A luta cotidiana pelo fulgor

Salvador, passeata do dia 30/05. Foto de Lucia Castello Branco

 

A luta pelo fulgor se dá, todos os dias. Com as palavras, as letras, o poema.

Também em comunidade, nas ruas, na luta contra o sucateamento da cultura, da educação, do pensamento.

É uma batalha pelos bens da terra, os cinco: “O conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver” (Llansol) e contra a vontade dos príncipes e poderosos: a de que todos estão fadados à servidão.

Uma luta pelo fulgor, neste vigésimo primeiro dia, em texto de Lucia Castello Branco.

 

 

Vigésimo primeiro dia

 

 

Desde o dia 30 de maio, dia da paralisação geral no país, ela tinha se visto novamente em p & b. As cores estavam lá e o vermelho intenso brilhava como uma flama no céu. Mas, depois do vermelho intenso, que também era o da sua camisa, como a de tantos ali, haveria o sangue pisado das unhas, o indicativo e o dedo médio: os dois presos, como que por uma triste sina, na porta de um café que se dizia santo.

 

Agora lembrava de Clarice, que um dia escrevera que era mais fácil ser um santo do que uma pessoa. Pois teria sido justamente na porta do Santo Café, e numa praça que tinha o nome de Piedade, que o roubo se dera. Ali, diante dos olhares dos policiais e dos anjos, no momento em que ela se pusera a ler o manifesto à literatura, elaborado pelos discentes, não pelos docentes. E ela sabia que nesse manifesto, ao lado deles, de alguma forma, a sua voz estaria presente. Não por danação, mas por puro dom.

 

Haveria também de ouvir a sua voz em outras manifestações, em roubos sutis que se operavam assim: sob o seu nariz. E ela, ali, parada na porta da igreja, ao lado de uma amiga suave que se chamava Alba e a quem o destino agora a ligaria por uma outra via: a de ajudá-la a recolher os restos dos furtos, lavar os roubos, limpá-los de sua triste sina. Vai-las lavar alba.

 

Mais tarde, depois do trabalho kafkiano de resgatar os dados, as senhas, as frases, os aplicativos, os sonhos, a liberdade virtual, ela veria de novo o mar. “Você nunca pode sair daqui”— disse a amiga, enquanto as duas se preparavam para  comer o bolo de laranja com café e ler a prece, pensando com isso escapar aos hackers.

 

 

Ali, na prece do texto ardente, Maria Gabriela Llansol teria escrito: “Está quase tudo por saber. Quando Teresa se volta para as águas e entra nelas, sentimos que há urgência que arrisca a vida no pouco tempo que lhe resta, mas não suspeitamos sequer o que seja essa entrada _______ a junção das águas.”

 

“Sim, está quase tudo por saber”, ela pensava, enquanto preparava o corpo para as abluções que a livrariam, para sempre, do jejum do coração. Diante da mulher, o mar se abria, para que ela pudesse, como que por milagre, atravessá-lo. Abria-se provisoriamente, embora a seus olhos ele permanecesse irremediavelmente compacto.

 

Aquela que lia estava por chegar. Ela a ajudaria a reunir os pequenos fragmentos da batalha: um boletim de ocorrência, uma senha perdida, um carro para transportá-la nas emergências, a foto de um amigo. “A terna reciprocidade feminina”, lembrou, segurando sobre o peito o ardente texto, enquanto escutava, sem que tivesse escolhido, a canção de seu filho: “Mama, don’t worry”.

 

Dois dias mais tarde, ela faria a oferenda para Yemanjá. Sequer suspeitava que era esta a sua luta cotidiana pelo fulgor:  essa entrada ______ a junção das águas.

 

maio/junho de 2019

                                                           … por Lucia Castello Branco.

 

Alunas e alunos do Programa de Pós-graduação em Letras: estudos literários (Pós-lit) da UFMG pelo direito à literatura e à educação! Nos ajude a compartilhar.

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