Sobreimpressões

A travessia da noite — Foto de Lucia Castello Branco

Para chegar até o mar, seria preciso, antes, atravessar o rio. E ali reencontrar, na travessia da noite, aqueles que sempre estiveram junto ao texto de Llansol, em seu futuro autobiográfico: Mãe Marlene, Cynthia Barra, Janaína de Paula, Sylvie Debs, Cinara de Araújo e seus alunos.

Para voltar ao mar, seria preciso, antes, atravessar o rio. E ali reencontrar, na travessia do dia, as memórias do mar, na prática da letra que envolveu aqueles dois dias de trabalho, em Porto Seguro, e mais outros dois dias de trabalho, em Salvador.

Antes, Sylvie Debs já havia lido, como tradução para cidade-refúgio, o porto seguro. Depois, Cinara de Araújo haveria de afirmar a tradução como exercício infinito de aproximação do outro, para sempre outro. 

Mas a experiência, ali, no mar interior, não seria a de “perder-se no outro perdido”. Antes seria a de encontrar, enfim, um pouso onde o poema expandido e a paisagem fariam um ambo.

Em nome de um ramo que um dia atravessou o mar, chegamos, afinal, a algum lugar onde ele pudesse ser plantado, adubado, para que só depois,  florescido em poesia, pudesse enfim atravessar o dia.

A travessia do dia — Foto de Lucia Castello Branco

Prática da Letra: Memórias do Mar — Fotos de Daniel Durans

Mar Interior — Foto de Lucia Castello Branco

Anúncios
Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Estético convívio

Antes, ainda, de acontecer, mas tendo já acontecido. Antes mesmo de rever o mar, mas tendo-o dentro de si, como movimento. Eis o que nos aguarda esta semana, em estético convívio: o seminário “Memórias do mar”, organizado por Cinara de Araújo e seus alunos, na Universidade Federal do Sul da Bahia, em Porto Seguro.

Ali teremos a presença de alguns que já acompanham o texto de Maria Gabriela Llansol há tanto tempo: Cinara de Araújo, Cynthia Santos Barra, Janaína de Paula e Lucia Castello Branco. Ali teremos a presença daqueles que, no futuro, de tão longe tão perto, estão a acompanhá-la: Sylvie Debs — com o projeto CABRA, as Casas Brasileiras de Refúgio — e Mãe Marlene, cantora de leitura, com seus orikis. Além destas amigas, tantos outros colegas — dentre os quais saudamos especialmente os alunos, legentes — “alguns que conheço, outros que nunca vi”.

Em viagem ao mar da Bahia, segue uma prática: a prática da letra. Em viagem ao mar da Bahia, segue um projeto: “Para que o romance não morra”. Em “memória do mar”, a restante vida — aquela que atesta, como queria Llansol, que “não foi o mar, mas o seu movimento, o que nos foi dado em herança”. 

Imagem | Publicado em por | Deixe um comentário

Notas de leitura

foto de Tatiane Souza

Notas sobre o amor. Talvez assim pudéssemos pensar estas notas de leitura, enviadas por Tatiane Souza e extraídas de Holder, de Holderlin, em sobreimpressão com os poemas do próprio autor.

Notas sobre o perdido amor? “Perder-se no outro perdido é a experiência que está a ter”, dizem elas, as notas.  Mas o amor está ali: “distante como a palma da mão”.  Ele, ” que nos faz curvar a todos para que passemos debaixo da sua lei “.

Notas, antes de tudo, “sobre o trabalho infindável de leitura”. Ler, no amor em fracasso. Ler, com as letras que despencam do próprio nome. Ler, no sem apoio que se apoia no sem apoio.

Mas ler, sobretudo, levando em conta o calendário em que “deve impor-se imediatamente a noção de noite”: a página branca sob o negrito das letras, a noite branca sobre a mancha negra na página.

Foto e composição de Tatiane Souza

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Notas de viagem

Notas de viagem,  de Clara Bois

Estas notas, enviadas de Los Angeles por Clara Bois como uma espécie de diário da fotógrafa, permitem-nos evocar Llansol.

Onde Clara lê o invisível, Llansol talvez escrevesse: “o desconhecido que nos acompanha”. E, em ressonância a seu gesto de “capturar o nada” e de inscrever o “vazio branco”,  Llansol talvez acrescentasse: “sabe-se que o Vazio não se apóia sobre o Nada”. 

“Quem há que suporte o Vazio?”– alguém indagaria.  “Talvez ninguém”, responderíamos, o “feminino de ninguém” que, invisível, insinua-se no pensamento destas imagens.



Fotos de Clara Bois

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Notas de leitura

Foto de Jonas Samudio

Como pensar a Páscoa “fora de qualquer contexto religioso ou sagrado”, tal qual o Deus de Maria Gabriela Llansol? Talvez pensando a ressurreição no campo da leitura, da tradução, da sobreimpressão.

É o que vemos aqui, com as notas de leitura enviadas por Jonas Samudio, quando lemos Jean-Luc Nancy, Llansol e Theresa de Lisieux, numa espécie de prece, que assim repetimos: “que minha escrita seja feminina e descalça”. E que ela encontre, no futuro, “alguém que me ame com bondade e saiba ler”.

Fragmento de O jogo da liberdade da alma  — Foto de Jonas Samudio

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Notas de viagem

Foto de Maria Fernanda Machado

              “Tal como sou acompanhada pelos lagos — águas adormecidas naturais e duráveis  –, de igual modo deve fazer parte da sombra,                      que se desloca comigo,                                                                                                                inscrever os dias estendidos por longos períodos de tempo. 

                No seu calendário deve impor-se imediatamente a noção de noite — uma semana, um mês, um ano de noites.”

Estas palavras de Maria Gabriela Llansol são evocadas aqui para abrirmos esta nova série — Notas de viagem –, que se abre também com a noite branca de Brighton, trazida por Maria Fernanda Machado.

Parece-nos que estas notas, inicialmente de leitura, trazem marcadas não só a sua estrangeiridade, ou entranheiridade, mas também a “noção de noite”, que termina por se impor àqueles que, para além do ler, arriscam-se no escrever.

Entre a leitura e a escrita, uma viagem aí se inscreve. E se escreve. “Viajar, ou mesmo viver, sem tomar notas, é uma irresponsabilidade” —  leríamos, nos diários  de Kafka. “O texto, lugar que viaja” — escreveríamos, com Llansol. 

Leia, aqui, as notas de escrita de Fernanda Machado:tem sombra na noite

Fotos de Maria Fernanda Machado

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Notas de leitura

Foto de Cinara de Araújo

“O caderno não é o escrevente do texto, mas o lugar por onde o texto aprende a materialidade do lugar por onde corre.”

Estas palavras de Llansol podem ser evocadas aqui para anunciarmos as “Notas de Fevereiro”, enviadas por Cinara de Araújo, extraídas das oficinas de letras por elas conduzidas na USB — Universidade do Sul da Bahia –, em Porto Seguro, e no 12 Festival de Verão da UFMG, em Belo Horizonte, onde conduziu a oficina “Hoje grafo no espaço”.

Não, o caderno não é o escrevente do texto. Mas é ali, nesse suporte de papel, que o texto aprende a materialidade do lugar. E corre: pelo mar, pela areia, pelo céu, por todos os espaços onde é possível grafar.

A fotografia como método. A biografia como método. E o biografema como a letra mínima que resta de uma vida. Afinal, como observa Roland Barthes, “na atividade de uma vida é preciso sempre reservar uma parte para o efêmero” e esse efêmero também é possível grafá-lo: em uma letra, em notas de leitura.

Fotos de Cinara de Araújo

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário