A luta cotidiana pelo fulgor

Quarto de escrita — Foto de Natália Goulart

 

A luta cotidiana pelo fulgor. Inventar, em texto, os lastros luminosos de uma vida.

Preparar os romances, desfazer os nós, escrever: um remédio.

Um vigésimo segundo dia, neste texto de Natália Goulart.

 

 

Vigésimo segundo dia

 

 

Acontece que escrever é

“(…) uma única avenida – Os Remédios (…)”[1]

 

Sabes, por tua própria vida, a que vives hoje, que ela é muito incerta.

Se algum dia visitares o Deserto-Branco, o Salar,

aquilo é o texto.

 

E, se não sabes ainda

chegar ao deus dará com a alegria de outra espécie para animar tua fina existência e essa tarefa vem visitar nossos quartos neste século febril como um raio de coragem,

poucas chegarão até lá se, em toda tua vida, tomares de assalto o outro e se insistires demais pelo zelo de teu nome próprio.

 

Hoje,

amar a correnteza, ir rumo as procissões do Um, descer o rio Quebra-Anzol e escrever, partir com isso

 

 “como um nada trabalhando no nada”[2]

 

 prescreveu Maurice Blanchot,

que vem de visita a esta casa desde o inverno do ano passado.

E, nesta mesa, Llansol abriu a jornada, trouxe a esperança terrível e agora

um campo grande deve existir nessas noites de batalha, para que, depois, cheguem à casa onde nunca estiveste e a deixem sempre por fazer-se, sempre a preparação[3], nos ensina Roland Barthes, ao tratar do romance.

 

 L., em Sol-Quebrando,

prescreveu para aquelas nem-todas,

 

se estais de volta ao mundo, escrevei.

perseverai noite à noite num lugar e, ainda que o sol entre nessa terra,

nada importa mais.

Testemunhem tuas cabeças.

 

Este animal que visita algumas casas

(nem todas, é preciso dizer, nem-todas), traz até o fim e consigo uma onda de Nazaré. E sabes, então, que é isto:

lutar agora por uma onda de Nazaré caindo em tua morada e em tuas cabeças

e, se vais segurar esse rojão que é a festa no interior,

e, se vais aplaudir a falta de caminho das águas de teu nome e rir com

          

os buracos de contenção jorrando em teus textos,

é que essa agua não fecha mais

as saídas

 

O que queres? Senão um instante de quebrar-se?

 

Fosse o que fosse,

 “agora o sol, o solo, a solo” (…)[4]  

 

Deixa o poeta em paz!

 

… em junho de 2019,

por Natália Goulart.

 

Nossa-Senhora-dos-Remédios – Foto de Natália Goulart

 

[1] LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, p.22.

[2] BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 314.

[3] Veja-se a esse respeito em BARTHES, Roland. A preparação do romance I. São Paulo: Editora. Martins Fontes

[4 ] LLANSOL. Um falcão no Punho. p. 45.

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