro avançado tortuosamente pelo barco. As sereias também vivem à deriva. À distância, mal se ouve seu canto. Com o tédio da demora, o navegante vai aos poucos perdendo o interesse. As sereias, impacientes, comem-se umas às outras. À última engole-a a própria maré. O navegante sem sorte segue vivo. Quando distraído, chama a atenção das pessoas ao redor seu estranho assobio que se dispersa com o vento.
Se, nos textos de Homero e de Kafka, a ilha das sereias está fixa e o horror, digamos assim, tem endereço (seja o indício do horror marcado pelo canto ou pelo silêncio das sereias), cogitei uma impossível ilha, que estivesse à deriva. Nessa lógica, as sereias também se submetem a uma força incontrolável e incontornável – as correntes marítimas –, e o navegante desatento, aproximando-se sem que se elimine o distanciamento entre ele e as sereias, pode entrar em metamorfose, assumir ele próprio um canto sutil, um estranho assobio. A deriva como barragem contra a voragem. E, bem, a deriva está articulada, a certa distância, da voragem. Porque navegantes e sereias, mal o sabem, gravitam ao redor do redemoinho. Não estamos tão distantes do poema.

Erick G. Costa

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