Falando com as paredes

 

FELICIDADE CLANDESTINA

Felicidade Clandestina — Foto de David Assunção

 

 

                                  Diante dos olhos, o ainda por nascer

                                       (nos braços, o azul imperfeito)

                                                                                                      por Lucia Castello Branco

Se ela não se tivesse ido tão cedo deste mundo, talvez pudéssemos celebrar, como o fazíamos a cada ano, a publicação de mais um de seus livros. Mas, desde que ela se foi, resta-nos sonhar, teimosamente e a cada vez, em repetir a experiência, recebendo, clandestinamente, através de amigos que por ali passam, as “novas publicações” de Maria Gabriela Llansol.

Já o supúnhamos: alguma “nova estratégia” seria adotada, quando atingíssemos, afinal, o ano de 1992 e os seguintes. O que fazer com aqueles textos que, assim como “O sonho de que temos a linguagem”, citassem alguns nomes, como verdadeiros companheiros de escrita e de vida, que os “novos editores” pretenderiam riscar da história? Sabemos, graças à publicação da Revista Colóquio-Letras, que alguns excertos teriam feito parte do livro Inquérito às quatro confidências, não fosse o método llansoliano de edição de seus livros, que seguia, sempre, uma linha de fulgor, mesmo que, aparentemente, não tivesse lógica. Assim, esses excertos que, segundo Llansol, tirariam “leveza e acirramento” ao Inquérito, acabaram por fazer parte do que de mais precioso constitui um livro: seu invisível, o “muito que nele não deveu caber”, segundo nosso mestre Guimarães Rosa.

Mas o que dizer da escolha, sintomaticamente alterada, no meio do caminho – já que, até certa data, o critério para a edição dos cadernos seria tão somente o da cronologia –, que agora seguiria a via temática? Só podemos dizer, por enquanto, que o que um tema recorta prioriza o que, para quem recorta, está no centro, enquanto o que resta fora do centro permanece impublicado, impublicável, destinado ao esquecimento ou, quem sabe, ao fogo, aquele mesmo que alimenta a fogueira das vaidades em que se misturam os editores e seus temas, já que, “em respeito a Llansol”, declara-se, publicamente, que os temas não são grandes, mas percorrrem “apenas”, e “llansolianamente”, a via do menor.

Se assim fosse, se isso fosse verdade, por que Maria Gabriela Llansol, que, diferentemente de Pessoa, teve tempo para publicar e republicar seus textos, não teria escolhido, em sua criteriosa edição dos cadernos, a via temática? Porque seu desejo sempre foi o de radicalmente se afastar, e de afastar seus legentes, dos grandes temas, criando sua própria linha de fulgor. E, sabemos, não basta fazer o azul ser acompanhado de uma certa “imperfeição” para que ele tenha perdido seu lugar no panteão dos grandes temas.

Afinal, esse recorte que, perigosamente, tenta “localizar” Pessoa em Llansol, como se Aossê já não tivesse feito, em sua metamorfose para falcão, o seu trabalho de fulgor e deslocamento, e, portanto, sua abertura para o campo do indecidível (em que nada se completa, antes se “descompleta”, como tão magnificamente Llansol propõe, com a derrocada do mito do andrógino), um desejo de completude se manifesta, secreta ou obviamente, como o atesta a insistência na repetição do verbo “completar”, no texto da organizadora da edição de O Azul Imperfeito, em sua palestra, por ocasião da “apresentação” do livro.

O que querem completar os “novos editores” de Llansol? Querem completar os fragmentos com sua reunião em temas, sim, mas isso seria inócuo, se não fosse o trabalho silencioso da impostura que então se realiza: o de apagar os nomes que ali, naqueles cadernos, se escrevem, e que foram transpostos, mais tarde – e ela, enquanto esteve entre nós, nos legou essa lição –, em nomes de fulgor.

Mas sabemos que o mesmo Derrida, que sustentou, com genialidade, sua desconstrução, teria nos legado esta outra lição: Salvo o nome. Pois, se tudo se desconstrói, há algo, no entanto, que se salva, fazendo exceção a essa regra poderosa do texto: o nome. Deslocado, sim, metamorfoseado, sim, transposto, sim, mas salvo. Pois, se Pessoa se “salvou”, pela heteronímia, de sua própria e infinita dispersão, digamos que Llansol se salvou pelo devir de seu nome.

Nós – poetas e vagabundos – que habitamos o lado debaixo do Equador, terra do sol em que tantos portugueses sem nome vieram buscar ouro e outras preciosidades –, podemos ainda dizer que somos salvos, a cada final de ano, por essas publicações que, tentando reunir num tema o disperso e o multifacetado desse texto de fulgor, nos trazem de volta, soterrado, mas milagrosamente salvo, o devir de seu nome.

Por isso, não devemos lhes dizer obrigada (já que, como a própria Llansol escreveu, em carta a Eduardo Prado Coelho, é nossa obrigação estrita combater, “a seu lado, ombro a ombro, por uma obra que nos ajuda a viver melhor e com menos impostura”), mas devemos tão somente celebrar a graça dela — aquela que se chama Maria Gabriela Llansol –, sua “graça de textualidade”, que nos permitirá, sempre, essa “felicidade clandestina”.

E, assim como a menina do conto de Clarice Lispector, antes de ler o fulgor dos cadernos, “pacificado” em sua organização temática, sentamo-nos na rede, como fazem ainda os índios, balançando-nos “com o livro aberto ao colo, sem tocá-lo, em êxtase profundíssimo”. E, numa página aberta ao acaso, podemos ler, afinal, o que resiste:

 

Acordo com o ruído do vento que bate as                                                                                         raras árvores, e que, ao soprar, adquire uma                                                                                 autonomia que me impede de vencer o ritmo                                                                                   arrastado da escrita. Sobre o dito está o não dito,                                                                           e o  por dizer. “

(Maria Gabriela Llansol, O Azul Imperfeito Livro                                                                             de Horas V, p. 146.)

 

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Uma resposta para Falando com as paredes

  1. Maria José Vargas Boaventura disse:

    Que belo fio de escrita tecendo um bordado preci(o)so, sem impostura! Segue um tapete de folhas para nele se assentarem Lucia e Gabriela a conversar, versar.

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