Sobreimpressões

       Foto do quarto de Bruno Borges, extraída de matéria publicada pelo G1 (internet)

A profusão amarga de sinais

Talvez fosse preciso pensar na escrita como uma glândula que produz secreções que, expulsas do corpo, guardam com ele estranhas relações de intimidade e de extimidade. Talvez fosse preciso pensar na escrita assim, como Maria Gabriela Llansol a vislumbrou:

Era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz das plantas e, em terceiro, a matriz de todos os seres existentes. Constituído por sinais fugazes, tinha milhares de paisagens, e uma só face, nem viva, nem imortal. Não obstante, o seu encontro com o tempo apaziguara a velocidade aterradora do tempo, esvaindo a arenosa substância da sua imagem.

E talvez fosse preciso ir ainda mais longe, pensando nesse corpo animal da escrita, corpo de uma só face e de milhares de paisagens, como o que guarda a eternidade cifrada nas letras. E esse corpo secretado — espécie de lágrima rara, milagre da pérola na banalidade da ostra –, é também um corpo segregado, separado daquilo que o produziu. Por isso, é possível dizer que o segredo da escrita é ainda menos secreto que as vias de acesso a esse segredo.

Esse mistério nos impacta, ainda hoje, quando nos encontramos com essa “matriz de todos os seres existentes” nas paredes de um quarto, dispensando a presença e mesmo a assinatura do escritor, envolvendo e de alguma forma protegendo sua desaparição. É o que nos ocorre pensar, diante do gesto psicopoético do jovem Bruno Borges, de 24 anos, cuja performance, no limite do corpo, faz coincidir o nascimento de uma criptografia, inscrita nas paredes de seu quarto e em 14 livros cuidadosamente compostos, com seu próprio desaparecimento.

Ao ver a instalação de Bruno como cenário de sua retirada, cuja única presença humana é aquela encarnada pela estátua de Giordano Bruno, a testemunhar o milagre da escrita e o devir de seu nome — a desaparição –, não há como não evocar Llansol e sua “profusão amarga de sinais”:

Sonho com o dia em que a presença que de nós ficará nos textos não será a do nosso nome próprio. Em que os signos de nossa travessia serão destroços de combate, toques de leveza     o que eu esperava ficou, ficou a chave, ficou a porta, ficou a pedra dura ao luar (…)

os homens saem da sua identidade. E o texto arrasta-nos para os lugares da linguagem onde seremos seres de fulgor, indeléveis e diáfanos, última parede iluminada de uma casa que se apagou, numa das avenidas da cidade serrana, onde reina ainda uma profusão amarga de sinais

Aos dois, aqui sobreimpressos, direi: “sou aturdida pela presença de vossa escrita, que me acompanha pelas vertentes e pelas ruas”. E as imagens permanecerão hermeticamente fechadas, até que alguém que as ame com bondade possa, um dia, enfim, abri-las à leitura.

                                                                                                             Lucia Castello Branco

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