Notas de leitura

Foto e composição de Maria José Vargas Boaventura

“Quem precisa que um ramo entre em sua vida?” Esta é a pergunta uma vez lançada por Maria Gabriela Llansol, que hoje nos ocorre, quando, em festa de nascimento — o Natal –, anunciamos também o fim de mais um ano — o de 2017 — e a celebração do novo ano que começa.

E, celebrando este começo, inauguramos, em nosso fio de água, mais uma série, intitulada “Notas de leitura”. Aqui caberão todas as notas que, em sua vibração de notatio, como aponta Roland Barthes, assinalam a “intersecção problemática de um rio de linguagem, linguagem ininterrupta:  a vida”.

Foi assim que nos chegaram as notas de leitura de Erick Gontijo: como mensagem de final de ano e como anúncio de uma “palavra começante”. E assim retornamos a Heráclito e a Heidegger, e  ainda a um presente de Natal que um dia chegou, há quase vinte anos, enviado por Manoel de Barros a Lucia Castello Branco.

Talvez, então, possamos dizer que o sentido das notas de leitura é o mesmo sentido que um dia Maria Gabriela Llansol conferiu ao ramo — este anagrama perfeito de amor — que dela recebemos como herança, a cada vez, aqui, em rio de linguagem, no fio de água do texto.

Assim, celebrando todos os nascimentos — dentre eles, o de Llansol, a 24 de novembro, o de Manoel de Barros, a 19 de dezembro, e o de um “menino Jesus verdadeiro”, “o mais sublime dos meninos”,  a 25 de dezembro –,  anunciamos o nascimento desta nova série e desejamos a todos boas festas e a alegria dos encontros inesperados do diverso.

Notas de leitura — Erick Gontijo

Foto de Lucia Castello Branco (acervo pessoal)

Dedicatória de Manoel de Barros em Heráclito (Martin Heidegger)                                  (acervo pessoal de Lucia Castello Branco)

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Cas’a’screver expandida

Foto de Lucia Castello Branco

Num encontro inesperado do diverso, a Cas’a’screver e o Ateliê de Psicanálise estiveram juntos, celebrando, no último dia 10 de dezembro, o nascimento de Clarice Lispector.

Ali, enquanto líamos em voz alta trechos colhidos de Clarice Lispector, talvez pudéssemos repetir, silenciosamente, um convite de Llansol à leitura expandida: ” Por quanto tempo lês um breve período extenso?”

Leia, abaixo, o texto enviado de Ouro Preto por Claudia Itaborahy, testemunhando o tempo de morangos, naquela manhã de domingo em que o céu finalmente se abriu sobre o pico do Itacolomy.

 

cartas lançadas ao mar mais bilhetes colados na cidade. quem poderia, como ela, deitar ao pé daquelas letras? em conpanhia de um sol-quase verão, as vozes de clarice leram correspondências, cantaram tempo de morangos, em felicidade clandestina. o valor de raridade do tempo parecia estar ali — mesmo que anunciado pelo receio da chuva chegar repentinamente e modificar  o mundo das coisas, escondendo o sol, roubando o calor daquele domingo, matando macabéa.

o encontro aberto, com as cadeiras da rua, e as imagens rodando sobre a cabeça de Clarice L. os carros e as pessoas não paravam de passar,

só alguma coisa pousou naquele instante, naquela hora da estrela. algo como um momento em que uma carta recebida é aberta.

às vezes sentava-me na rede,                                                                                                  balançando-me com o livro aberto

no colo,                                                                                                                                              sem tocá-lo,                                                                                                                                    em êxtase puríssimo.  (C.L.)

Foto de Claudia Itaborahy

Foto de Claudia Itaborahy

Foto de Lucia Castello Branco

Foto de Lucia Castello Branco

Fotos de Lucia Castello Branco

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Companheiros improváveis

Foto de Jonas Samudio

O que podem ter em comum Maria Gabriela Llansol e Edmond Jabès? Talvez tão somente um curso de tinta.

O que têm em comum Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Maria Gabriela Llansol? Talvez a convivência, lado a lado, de um livro com sua quarta capa, um livro e suas orelhas. Talvez tão somente uma escrita que se abre à escuta dos movimentos silenciosos de um texto: um livro e suas margens.

E, afinal, o que têm em comum a noite belorizontina e o anoitecer no vilarejo de Sintra? Talvez aquela última luz de uma casa que enfim se apaga, numa cidade serrana, onde reina ainda uma profusão amarga de sinais. 

É o que nos dão a ver as belas imagens enviadas por Jonas Samudio para iluminar o texto caminhante de Tatiane da Costa Souza, que aqui damos a ler: PALAVRACAMINHANTE,

Fotos de Jonas Samudio

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Cas’a’screver expandida

Foto de Lia Krucken

Mais, ainda —  desdobramentos da oficina “Outras vidas do objeto”, ministrada por Lia Krucken, mais ao sul. Mais, ainda: Maria Gabriela Llansol, em Parasceve, em O livro das comunidades, em encontro inesperado do diverso. Mais, ainda: as páginas arrancadas dos livros antigos, recompondo textos, como a melhor forma de amor: “aquela que se abre para fora de si mesma”. Em ramo de escrita e imagens, em sutis sobreimpressões.

Obra de Fabiana Mateus, libertando “Römische Elegien”, de Goethe.


Outras vidas do objeto
Fotos de Lia Krucken

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O encontro inesperado do diverso

 João Rocha na (Pausa)Ler da Cas’a’screver –Foto de Claudia Itaborahy

“A Escola A Casa”. Parece que foi mesmo assim que se deram, por aqui, os encontros, celebrando o nascimento de Llansol: na Cas’a’screver, ontem, e ainda numa certa casa expandida, levada por Lia Krucken até mais ao sul, em Florianópolis, com sua oficina “Outras vidas do objeto”, inspirada também na textualidade de Maria Gabriela Llansol. 

Damos a ler, aqui, o impressionante texto em defesa das “comunidades inoperadas”, apresentado, ontem, por João Rocha, na Cas’a’screver: 

Há 86 anos (1)

E damos a ler, também, as belas imagens enviadas por Lia Krucken, de Florianópolis, como mais um registro de que Llansol aqui, neste país, ainda vive. E também mora e ainda demora, em sua maneira de conceber “A Escola A Casa” como um “encontro inesperado do diverso”, com sua força de “escavar vazios na cultura” e de nos manter “vivos no meio do vivo”.

Florianópolis — Foto de Lia Krucken

Outras vidas do objeto — Foto de Lia Krucken

Outras vidas do objeto — Foto de Lia Krucken

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Estético convívio

Interior da casa de Maria Gabriela Llansol, em Sintra, Portugal —  Foto de João Rocha

João Rocha, na (Pausa)Ler da Cas’a’screver — Foto de Claudia Itaborahy

Estivemos durante um tempo assim, pensando naquele nome tão íntimo e tão singular com que Maria Gabriela Llansol chamava a Escola da Rua de Namur: A Escola A Casa. Estivemos durante um tempo assim, na Cas’a’screver, nesta manhã de sábado, dia seguinte do aniversário de 86 anos de Gabriela, pensando n’O livro das comunidades como um nascimento: aquele de “animar uma escola”, como ela o descreveu. Estivemos um tempo assim, a escutar o texto límpido de João Rocha, que falava de sua experiência como jovem professor, atravessada pela leitura desse livro.

Antes, na véspera, na Universidade Federal de Minas Gerais, casa que abrigou e abriga ainda muitos dos que se encontravam ali, hoje, na Cas’a’screver, a festa também era a do aniversário de Llansol. Ali, nos dois cursos ministrados por Lucia Castello Branco, celebrava-se a textualidade de Llansol com trabalhos apresentados por alunos dos dois turnos — manhã e noite –, celebrando também os vinte e cinco anos de leitura desse texto, nessa instituição, e a despedida dessa professora dos cursos de graduação em que atuou, durante trinta e três anos.

Enquanto líamos que o Espaço Llansol inaugurava a sua nova sede, no Campo de Ourique, em Lisboa, realizando um dos últimos desejos de Llansol — o de retornar ao lugar de origem de sua escrita –, escutávamos os ecos de uma frase da escritora, trazida de volta por João Rocha, em seu retorno à Cas’a’screver: “É a minha casa, mas creio que vim fazer uma visita a alguém.”

Ali estava Llansol, fazendo a sua visita, como sempre esteve, em sua casa. E um de seus últimos desejos, aquele rabiscado a lápis em uma página de seu exemplar do I-Ching: o livro das mutações, aquele mesmo que ela guardava consigo, ao lado de seu exemplar da Ética, de Espinosa, na mesa de cabeceira do hospital em que esteve internada, um ano antes de vir a falecer, então se dava a ler: “viagem ao Brasil”.

Essa página de seu livro, como tantas outras de seu caderno, já deve ter sido arrancada. Mas nada foi ainda capaz de abalar a potência de agir e a força de existir desse corp’a’screver que chegou a Minas Gerais há vinte e cinco anos e aqui encontrou morada e ainda demora: na UFMG, na Cas’a’screver e nos corpos daqueles que se reúnem, em comunidade, a cada vez, de novo, à volta de seu texto.

Veja as fotos de ontem e de hoje e leia, amanhã, o texto de João Rocha. 


Foto de Jonas Samúdio

Foto de Lucia Castello Branco

Foto de Lucia Castello Branco

Foto de Lucia Castello Branco

Foto de Lucia Castello Branco

Curso “Maria Gabriela Llansol e o feminino de ninguém” —  Foto de Lucia C Branco

Curso “Diários da escrita” — Foto de Fabiano Ferraz Dantas

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Cas’a’screver expandida

Livros publicados pela Cas’a’screver

No último sábado, a Cas’a’screver esteve presente, com suas publicações, na C.A.S.A. (Centro de Arte Suspensa), para a feira de Cultura, Arte e Gastronomia. 

Temos trabalhado nos textos que nos chegam às mãos com desejo de livro, a partir de uma frase de Mallarmé — “tudo no mundo existe para culminar em livro” —  e sua dobra: “tudo no livro existe para culminar em mundo”. Ao trazer esses textos ao mundo, pensamos o gesto de composição do livro com o cuidado de quem deseja que os caminhos do mundo não se afastem demais da matéria figural que guarda, em sua linha, a restante vida, o desejo de vida e o desejo de mundo, tão bem formulados por Maria Gabriela Llansol:

                                                    “já que um livro, uma cidade e um jardim podiam                                             coincidir, havia que temer que os nossos caminhos não                                             divergissem — só me restava a matéria figural, que na                                               pena de quem escreve dissimulasse a peste que mata                                                 quem lê.”

Uma cidade, um livro, um jardim, lugares coincidentes pelo movimento de acolher o disperso no aberto de sua paisagem. O disperso na dispersão das imagens, abrigadas na pena de quem escreve. Nela resta a matéria da palavra, sua função criativa, “pois um ato é uma palavra” (Lacan), ponto no qual tocamos os limites da linguagem, “essa substância lenhosa da língua e que os antigos chamavam silva (floresta)” (Agamben). É com ela que se faz um livro, uma cidade, um jardim. Talvez porque a peste seja a exigência de reconduzir a matéria liberta da representação a um livro que almeje o todo, fazendo desaparecer a dispersão daquele que lê e deixa espalhadas sobre a mesa todas as letras do nome de Amor. 

E foi assim, no desejo de mundo e da liberdade da alma, que os livros foram recebidos nesse espaço que abriga o teatro, a dança e a arte, em suas mais variadas manifestações. Durante o encontro, sutilmente registrado pelo olhar de Camila Morais e Jonas Samudio, tivemos a oportunidade de escutar os relatos de Flávia Drummond Naves e Julia Panadés, sobre a experiência de composição dos livros Florarvore no jardim da solidão Por não saber fotografar um pássaro, editados pela Cas’a’screver.

Flávia Drummond Neves e Julia Panadés em “nicho frágil de escrita comum”

Flávia Drummond Naves e Julia Panadés

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