Cas’a’screver expandida

Foto de Claudia Itaborahy

Neste último sábado, a Cas’a’screver foi até o Ateliê de Psicanálise, em Ouro Preto, com a oficina ministrada por Janaína de Paula e Maraíza Labanca: “Rasgar num livro uma página estrategicamente aberta”. Do lado de lá, entre as nuvens densas e a chuva fina, as palavras de Llansol nos chegam como “dom de sombrear”,  em meio às palavras e imagens de Cláudia Itaborahy:

“a nuvem aconteceu com o encontro. escutamos poesias, escutamos a chuva, na alegria de poder respirar clarice, guimarães, llansol, herberto. com as janelas estrategicamente abertas, e as páginas também, passamos o dia, encontrando dicionários — o livro dos nomes — e sendo olhados por palavras, que nos liam e iam desenhando linha-texto-estrada. paisagem composta por viagens solitárias e silêncios longos, que transformaram o céu lá fora. imersos, o tempo mudou, as palavras viraram iscas, a chuva caiu até acabar. acontecemos em alegria, em composição de letras e surpresa, na cumplicidade de poder fazer juntos, em tempos como estes…

velar as janelas com um suspiro próprio                                                                           conceder às cortinas o dom de sombrear                                                                           pegar então num objecto contundente                                                                               e amaciá-lo com a cor”

 

Anúncios
Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Sobreimpressões

O Começo de um livro é precioso

Celebrando o universo em expansão e o pensamento a alargar-se, recebemos as sobreimpressões enviadas por Maria José Vargas Boaventura, colhidas no jardim de sua casa, em Tiradentes, e tornadas aqui “o jardim que o pensamento permite”.

Fotos de Maria José Vargas Boaventura

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

O encontro inesperado do diverso

Foto Camila Morais

Há algumas semanas, encerramos, na Cas’a’screver, o curso livre oferecido por Jonas Samudio, intitulado “Escrita e ressurreição”. Antes mesmo que o curso terminasse, e antes que o texto abaixo se escrevesse, deu-se mais um encontro inesperado do diverso, em torno da textualidade llansoliana. Desta vez, o encontro de Jonas Samudio com o padre José Tolentino Mendonça, amigo de Llansol e responsável por suas exéquias.

Alguns anos antes, um outro encontro dessa mesma ordem se dera, depois da morte de Maria Gabriela Llansol: através de um filme, encartado num livro, chegou às mãos de Maria Antunes, aluna de Llansol, uma fatia de seu passado. E, para nossa surpresa e alegria, constatamos, então, o que Gabriela já acenara, em um de seus livros: que as figuras provêm do futuro, de seu futuro autobiográfico.

É, pois, celebrando esses encontros — que atestam a força da escrita como ressurreição e a afirmação do que Llansol nomearia “o vivo” — que postamos o texto de Jonas Samudio, ao lado do belo registro de seu curso livre, onde se lêem, no caderno aberto, as palavras “leitura” e “compaixão”. 

Leia, com paixão, o texto de Jonas Samudio, em que Eufêmea escreve:           diz eufêmea que escreve (1)

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Estético convívio

Foto de Lucia Castello Branco

A primeira iniciação foi conduzida por Vania Baeta, com uma dobra oferecida por Janaína de Paula. A segunda iniciação, no próximo dia 10 de outubro, será conduzida por Janaína de Paula, com dobra de Vania Baeta.

Assim se desenha o curso livre ofertado por Vania Baeta e Janaína de Paula, na Cas’a’screver: “Iniciação ao pensamento psicanalítico: com Freud, Lacan e outras literaturas.” Tomando o texto como um início, como uma iniciação, o princípio, como não poderia deixar de ser, é rigorosamente llansoliano: “O começo de um livro é precioso”. E assim ele se desenvolve, a partir dos textos de Freud: “Efêmero”, “A Gradiva”, “O Estranho”, “Além do princípio do Prazer”.

As imagens, como sempre, registram a existência de “um nicho frágil de escrita comum”, no espaço que nomeamos, inspirados por Llansol, de (Pausa)Ler. E o texto de Vania Baeta, lido no primeiro encontro, em 12 de setembro, registra, mais que uma inspiração, um método llansoliano de leitura de Freud e Lacan: “tens que começar numa palavra”.

Leia, aqui, o texto de Vania Baeta: EFÊMERO LEITURA

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Estético convívio

Ana Maria Portugal na Cas’a’screver — Foto de Ellen Cristina Moura Brás

Entre a máquina de costura e a máquina de escrever, ela começou a apresentar suas notas de leitura do Seminario 1, de Lacan, sobre os escritos técnicos de Freud. Assim começamos a série dos quatro encontros com Ana Maria Portugal Saliba, que vai costurando, sutilmente, o pensamento de Lacan ao pensamento de Freud, em torno de alguns significantes colhidos criteriosamente da obra deste último, em alemão, numa verdadeira prática da letra em ponto de dicionário.

Um a um, recortados, transpostos para o francês, por Lacan, traduzidos do alemão e do francês para o português, por Ana, esses significantes vão constituindo o que ela chamou, graciosamente, de “picadinho de Lacan”,         e que poderíamos chamar, llansolianamente, de “imagens soletradas”.

Em cada um dos encontros mensais, ja transcorridos dois deles, podemos dizer que o fulgor e a concentração estiveram presentes, em mais um estético convívio da Cas’a’screver que, neste segundo semestre de 2017, iniciou também os seus seminários de psicanálise.

Após reler “A tópica do imaginário”, em Lacan, com o olhar de Ana Portugal, restaurando a precisão e a dignidade do imaginário, talvez pudéssemos dizer, com Llansol: “ Viver com imagens é a nossa arte de viver. Reparem, sem o seu fulgor, não saímos da simetria.” As fotos de Ellen Cristina Moura Brás, capturadas sem que ninguém percebesse, o testemunham.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

O encontro inesperado do diverso

 

clarice-lispector-carolina-maria-de-jesus
Fonte da imagem: https://revistacult.uol.com.br/home/escritor-e-acusado-de-racismo-por-trecho-em-biografia-de-clarice-lispector/

No próximo dia 13 de outubro, teremos finalmente disponível, pela Amazon, a Trilogia dos Rebeldes, de Maria Gabriela Llansol, traduzida para o inglês, esta língua que atravessa continentes. Saudamos a edição americana desses livros que inauguram a textualidade llansoliana, embora com pesar, por um prefácio que não faz jus à força do vivo, tão evidente em seus livros.

Lamentamos ainda o “empuxo ao comparativismo binário”, que não se desloca do eixo de fontes e influências, proposto por Benjamin Moser, em seu prefácio. E aqui aproximamos Maria Gabriela Llansol de Clarice Lispector e ainda de Carolina de Jesus, não porque cada uma delas tenha se deixado influenciar pela outra, mas justamente porque cada uma, incomparável em sua solidão essencial, sustentou, em seus textos, a força de existir e a pujança do vivo.

A estas três absolutamente sós aqui rendemos homenagem, com o breve comentário de Lucia Castello Branco, originalmente escrito em inglês, para que possa ser lido na língua do outro, na esperança de que o outro possa receber, um dia,  a radical estrangeiridade de Maria Gabriela Llansol.


We’re alive, among the living
(reading Maria Gabriela Llansol) [1]

 

“Life for the dead resides in a remembrance (by the living) of their story; justice for the dead resides in a remembrance of the injustice and the outrage done to them […] [The] responsibility is not only to remember but to protect the dead, from being misappropriated.”
Shoshana Felman [2]

 

In 1992, when I first met Maria Gabriela Llansol and her books, I had immediately the impression that they were going to remain to the rest of my life. But, at this point, I had no idea about what the rest of a life could mean to a writer, a professor, a psychoanalyst and also a woman who was already a little bit tired of literature and teaching. At this moment, I haven’t read Barthes’ text about Proust, when he says that the middle of a writer’s life is not a chronologic, but a semantic point. Everything changes, after that semantic mark: not only the writer’s writing, but mainly his or her way of perceiving the world. [3]

Now, after 25 years working with this text, after directing 2 movies about the writer, after directing more than 20 academic works about her literature, after having deserved from Llansol more then 30 letters, after having published more then 3 books about this writer and after having maintained, since 2011, a blog dedicated to Llansol’s reception, in Brazil (www.fiodeaguadotexto.wordpress), I shall say that is really a great pleasure to see her first trilogy, Geography of Rebels, finally translated into English and promising to the world another kind of joy: the joy of the “figural world”, where the figures (different from the characters of the realistic novel) are always alive, even when they are inspired in death historical heroes as Aossê (inspired in the Portuguese poet, Fernando Pessoa) or Dom Arbusto (inspired in the Portuguese king, Dom Sebastião).

