A luta cotidiana pelo fulgor

Foto de Lucia Castello Branco.

 

Quadragésimo sexto dia, o aniversário dela

 

Em 24 de novembro de 1931, nasceu Maria Gabriela Llansol. Hoje, 24 de novembro alguns anos mais tarde, escrevemos, com o mar de seu nome. Continuamos a escrever, nestes 88 anos, e continuaremos, por certo.

 

Pois escrever é um modo de continuar. De endereçarmos, à potência dos dias que virão, as cartas que saem de nossas mãos. 

Mãos de Gabriela que flutuam sobre as nossas. 

As mãos do texto. 

 

E esta carta, escrita por Lucia Castello Branco, em 03 de março de 2008. Outro dia, em que ela, desaparecendo, tornou em outro aparecimento: o do texto que nos alcança.

 

Foto de Raimunda Cristina Brito.

 

Querida Gabriela,

 

Em resposta à tua carta de 5 de janeiro de 2008, que só há poucos dias me chegou às mãos, em resposta à tua carta ditada, e escrita na letra de Cynthia, mas que traz abaixo a tua assinatura em letra trêmula e difícil, começo por te dizer que aqui, do outro lado do Atlântico, não são de nevoeiro os dias, mas de fortes chuvas e calor.

Mas em seguida me lembro de como era azul o céu na Serra de Sintra, naquela manhã em que estivemos em tua casa a filmar as imagens destas mãos — as tuas e as de Vina — no trabalho concentrado de revisão de Os Cantores de Leitura.

Olho para estas mãos agora — as tuas e as de Vina — e reparo no anel e na gema do anel e na chama de amor no interior de um anel. Olho para estas mãos que marcam, com firme delicadeza, o texto. E penso no teu legado mais forte: a responsabilidade da forma.

Penso que agora, neste momento em que começas a atravessar o nevoeiro, um pouco do nosso mundo do lado de cá parece ruir. Mas logo me lembro do teu texto, Gabriela, e, como Cantora de Leitura pelo texto convocada, devo assim fazer a minha prece: Não há qualquer nervosismo em tua mão, que se molda à própria forma com grande destreza. Os teus ouvidos ouvem ____________ e respiram profundamente incitando o teclado, seja o do piano, seja o do papel, a segurar a estrela que vai cair.

E então olho de novo para as tuas mãos, Gabriela, ao lado das mãos de Vina, e sobre elas pouso as minhas mãos, as mãos de Vania, as de Inês e as de Cynthia. Assim: Não há qualquer nervosismo em nossas mãos, que se moldam à própria forma com grande destreza. Os nossos ouvidos ouvem __________ e respiram profundamente incitando o teclado, seja o do piano, seja o do papel, a segurar a estrela que vai cair.

Sim, Gabriela, atravessaremos juntas a paisagem de nevoeiro e chuva e quase neve. Porque um dia atravessamos juntas o sol de teu nome, escrito hoje na curvatura da abóboda celeste. Tudo, aqui ou lá, continua a vibrar. E, em nome da cena fulgor que nos acompanha,
aqui ou ali, o teu nome vive, nela.

 

Lucia
Belo Horizonte, 3 de março de 2008.

 

A chama interior do amor. Foto de C.Rafael Pinto.

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