Estético convívio

                     Patrícia Kauark na (Pausa)Ler, em foto de Ana Alvarenga

                         Jonas Samudio na Cas’a’screver, em foto de Pri Arantes

 

O encontro inesperado do diverso. É assim que recebemos, hoje, a visita fulgurante de Patrícia Kauark, que nos apresentou os Cantores de Leitura, na clave da teoria quântica: a partícula, seu duplo, seu contexto. E, em seguida, o fulgor da escrita de Jonas Samudio, no lançamento de A mais aberta, livro inteiramente produzido por uma pequena comunidade da Cas’a’screver.

Assim, em sobreimpressão, os dois espaços da Cas’a — a sala de espera e a sala da pausa — estiveram para sempre interligados por uma fita de voo: a escrita e a leitura, a escuta e o espanto, a voz e o silêncio. E ali, por toda a parte, a presença de Maria Gabriela Llansol na Casa da Saudação.

 

                                                Foto de Ana Alvarenga

                                                      Foto de Ana Alvarenga

                                                     Foto de Pri Arantes

                                                        Foto de Pri Arantes

                                                  Foto de Ana Alvarenga

Foto de Ana Alvarenga

                                                      Foto de Pri Arantes

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Estético Convívio

 

Ainda na semana que passou, a Cas’a’screver recebeu, para fechamento da oficina “Do lugar à imagem”,  conduzida por Lia Krucken, em novembro do ano passado, os oficinantes e suas imagens. Esteve presente também a própria Lia, vinda de Hamburgo para Belo Horizonte, visitando a Cas’a e oferecendo, “como um presente dado num dia feliz”, os cartões com imagens das diversas casas e da Cas’a, além de uma exposição que lá está, em nossa parede da sala de espera, aberta a outras intervenções. Ali, além das imagens, podemos ler os textos sobre o “espírito do lugar” — todas as casas, a Cas’a –“onde reina ainda uma profusão amarga de sinais”.

Deixamos aqui um rastro desse delicado estético convívio e suas imagens, além de um fragmento de um dos textos sobre a casa, extraído do poema de Herberto Helder, e certa vez enviado por João Rocha a Lucia, que o enviou a Lia, que o enviou aos oficinantes. As casas são, assim, em “lugar que viaja”, como cartas que sempre chegam a seu destino.

Leia, aqui, trecho do poema de Herberto Helder: herberto helder casa (1)

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Estético convívio

                                      ” Escutar a escuta” — Foto de Camila Morais

Na última terça-feira à noite, dia 18, a Cas’a’screver, em mais um Encontro de Leitura, abriu às portas àqueles que se entregaram à experiência de escuta da leitura proposta por Janaína de Paula e Maraíza Labanca para o texto À escuta, de Jean-Luc Nancy. Ali estivemos, durante mais de três horas, “à beira do sentido”, ou “num sentido de borda e de extremidade”, a ouvir a ressonância.

Restam, da noite, as franjas do sentido, nas palavras de Marguerite Duras, escritas no quadro negro e iluminadas pela lua: “A gente se habitua a ouvir a ressonância. É isso”. E estas que se seguem, de Maraíza Labanca, a fazerem ressoar as palavras de Jean-Luc Nancy, de Janaína de Paula, de Juliano Pessanha, de Maria Gabriela Llansol:  Texto de Maraíza Labanca

                              “A ouvir a ressonância” — foto de Camila Morais

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Sobreimpressões

       Foto do quarto de Bruno Borges, extraída de matéria publicada pelo G1 (internet)

A profusão amarga de sinais

Talvez fosse preciso pensar na escrita como uma glândula que produz secreções que, expulsas do corpo, guardam com ele estranhas relações de intimidade e de extimidade. Talvez fosse preciso pensar na escrita assim, como Maria Gabriela Llansol a vislumbrou:

Era uma vez um animal chamado escrita, que devíamos, obrigatoriamente, encontrar no caminho; dir-se-ia, em primeiro, a matriz de todos os animais; em segundo, a matriz das plantas e, em terceiro, a matriz de todos os seres existentes. Constituído por sinais fugazes, tinha milhares de paisagens, e uma só face, nem viva, nem imortal. Não obstante, o seu encontro com o tempo apaziguara a velocidade aterradora do tempo, esvaindo a arenosa substância da sua imagem.

E talvez fosse preciso ir ainda mais longe, pensando nesse corpo animal da escrita, corpo de uma só face e de milhares de paisagens, como o que guarda a eternidade cifrada nas letras. E esse corpo secretado — espécie de lágrima rara, milagre da pérola na banalidade da ostra –, é também um corpo segregado, separado daquilo que o produziu. Por isso, é possível dizer que o segredo da escrita é ainda menos secreto que as vias de acesso a esse segredo.

Esse mistério nos impacta, ainda hoje, quando nos encontramos com essa “matriz de todos os seres existentes” nas paredes de um quarto, dispensando a presença e mesmo a assinatura do escritor, envolvendo e de alguma forma protegendo sua desaparição. É o que nos ocorre pensar, diante do gesto psicopoético do jovem Bruno Borges, de 24 anos, cuja performance, no limite do corpo, faz coincidir o nascimento de uma criptografia, inscrita nas paredes de seu quarto e em 14 livros cuidadosamente compostos, com seu próprio desaparecimento.

Ao ver a instalação de Bruno como cenário de sua retirada, cuja única presença humana é aquela encarnada pela estátua de Giordano Bruno, a testemunhar o milagre da escrita e o devir de seu nome — a desaparição –, não há como não evocar Llansol e sua “profusão amarga de sinais”:

Sonho com o dia em que a presença que de nós ficará nos textos não será a do nosso nome próprio. Em que os signos de nossa travessia serão destroços de combate, toques de leveza     o que eu esperava ficou, ficou a chave, ficou a porta, ficou a pedra dura ao luar (…)

os homens saem da sua identidade. E o texto arrasta-nos para os lugares da linguagem onde seremos seres de fulgor, indeléveis e diáfanos, última parede iluminada de uma casa que se apagou, numa das avenidas da cidade serrana, onde reina ainda uma profusão amarga de sinais

Aos dois, aqui sobreimpressos, direi: “sou aturdida pela presença de vossa escrita, que me acompanha pelas vertentes e pelas ruas”. E as imagens permanecerão hermeticamente fechadas, até que alguém que as ame com bondade possa, um dia, enfim, abri-las à leitura.

                                                                                                             Lucia Castello Branco

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Companheiros improváveis

   O livro branco de Daisy Turrer — foto de Lucia Castello Branco — Belo Horizonte,  2017

Dos companheiros improváveis de Maria Gabriela Llansol já presentes nesta série, talvez Mallarmé, ao lado de Pessoa, seja o mais improvável. Mas não no mesmo sentido. Pessoa, sabemos, metamorfoseado em Aossê, foi mesmo objeto de um dos Livros de Horas, o de número V, O Azul Imperfeito, publicado pela Assírio & Alvim, em 2015. E já aí podemos vislumbrar, pálida e resistentemente, o Azul de Mallarmé.

Mas sabemos que um dos livros que Llansol deixou praticamente pronto, desejando ardentemente sua publicação, foi o livro de poemas de Mallarmé, em cuja tradução e organização trabalhou infatigavelmente, nos últimos anos de sua vida. Depois de sua morte, soubemos também que sua publicação “não vale a pena”. Perguntamos: de quem é a pena? E é em Llansol que encontramos, enviesadamente, uma resposta. No prefácio a sua tradução dos Últimos poemas de amor, de Paul Éluard, lemos, em forma de pergunta, este desabafo: “O poema não soube, então, responder à única pergunta da poesia: será possível olhar sem cindir?”

Propomos que o “olhar sem cindir” seja a tarefa não só do poeta e daquele que traduz a poesia, mas também daqueles que a editam. É esta, afinal, uma das questões centrais do Livro de Mallarmé, que sua pena tentou circunscrever, ao longo de sua vida. É esta uma das questões cernidas pelo belo texto de Janaína de Paula, “A experiência de Mallarmé: o ato só de escrever”, que aqui damos a ler numa espécie de olhar sem cindir, celebrando, secretamente, a improvável amizade de Llansol e Mallarmé. E assim respondemos, na voz de Pessoa metamorfoseado em falcão: “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Leia aqui, em pena de falcão e na íntegra, o TextodeJanaínadePaula.

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Esta é minha carta ao mundo

Desta breve mensagem de 14 de maio de 1999, destacamos as palavras de Gabriela:             ” depois de mais nada saber sobre o que se julga saber”, “o aquém das nossas limitações”.

“Curso de silêncio, em memória de Gabriela ” —  foto de Lucia Castello Branco

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Companheiros improváveis

“Troncos” — Foto de Lucia Castello Branco

Bastaria que lêssemos a frase de Kafka — “a partir de certo ponto não há mais retorno” — para termos a suspeita de que Maria Gabriela Llansol e Herberto Helder em algum ponto terminariam por se encontrar. Mas é justamente no “corpo de poema” que eles  se tocam, como companheiros (im) prováveis. Pois, se um corpo é mais que  vísceras e humores, como assinala Llansol, é também de vísceras e humores que ele se constrói. Onde ela escreveria ruah, ele talvez escrevesse ” um nó de ar no coração”. Onde ela desenharia  um corp’a’screver, ele talvez projetasse “um nó de sangue na garganta”. E, no entanto, para ambos a meta é outra: a da metamorfose, não a da metáfora. Assim como é outra a paisagem: a da substância lenhosa da árvore da carne, a carne da língua. Ouçamos , pois, o silêncio de MGL à volta do poema de HH, no belo texto de Erick Gontijo:  Texto Erick Gontijo

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