This is the first lesson to those that are reading her books for the first time: that the dead, in her texts, are still living, still breathing, still writing, still making love. For Llansol, this is the last aspiration of her “burning text”: the bodies resurrection. The second lesson shall be as strange as the first one: it’s necessary to look forward the “Aesteticum Convivium” to read Llansol, and specially to support the impact of the experience of reading this text that announces that the “landscape is the third sex”, as complex as the woman’s and the man’s sex. The third lesson is about what the writer calls “um corp’a’screver” (“a body’ in’ writing”). And she adds: “Only those that cross this experience know what this is. And anybody is interested about this”.

“Who is capable of supporting this experience of emptiness?” – we read, in the preface of The Book of Communities. And the answer is: “Maybe nobody, not even the book”. And her books, full of this kind of emptiness, are also full of life, full of love and sensuality, full of joy. And these are her questions, that still remain among us: “How to continue the human project? What are we going to do with us? Which dream will dream about us? Where has the flash point gone? How can we break the scenario of ‘déjà vu’ and ‘déjà revu” which enclosure us?” [4]

In one of the first interviews we had, in 1992, Llansol dreamed about the future of her text: “It seems to me that these books will arrive in Portugal after they cross other countries…” [5] Now, they are arriving in U.S. by the translation of Audrey Young, from Deep Vellum Publishing, and they will certainly cross the world by its own strength, but also by the strength of the English language. We shall thus celebrate this great event, reminding Llansol’s words: “Text, a place which travels”, “Text, the shortest distance between two points”.

For us, from the South, in the other side of America, her “legentes” since 1992, who dedicated not only the academic or the poetic life to this text, but also the “rest of a life”, it only remains a single expectation, the same Llansol wrote in one of her books: “Be tender with my shapes”.

Lucia Castello Branco
Writer, Professor of Literary Studies
Federal University of Minas Gerais, Brazil
castella.branco@gmail.com

 

[1] In reference to LLANSOL, Maria Gabriela. Geography of Rebels Trilogy, Deep Vellum Publishing, Dallas, 2017.

[2] FELMAN, Shoshana. The Juridical Unconscious: Trials and Trauma in the Twentieth Century, Harvard University Press, Cambridge/Massachussets/London, 2002, p. 15.

[3] BARTHES, Roland. The Preparation of the Novel, trans. Kate Briggs, Columbia University Press, New York, 2011.

[4] LLANSOL, Maria Gabriela. Lisboaleipzig: O Encontro Inesperado do Diverso; O Ensaio de Música, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014. p. 129.

[5] LLANSOL, Maria Gabriela. Entrevistas, Autêntica, Belo Horizonte, 2011, p. 51. [Interview to Lucia Castello Branco, 1992]

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Sobreimpressões

Foto de Lucia Castello Branco

“No meu trabalho devo ser flexível, dobrar-me, tal como agora, sobre a grandeza em que coso; esta casa fica no fim do jardim e não conhece a falta de misericórdia; está situada abaixo e atrás da agitação de Jodoigne e, se exprime actividade, é de modo vago e geral; não tem fim, nem limites, e é verdadeiramente a nossa habitação; nunca será tão antiga que desapareça da memória.” (Finita, p. 92)

Ouça aqui a entrevista de Lucia Castello Branco, concedida ao programa “Universo Literário”, da Rádio UFMG Educativa, em que a escritora fala de seus livros, da escrita, da psicanálise, da vida e de Maria Gabriela Llansol.  https://www.ufmg.br/online/radio/arquivos/048693.shtml

Foto de Lucia Castello Branco

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário