Estético convívio

Amanhã, em estético convívio com a 69 Reunião da SBPC na UFMG, abriremos, em uma tenda branca, o “Café com Migalhas Literárias”, com as leituras de tarot de Tiago Pissolati, a partir do Livro do Dessassossego, de Bernardo Soares, o semi-heterônimo de Fernando Pessoa.

Que destino nos reservam as cartas de tão dessassossegado tarot?      Ouçamos Tiago Pissolati:

Certa vez, um jovem Fernando Pessoa olhou para o céu para encontrar nele um livro. Mergulhado nas luzes ocultas dos astros e atento à precisão das efemérides, o poeta fez-se outro: Rafael Baldaya, escritor de astrologias, para quem “o horóscopo revela, pouco mais ou menos, o que o mundo vê”.

Outro Pessoa, um certo Alberto Caeiro, outrora escrevera que “sou do tamanho do que vejo”. Ainda outro, de nome Bernardo Soares, estremeceu diante do verso e viu cair sobre si “a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer”.

Leitor do indecifrável da noite, ele buscou da noite o que o mundo vê. Porque ele é do tamanho da noite que o mundo vê, e porque tudo no mundo, tudo na noite, existe para desaguar num livro. Por isso, ler de Pessoa um outro, mais que ele-mesmo; por isso, ver o Desassossego desaguar em Livro, num outro livro.

Num outro Livro: sem lombadas, de páginas soltas, daquela misteriosamente precisa combinatória; um livro que comece e recomece a cada noite, mimetizando as curvas dos astros, escrevendo o indecifrável do luar. Um outro Livro do tamanho do que o mundo vê — desassossegado, o Tarot.

É possível que também Maria Gabriela Llansol tenha alguma vez pensado nesse livro de Bernardo Soares como um livro oracular. Pois, em 8 de agosto de 1986, ela escreveu em seu caderno:

_______ dentro do Livro do Desassossego encontro uma folha de papel de máquina, dobrada em quatro e, em cabeça da página:

Herbais, 26 de maio de 1982.

Nos dois quartos inferiores, trabalhos prévios, radículas de texto dessa época que, sendo agora raras, aumentam de intensidade:

“se comprarmos esta casa — como pensamos — é possível que nunca mais           regressemos a Portugal para aí viver;                                                                                   se eu morrer na Bélgica, não entrarei no furor do universo pela porta de           Portugal;                                                                                                                                             e o aeroplano da língua, onde subirá?                                                                                 divido-me em muitas tiras, mais ou menos estreitas;                                                   sou um vidro que reproduz várias imagens do mesmo objecto;                                 possuo muitos lóculos, ou cavidades que se movem…” 

(LLANSOL, O azul imperfeito, Livro de Horas V (Pessoa em Llansol), p. 381)

 

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