A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

Foto de Claudia Itaborahy.

 

Trigésimo sétimo dia

 

“É uma carta”, ela disse, e estava escrita desde antes. Desde o tempo em que as cartas eram as únicas coisas que ela escrevia. As que conseguia, disse ainda, as que ainda não terminaram de chegar.

“Estão sempre chegando”, foi a frase que ela nos deu, “talvez, não cheguem a terminar de chegar”, completou, “isso, o que eu li”. 

Diante do mar, ela abria a carta, noutra forma.

 

Foto de Lucia Castello Branco

 

– Aqui, diante do mar, o som do mar me impede de ouvir tudo… então, ouço…

– Tudo?

– … não tudo, a carta. 

– Ela há de nos chegar, a carta?

– Sim, ao final, num livro de três mulheres.

– Seus nomes, Lucia…

– … Janaina…

– … Vania… a que lê.

 

Foto de Fernanda Telles.

 

E assim  teremos a carta que ela nos leu, ao lado de outros textos, sob um nome: Feminino de ninguém: breves ensaios de psicanálise literária. Um livro, destinado ao mundo, marcado por um selo: Cas’a edições.

“Um selo”, ela ainda leu, “um sê-lo”, ela escreveu sobre o branco. “Que esses grafos não nos assustem… depois do S, o um, vem o dois, e, entre eles, o que… mais uma tautologia…”

 

Foto de Fernanda Telles.

 

– E a metáfora?

– É possível tomar esse caminho, assim como é possível tomar outros. O texto dela…

– Ele pede, como que exige…

– Sim, ele pede outro caminho…

– Aquele…

– … em que uma mão é apenas uma mão…

 

Foto de Cláudia Itaborahy.

 

– Assim como, por vez, um corpo é só um corpo.

– E isso não é uma coisa simples. Veja, compulsão…

– … expulsão…

– … impulsão…

– … tudo sai de pulso, o que se conta, o sol, desde as altas folhas até a raiz da mão…

– … até se de leque estamos falando…

 

Foto de Fernanda Telles.

 

A leitura segue seu curso, até às margens dos mais de cem nomes do poeta. “De um lado, a proliferação; de outro, a subtração, e a pessoa que ganha um corpo, um sexo… vira poema”.

– Poema com ninguém dentro?

– Com o ninguém, no feminino, ouso…

– E depois da pessoa, do p…

– Vem o onto…

 

Foto de Lucia Castello Branco.

 

– Ponto.

Azul sobre o mar, safira em safira espelhada.

 

Continua.

 

por Jonas Samudio.

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Uma resposta para A luta cotidiana pelo fulgor: feminino de ninguém

  1. Maria Inez Figueiredo disse:

    Uma beleza de texto !
    Apesar de ter acesso apenas há alguns fragmentos, surpreendem e nos captam pela criatividade e pela poesia !
    Algo do inusitado se inscreve … o feminino surge de forma única, enigmática,
    Parabéns Vânia! por essa escrita ouvida!
    Abraço grande.

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