A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Janaína de Paula

 

Em nossa luta cotidiana, o fulgor retorna pela (in) delicadeza de uma mulher: Marguerite Duras. Melhor dizendo, pela delicadeza de quem sabe que a dureza faz parte da escrita. É o que lemos, nas palavras de Flavia D’aves ao ler Duras, recortadas por Janaína de Paula.

 

Vigésimo quinto dia

Tivemos ontem, na Cas’a’screver, o encontro “Um poeta na cas’a”, com Flavia d’aves e sua leitura aguda de Marguerite Duras: “A indelicada subversão em M.Duras”. Partindo da leitura dos Cadernos de guerra e Olhos verdes — cadernos de cinema, Flavia abriu a manhã, dizendo que

“O título deste encontro poderia ser um contraponto com a delicadeza que subverte, encontrada em Roland Barthes, no livro A preparação do romance. Para o autor, a poesia é a prática da sutileza num mundo bárbaro. Mergulhada no contexto da Segunda Guerra Mundial e sofrendo os efeitos da barbárie nazista, Marguerite Duras precisa ir além da subversão, pela delicadeza.

Seria simples lermos essa experiência pelo contrário do que é delicado, mas não se trata de uma dicotomia. O prefixo in não é usado somente no sentido de privação ou negação, também pode ser lido como um movimento para dentro. A subversão indelicada contém a delicadeza, matéria prima na escrita da dor de uma mulher que espera o retorno do marido do campo de concentração. Ou mesmo na personagem Aurelia, aquela que pede para amar enquanto se lembra. Não sem a delicadeza, mas no além dela. É nesse fora que retorna ao íntimo que encontramos a força poética de Duras, campos distintos fazendo litoral.”

E seguimos o sábado assim: escutando trechos recortados pela leitura de Flavia, desdobrando linhas em Marguerite Duras, tocando o mistério da escrita sem elucidá-lo e ampliando seus domínios:

“Na época em que concluí o primeiro Aurelia Melbourne, Goldman foi morto. Lembro-me, numa entrevista do Le Monde, ele disse: ‘Nossa única pátria é a escrita, o verbo’. E fui confirmada naquilo que vejo: essa pátria sem terra, sem nação, é a mais sólida do mundo, a mais indestrutível”. (DURAS. Olhos verdes — cadernos de cinema, p. 146).

Se a escrita reúne, pouco a pouco, os absolutamente sós, como escreveu Maria Gabriela Llansol, podemos dizer que o sábado testemunhou essa reunião. Poetas, vagabundos, seres errantes e erráticos estiveram presentes nesse encontro, habitando o espaço de uma cas’a que deseja, todos os dias, que a geografia do mundo não seja aquela escrita pelos jogos do poder e pelas luzes dos holofotes.

E Flavia continua:

“Marguerite Duras é um desses momentos de exceção em que seres humanos tornam-se vaga-lumes sobreviventes — seres luminescentes, dançantes, erráticos, intocáveis e resistentes ao totalitarismo que nos cerca com seus grandes holofotes. Para além de um objeto capturado numa imagem, um vaga-lume é um gesto. Na obra de Duras, é um gesto de escrita, gesto de filmografar, que se desloca em direção à pequena luz”.

“para mim, a perda política é antes de mais nada a perda de si,

a perda da própria cólera, bem como da própria doçura,

a perda do próprio ódio, da capacidade de ódio,

bem como da capacidade de amar,

a perda da imprudência e da moderação,

a perda de um excesso e a perda de uma medida,

a perda da loucura, da própria ingenuidade,

a perda da coragem, bem como da covardia,

a perda do pavor que se sente diante de todas as coisas

e da confiança,

a perda do pranto, bem como a da alegria.

É isso o que eu penso.”

(DURAS. Olhos verdes — cadernos de cinema, p. 23. Texto transcrito e editado como poema por Flavia D’aves.)

 

Foto de Danilo Azevedo

 

 

Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s